Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Policias: entre confusões e importações

Li-o no Facebook, reencaminhado de um site anarquista. Confirmei-o no “rodapé” desta notícia. Segundo um estudo recém-publicado, um em cada dois polícias gregos votaram na extrema-direita. As explicações são imediatas: os defensores do Estado burguês, mais uma vez, defendem o Estado burguês.

Existem dois erros nesta análise. O primeiro, parece-me, deve-se a uma interpretação errada do fenómeno. Ultimamente, neste blog não tenho feito outra coisa senão frisar que o fascismo não nasce nas elites; embora as elites busquem tirar partido dele. O PASOK, na Grécia, é um bom exemplo deste aproveitamento: um partido da família socialista europeia, portanto, um xenófobo inesperado, não recusa apelar para a xenofobia quando de procura desesperadamente obter votos.

O racismo na Europa está a surgir entre os trabalhadores!!! (Já expliquei porquê aqui).

Esta ideia de que a polícia defende geneticamente a elite é latino-americana! E o segundo erro é transpo-la descuidadamente para a Europa. A Europa não teve uma Aliança para o Progresso, em que parte dos fundos foram usados para conceber ideologicamente a formação das forças de segurança do Estado. Portanto, não existem condições [eu acrescentaria “de possibilidade”, mas poucos me entenderiam] para que a ideologia da polícia latino-americana e a polícia europeia sejam as mesmas.

Por razões análogas, é normal que o racismo na América Latina não seja da mesma natureza que o racismo europeu.

Se estou certo em que o racismo nasce no seio dos trabalhadores e, como disse aqui, resulta de uma leitura desinformada da crise, então é igualmente compreensível que apareça tanto nas polícias como nos jovens. (Lembremo-nos que, em França, Marine Le Pen foi a candidata mais votada entre os jovens). Pois é a mediação dos sindicatos – e outras organizações de esquerda que “satelitam” em sua volta – que permite romper com esta leitura desinformada da crise. Ora, os jovens ainda não se encontram no mercado de trabalho e, por isso, sindicalizados. E a atividade sindical nas forças de segurança é extremamente limitada. (Por exemplo, em Portugal não podem fazer greve e alguns corpos de polícia nem sequer podem ter sindicato).

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9 de Junho de 2012 - Posted by | Europa, Ideologia | , ,

4 comentários

  1. Não acho que o fascismo surja nas classes populares, nem nas elites, é costumeiramente entendido como um fenômeno das classes médias urbanas e classes populares ascendentes, mesmo que com apoio de setores do campo (latifundiários, comunidades aldeãs, parte da Igreja).

    É comum que o Estado seja entendido como uma saída para uma crise que parece ter sua origem na ausência do mesmo, e a leitura da crise é produzida por esse setores médios que desejam um Estado salvador, para regular as relações e “organizar” o influxo de mão-de-obra estrangeira.

    Acredito que você ache o mesmo ao colocar em destaque a “leitura desinformada”; a leitura está muito bem informada, por outras agências que não são de esquerda. Na minha visão são os setores médios, desesperados pela ascendência dos imigrantes, e pela desgovernância das grandes instituições financeiras.

    O problema é que o Estado é componente da crise, ele é o motor da crise, e da crise como solução de si mesmo, como agênciamento da acumulação em outros níveis. Os setores médios só querem segurança e emprego, e um pouco de “tudo-como-sempre-foi”.

    Abraço!

    Leonardo Leitão.

    Comentar por Leonardo Leitão. | 10 de Junho de 2012

    • Oi Leonardo,

      Quatro questões. Primeiro, no Brasil, o racismo é algo bem mais complexo. Está ligado à tensão entre a favela e o asfalto; está ligado à expansão da fronteira agrícola; etc. etc. Na Europa, é necessariamente diferente. O racismo europeu devia-se (traduzindo para o Brasil) a: Eu sou pobre porque pago impostos. Pago impostos porque inventaram o bolsa família. Logo não gosto de ciganos que vivem do bolsa família.

      É muito importante expor as coisas nestes termos porque isto, para mim, distingue o pensamento de esquerda do pensamento de direita. A esquerda identifica os mecanismos e as relações que formam a base de um determinado modo de pensar. A direita diz apenas que são próprias de tal grupo (fazendo seu o único problema de bem delimitá-lo)!

      Isto leva-me à segunda questão. O que é a classe-média? De um ponto de vista marxista, a união equivocada da pequena-burguesia com os trabalhadores de colarinho branco. Há quem argumente, com razão, que, quando se falava de classe média no séc. XIX, falava-se de pequena-burguesia. Hoje fala-se de trabalhadores de colarinho branco. Houve uma altura que me preocupei com estes assuntos que chegaram a ser tema de dois posts neste blog.

      A solução com que fiquei é a seguinte. Dada a pressão eterna do mercado sobre os pequenos negócios, a pequena burguesia encontra-se em vias de proletarização e, muitas vezes, semi-proletarizada por contratos com oligopolistas com uma grande empresa. Se todos são trabalhadores ou quase-trabalhadores, a classe média é – defendo eu – a perceção da desigualdade interna na classe operária. São trabalhadores os de cima! Mas, mais do que “os de cima”, são todos aqueles que querem dizer-se “de cima”.

      Posto isto, – terceira questão – o que está a acontecer na Europa e nos EUA é o achatamento e empobrecimento da classe trabalhadora. Isto é, está a desaparecer a classe média. É certo que são os trabalhadores mais mal pagos que estão a perder emprego. A “aristocracia operária” (para usar uma categoria leniniana bem adequada para falar de classe média) está a perder muito menos. Sejamos honesto, perder muito menos é perder 20% do salário. Obviamente é perder muito menos do que quem perde o emprego. Mas os maiores perdedores com a crise – no sentido objetivo e subjetivo – são os jovens que investiram num curso superior com pretensões de ocupar um lugar entre a aristocracia operária. Esses, perderam anos de estudo, perderam expectativas, perderam o rumo.

      É neste contexto que surge uma nova fonte do racismo na Europa. A crise está a levar à descrença na ideologia dominante, como se vê pelo crescimento da abstenção, dos partidos de cariz socialista e de cariz fascista. Uma das coisas que eu tenho seguido com muita atenção é porque é que os jovens – aqueles jovens perdedores da crise – têm maior tendência a adotar o discurso fascista do que o socialista. Parece-me porque é mais fácil. O discurso de esquerda é, como esta análise, contra-intuitivo. O discurso fascista resume-se a: “porque os políticos são corruptos e incompetentes!”.

      Chegamos a um ponto crucial. O contrário de um político corrupto é um político honesto. E honesto é uma palavra dificilmente politizável; tendencialmente conservadora. Na cultura atual, o homem honesto é, na essência o “homem forte/ corajoso”: isto é, – uma vez mais, na cultura atual – o homem branco, heterossexual e de fato e gravata (por oposição à mulher negra, homossexual de mini-saia).

      Eis porque penso que dizer “em geral, os políticos são corruptos” é um erro teórico, tático e estratégico da esquerda, É entregar, como se está a ver na Europa. eleitores à direita,

      Quarta questão: mostro-te que não se faz nada sem Estado noutra altura. Este comentário já vai mais longo que o post.

      Abraço

      Comentar por Jose Ferreira | 11 de Junho de 2012

  2. Eu estava gostando muito do texto até ler que no contexto da crise “20% do salário é perder anos de estudo, expectativas, e rumo” e que isso é objetivamente e subjetivamente uma perda maior do que quem “perde o emprego”. Magicamente quem perde o emprego também some do texto nesse ponto, já que eles não são o problema. O problema são os estudantes que chutaram tudo pra correr pro mercado de trabalho em condições desreguladas e descobriram que a crise no final do turno fez o bônus deles encolher. O dilema desses “estudantes” não é um falso problema porque é verdadeiramente colocado para os indivíduos que crêem nessa via de ascensão social e de manutensão de seus privilégios e é o mesmo incômodo daquele que se sente mais pobre e culpabiliza o “bolsa-família”: se olhar bem de perto a origem do pensamento é o mesmo, é a busca do certificado de segurança para suas apostas de vida; e só aposta quem tem o que apostar. (Quem não tem sumiu no texto ali em cima, como assinalei.)

    O que esse hipotético “maior atingido com a crise” quer e busca é mesmo esse “político branco heterosexual e de gravata” que garanta que a banca não vai quebrar, e que na mesa do poker as regras vão continuar as mesmas do início ao fim (da partida pelo menos!). Não é fracasso da esquerda, porque boa parte dela quer as mesmas garantias.

    Não existe nada sem Estado porque ele massacra qualquer forma de organização contra-hegemônica, ele é a única forma de garantia da previsibilidade (que é provisória, os investidores bem o sabem, e sabem exatamente quando a banca está para quebrar) e por isso o papaizão daquele que se sente empobrecer por culpa dos ciganos (Oh, que pai cruel é esse que alimenta quem não são seus filhos por direito e deixa os legítimos passando i-fome?) e daqueles que consolidam sua carreira na educação superior.

    A crise não é um problema, ela já vai ou já está sendo resolvida, o problema agora é o seguinte: quantos teremos que exterminar para garantir as apostas?

    Abraço cordial, Leitão.

    P.S.: Ao te encontrar ontem no samba lembrei que deixei aqui um comentário, aí vim ver sua resposta. E agora respondo a resposta.

    Comentar por Leonardo Leitão. | 29 de Junho de 2012

    • Oi Leonardo!

      Bom ver-te por aqui.

      A tua resposta suscita-me duas questões. A primeira (segunda no teu texto) é ideológica. Temos visões distintas do Estado! Isso nunca iremos resolver e só me disponho a discutir isso com vc regando com cerveja. Já que não vamos terminar convencendo um ao outro; pelo menos que terminemos entre abraços de bêbado.

      A segunda questão se prende com a minha análise das fracções das classes trabalhadoras em Portugal. Eu fui pouco claro; e vc me citou de forma equivocada agravando o erro. Sinto necessidade de clarificar.

      A política do Estado desde 1983, privilegiou três sectores económicos: a construção civil; a função pública e o pequeno comercio. De tal forma que, em 2004, estes três sectores ofereciam metade dos empregos existentes em Portugal. A construção civil criava a riqueza que alimentava os outros sectores. Os funcionários públicos e os comerciantes eram os clientes dos construtores civis.

      Quando falo uns perderam 20% do salário, falo dos funcionários públicos que perderam subsídios de férias e de natal equivalentes a isso. Quando falo, outros ficaram sem emprego, falo dos pedreiros e dos logistas. Quando falo dos que perderam tudo falo dos filhos de funcionários públicos, pedreiros e lojistas (e outros) que tiraram o seu curso para chegar à classe média e a única coisa que encontraram foi o desemprego. Esses movimentos europeus de indignados e ocupas são fruto dessa frustração e dessa falta de perspectivas. Acho que esclarecendo essa dinâmica interna das classes trabalhadoras te permite outra leitura do que escrevi.

      Eu avancei com esta análise num post que fiz hoje. Podes lê-lo aqui.

      Abraço

      Comentar por Jose Ferreira | 30 de Junho de 2012


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