Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Disparates de esquerda

Apoio a Manifestação pelo Direito ao Trabalho, convocado pelo Movimento Sem Emprego, para o próximo dia 30 de junho. Isto não me impede de discordar de algumas opiniões emitidas pelo movimento. Acabo de ler aqui um texto, “O Direito ao Emprego exige reformas estruturais (mas não as da troika)”, que só pode ter sido escrito por gente desinformada.

O argumento é montado em cima de uma oposição entre emprego residual e emprego estrutural que jamais existiu na cabeça de algum economista. Isto é, nenhum, exceto Passos Coelho. Mas há muito que nas “democracias” ocidentais, os governos não contratam consultores. São os consultores que permitem aos lideres partidários fingir governar. Dirigentes políticos como Passos Coelho são como cães: ladram enquanto a caravana passa.

Assim, vejamos o que diz um desses consultores (Abebe Selassie, chefe de missão do FMI em Portugal):

No que toca ao desemprego, identificamos tanto factores estruturais como cíclicos por trás deste recente, inesperado e acentuado aumento. Do lado cíclico, temos uma política orçamental muito restritiva. Claro que as condições financeiras também são restritivas. Isto explica o lado da procura no fenómeno do desemprego. Mas do lado estrutural o que vemos é o resultado de uma mudança dos sectores não transaccionáveis para os sectores mais exportadores. A subida do desemprego resulta, em parte, da mudança que está a acontecer neste campo e temos que tentar assegurar que esta transição acontece tão rápida quanto possível (fonte).

Ops!!! Será que o FMI e de esquerda? Em nenhum linha, deste trecho e de toda a entrevista, Abebe Selassie culpa dos desempregados pelo seu desemprego. O problema da pouca profundidade analítica de um militante de esquerda é este. Quando dá por si está a falar igual à direita!

Para não dizer disparates é preciso compreender a crise. Portugal viveu, entre 1980 e 2004, um ciclo económico baseado na construção civil. A sua estrutura económica pode ser resumida em “pedreiros”, “funcionários públicos” e “lojistas”. A produção dos primeiros sustentava, pelos impostos e pelas despesas, os outros. O endividamento de todos dava trabalho aos primeiros. Quando esse endividamento se tornou insuportável, o modelo económico ruiu.

A solução recomendada pela Alemanha já se conhece desde junho de 2010: colocar os exportadores no lugar dos construtores civis e reduzir o número de funcionários públicos. Só que para tudo ocorrer sem danos, é preciso que a riqueza que a construção civil deixa de produzir seja imediatamente produzida pelos exportadores. Eu apostaria que, para isto acontecer, é preciso que as exportações cresçam ao dobro do ritmo que a construção civil cai. Mas, apesar dos resultados animadores das exportações, para baixo todos os santos ajudam.

Consequência de tudo isto vê-se na previsão negativa da evolução do PIB. Mas não só. Vê-se também no desmoronamento do sistema financeiro e no aumento do desemprego. E aqui se nota o caráter de classe do Estado português: enquanto para os bancos já existe um plano bem fundamentado e financiado; ainda se discute o assunto de como apoiar os desempregados.

É contra esta descriminação de classe que devemos sair à rua!

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8 de Junho de 2012 - Posted by | Economia, Portugal | , ,

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