Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Sucesso, uma questão de classe

Não tenhamos dúvidas: o governo do PSD está a ter sucesso na sua política. O principal problema da crise, o défice da balança comercial (ver aqui também), está praticamente resolvido. A única pergunta que se coloca é “à custa de quem?”. Em primeiro lugar, à custa do consumo e, portanto, da quebra das importações. Até porque o esforço exportador está a ser pequeno: as exportações aumentam mais puxadas pela desvalorização do euro do que pela capacidade empresarial dos portugueses. (Apesar das análises consultadas assentarem em dados de 2011 e de, no mês de Abril passado, as exportações terem mostrado um desempenho surpreendente, mais uma vez podemos atribuir esse desempenho à quebra do euro em relação ao dólar. O euro vem em queda sustentada desde meados do ano passado até aos dias de hoje).

Resta então saber quem está a consumir menos. Para isso basta falarmos de Parcerias Publico-Privadas e de rendas da energia e comparar com os salários. Por exemplo, a EDP não perdeu nada com a renegociação dos contratos do sector energético. Mas, para o chefe de missão da troika, o governo de Passos Coelho “fez o suficiente”. Quanto às PPPs, ainda a procissão vai no adro. O governo disse ontem que quer baixar o seu custo em 30%. Quer dizer, até agora nada contribuíram para a redução de “consumo” (antes pelo contrário).

O ajustamento da balança comercial foi feito à custa da redução de salários que, como reconhece o chefe de missão da troika, incidiu sobretudo nos os trabalhadores com vínculos precários. Mas num momento em que quase metade dos jovens portugueses ganham menos de 600 euros por mês e a maioria dos trabalhadores ganha menos de 900 euros, já fomos informados que o corte nos salários é para continuar (ver aqui e aqui também).

De facto, Passos Coelho está a ter sucesso em salvar o capitalismo, pelo menos a curto-médio prazo. Obviamente à custa dos trabalhadores. Não sei se é porque quando o mar bate na rocha quem se lixa é o mexilhão, ou se existe um projecto explícito de classe. De qualquer modo, num ou noutro caso, vai dar tudo no mesmo.

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16 de Junho de 2012 - Posted by | Economia, Portugal | , , , , ,

4 comentários

  1. Ao que acrescento à lista de “sucessos” a alta taxa de desemprego, de outra forma não seria possível manter baixos os custos do trabalho ou seja aumentar a oferta de disponibilidade de força de trabalho (desemprgo elevado) diminui o seu custo.

    Comentar por Rui Gonçalves | 25 de Junho de 2012

    • Obrigado Rui! Isso reforça o que disse: a maior conquista do governo de Passos Coelho, o equilíbrio da balança comercial, foi feito exclusivamente à custa da redução de salários. Mas há mais! Mesmo obrigando 30% dos trabalhadores a ganhar o salário mínimo, o governo foi incapaz de travar o endividamento público e privado. Isto porque o desequilíbrio da balança comercial não é a causa fundamental da crise, mas uma causa de segunda ordem derivada daquela. A causa fundamental foi a desindustrialização de Portugal!

      Comentar por Jose Ferreira | 25 de Junho de 2012

  2. Ontem ao escutar parte do debate da moção de censura ao governo, ouvia deputados da maioria a lamentarem-se em relação à alta taxa de desemprego e, de facto, não ouvi ninguém a responder que isso é um paradoxo, pois criar condições para que existam altas taxas de desemprego é um instrumento de política económica neo-liberal. É bom que os desempregados e a população em geral se consciencializem deste facto. O objectivo e a receita é vivermos cada vez pior para supostamente sermos mais competitivos.

    Comentar por Rui Gonçalves | 26 de Junho de 2012

    • Rui,
      não confundas a lógica das coisas com as coisas da lógica.

      Três comentários.

      1. Não jogar isso na cara do governo é igual ao Cristiano Ronaldo não tentar chutar uma bola perdida na área espanhola.

      2. Devemos reconhecer que Passos Coelho, e todo o seu governo, está convicto de que as políticas que está a implementar são as melhores. Para começar-mos a crescer, os salários têm de descer àquilo que valemos. (Medina Carreira é que disse que a coisa boa da troika foi colocar os trabalhadores portugueses a ganharem aquilo que valem). Isso permitirá as empresas reestruturarem-se e tornarem-se competitivas.

      O problema é que os trabalhadores também são consumidores. A esperança alemão que o consumo dos BRICs iria compensar a quebra de consumo na Europa é vã. O Brasil e a China pararam de crescer nos últimos seis meses. Portanto, não sei qual é a melhor opção: um político desonesto, como José Sócrates; ou um político honestamente comprometido com um caminho errado? Mas bom, reconheçamos o compromisso honesto de Passos Coelho.

      3. De facto, discutir o desemprego – e organizar os desempregados – é um dos ponto nevrálgico da disputa ideológica com o capital (eu já dizia isto em fevereiro). Em Portugal, como em tudo o resto, já há duas organizações de desempregados: a do BE, os MSE; e a do PCP, o MTD. Aqui penso como um capitalista: espero que a concorrência entre os dois faça surgir duas organizações fortes.

      Comentar por Jose Ferreira | 26 de Junho de 2012


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