Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Que fazer?

Alguém, creio que militante do PCTP/MRPP, me recomendou este texto. Trata de uma crítica às posições de Arménio Carlos que, recentemente, defendeu que o aumento do salário mínimo por forma a dinamizar o mercado interno. Estas duas posições colocam um dois mais fundamentais problemas do marxismo mundial. Mas, sobretudo, estão assentes num erro analítico. Vejamos cada um destes dois aspetos.

1. Este desacordo é o mesmo que opôs Trotsky a Bakunin e, mais tarde, os stalinistas (inspirados no Stálin da terceira fase da Revolução Russa) e os krushchevianos.  É uma oposição entre a utopia e o pragmatismo. Ela põe-se do seguinte modo:

Numa situação social onde as condições subjetivas entram em descompasso com as condições objetivas, que fazer? Isto é o que se passa no momento atual. A crise económica está a pôr em causa o funcionamento da própria economia. É um salve-se quem puder, onde a burguesia entrou numa guerra intestinal, perdeu legitimidade, está vulnerável. A burguesia encontra-se, atualmente, numa tal dependência do Estado, que a toma do Estado seria a toma da economia. Por outro lado, os trabalhadores continuam a não mostrar-se capazes de unir-se e tomar o Estado. Aliás, colocando a culpa da crise no Estado (isto é, na corrupção), muitos acham legítimo que o Estado pague agora por um suposto “esforço” que José Sócrates exigiu dos bancos. Neste contexto, como atuar? Ser utópico e defender o programa mais ajustado às condições objetivas? Ou, pelo contrário, ser pragmático, dar um passo atrás, e colocar-se à frente das massas mas sem descolar delas?

A história costuma dar razão aos pragmáticos. Vejamos um exemplo. Segundo Constantino Piçarra, Álvaro Cunhal, em Rumo à Vitória, tinha defendido a Reforma Agrária; mas o primeiro Congresso livre do PCP dá um passo atrás. O PCP propõe-se a lutar por aquilo que os trabalhadores alentejanos estavam dispostos a lutar: pelo pleno emprego. Ganhando assim o Sindicato dos Trabalhadores Agrícolas, o PCP mantém-se na direção da luta e a própria dinâmica da luta vai mostrando aos trabalhadores a inevitabilidade da Reforma Agrária. Em novembro de 1974, os trabalhadores exigem ao Estado que tome conta de um Quinta cujo proprietário se recusava a reconhecer o acordo de concertação laboral. Em fevereiro de 1975, depois do sucesso da nacionalização daquela propriedade, são os próprios trabalhadores que colocam como seu objetivo fazer a Reforma Agrária. E o protagonismo do PCP foi expresso eleitoralmente durante toda uma geração.

2. Curioso, acabo de ler um texto do filósofo marxista húngaro, Gÿorgÿ Lukács, para quem esta discussão assenta num erro. Do ponto de vista marxista, não pode haver uma falta de sintonia entre condições objetivas e condições subjetivas. O que existe é, isso sim, uma simplificação da análise da realidade. Posto por outras palavras, se se verifica um descompasso entre a crise económica e a visão política das massas, o erro está numa análise insuficiente – o descompasso não pode existir.

Aqui o caso é complexo, porque deve-se a um erro de tripla natureza. O primeiro é simplificar Marx. Se a sociedade capitalista tem duas classes fundamentais, ela não se resume a duas classes. Assim. é preciso pensar uma estratégia em função de alianças de classe. Sem dúvida, a postura de Arménio Carlos pressupõe a vontade de construir uma aliança entre os trabalhadores e os pequenos comerciantes. É, portanto, óbvio que essa solução implica concessões. Obviamente, a questão não é discutir se existem concessões (como faz a crítica ao líder da CGTP); mas se a aliança é pertinente.

O segundo erro é deturpar Marx. Ao reduzir economia à economia burguesa – à concorrência entre diferentes setores económicos – torna-se impossível compreender em que medida as condições económicas são o suporte objetivo da moral das massas. Neste sentido implica regressar a uma definição mais ampla de economia (e, portanto, de infraestrutura) e analisar de que se trata quando se fala em desaparecimento da classe-média. Mas isto não se resolve sem ultrapassar um terceiro erro: ir além de Marx. Isto é, estar disponível para aplicar o método dialético à realidade atual que – nunca é demais dizê-lo – não foi estudada por Marx. A análise dialética dos processos eleitorais não está feita, por exemplo!

Eu tenho esboçado algumas reflexões neste blog, no que concerne a estes dois últimos aspectos. E, em resumo (ler aqui, aqui, aqui e aqui), acredito que crise está a levar à queda do centro político. Mas o modo como a democracia está organizada tem levado ao empobrecimento do debate político. Tal pobreza do debate favorece mais ascensão dos fascismo do que do socialismo. Obviamente, isto não tem sido feito nem por utopistas nem por pragmáticos.

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4 de Junho de 2012 - Posted by | Ideologia, Partidos | , , , , ,

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