Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Cultura militante

Quando era criança e, exagerando na brincadeira, passava os limites com a minha mãe, ela me olhava de lado. Eu me defendia: “Estava a brincar”. Ela, para rematar a conversa e desanuviar o ambiente, ripostava: “a brincar, a brincar, o diabo viu o cú à mãe”.

Este preâmbulo permite-me introduzir uma dimensão da ideologia que escapa à maioria – e que determina o papel revolucionário dos artistas. A arte a-política serve à ideologia dominante porque banaliza os problemas. Quando noticiam, no telejornal, “o desemprego subiu”, o mesmo já disseram na novela, na musica do rádio, no cartoon, etc. etc. Nada de novo. O artista a-político defende-se: mas eu não quero saber de política, quero fazer arte, retratar a realidade! Infelizmente, “a brincar, a brincar”, os artistas pela arte vão tornando as coisas fáceis aos governos.

A questão que se coloca então é: como se fala pela milésima vez numa coisa banalizada, como o desemprego, com a intenção de a “desbanalizar”? A sátira bem feita é o melhor modo. Aliás, recomendo ouvir a Rapariguinha do Shopping de Rui Veloso e Quando Janto em Restaurantes dos Deolinda! A diferença é óbvia. A primeira é o retrato fiel, mas banalizante, da sociedade do seu tempo. Aliás, pode estudar-se como pensava a classe média nas décadas de 1980 e 1990 em Portugal a partir das letras que o Carlos Tê compôs para o Rui Veloso cantar. Já a segundo é radicalmente desbanalizante. Tão desbanalizante que desbanaliza um jantar de amigos.

Já sabemos o que aconteceu quando as músicas dos Deolinda tocaram no tema do desemprego!

Também se entende porque os Homens da Luta não foram longe. Tem de ser arte para ter efeitos políticos! Senão é só política – e, nisso, os políticos são melhores que os artistas.

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10 de Junho de 2012 - Posted by | Ideologia | , , ,

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