Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Programa mínimo – II

Numa resposta ao Rui Gonçalves no meu último post esbocei o que considero que seria um programa político pertinente para a esquerda do momento. Mas, antes disso, é preciso insistir que os programas não podem assentar, como têm assentado, num devir utópico, nem na vontade de tomar posição (mais das vezes divergir) dos grandes partidos da esquerda: PCP e BE. Devem sim partir, como dizia Lénin, da análise concreta da situação concreta.

I – Condições objectivas

Embora a classe operária, antes da crise (dados de 2004), representasse 30% da população activa, sabemos que, em Portugal, a luta contra o governo foi sempre liderada pelos funcionários públicos (15%) e pelos trabalhadores dos transportes (4% *). Isto deveu-se a factores organizacionais e culturais. Entre os organizacionais está o facto das grande maioria das empresas serem pequenas e, por isso, dificultarem a organização dos trabalhadores. Está o facto de, excepto nas empresas públicas, o trabalho haver sido reorganizado, na década de 1990, de modo a minar a actividade sindical. E, finalmente, o facto dos trabalhadores dos transportes de pessoas ocuparem uma verdadeira posição estratégica e, portanto, uma greve do sector ter um grande impacto em toda a economia.

Nos factores culturais está o facto de toda a gente querer ser classe média. Ao mesmo tempo, não há classe média no sector privado. Facto que é, em boa medida, resultante da forma como se industrializou o país a partir e 1959: apostando na mão-de-obra barata. Logo, ser classe média é ser funcionário público e pouco mais. Assim, enquanto um operário podia pensar em sair da sua pequena miséria mandando o seu filho estudar, o funcionário público representava a sorte do seu filho. Por muito pouco que isto tenha pesado pouco quando comparado com a influencia dos factores organizacionais, o seu peso foi recentemente expresso no Movimento 12 de Março. O M12M é o produto da frustração em querer chegar à classe média e não conseguir. Afinal, desapareceram, entre 2004 e 2010, 600 mil empregos na função pública.

É verdade que não podemos afirmar que há 600 mil jovens frustrados (10% da população activa), no desemprego ou em empregos precários. Mas a realidade não deve andar longe disso. Por outro lado, a manifestação de 12 de Março mostrou que este é o sector mais volátil e inflamável da sociedade portuguesa. Mas a pax social que vive o governo de Passos Coelho, mostra igualmente o atraso ideológico deste sector.

II – Condições subjectivas

As causa do atraso ideológico dos jovens são complexas, mas podem ser sumariadas do seguinte modo. (1) A concorrência partidária impõe uma forma de analisar a política nos termos honestidade vs corrupção – ver aqui. (2) A honestidade é um termo vago que tende a ser entendido num sentido conservador. Portanto, apelar a um político “honesto” é apelar a um político de direita – ver aqui. (3) Somente a liderança sindical pode romper com essa tendência dos jovens caminharem para a direita – ver aqui. E contudo, (4) estes jovens, muitos dos quais sem emprego, sem emprego fixo ou sem o emprego sonhado, não encontram condições para sindicalizar-se. Seja por questões objectivas (os desempregados e os sem emprego fixo); seja por razões subjectivas (aqueles que não estão dispostos a defender um posto de trabalho que não é o dos seus sonhos).

Um aspecto das condições subjectivas merece ser sublinhado. Se a forma de fazer política impôs um modo de analisar a política em termo de honestidade vs corrupção, então a causa da crise foi a corrupção. (Aqui está expressa toda a incompatibilidade desta visão do senso comum nacional com o marxismo, como já afirmei neste texto). Desse modo, o problema foi que “os políticos roubaram/esbanjaram dinheiro” e agora é necessário pagar a conta. Sem o apoio ideológico das estruturas sindicais para desmontar estas ideias, os jovens acabam por aceitar o discurso de Passos Coelho: “Não é preciso ir buscar o dr. Salazar para perceber que os países que querem crescer têm de poder financiar esse crescimento; e que só é possível financiar crescimento com poupança”.

III – Acções concretas

Obviamente, as acções mais acutilantes da político da governo esboçam-se neste sector inflamável das classes trabalhadores. Falo da manifestação de desempregados convocado para o próximo sábado pelo que resta do Movimento 12 de Março. É uma medida acertada, pese a todas as dúvidas que eu tenho sobre a capacidade de direcção dos seus líderes. De qualquer modo é preciso ir além disto; é preciso organizar os desempregados numa estrutura que os represente. (Chamem burocrata!!!). Somente essa estrutura garantirá a permanência das suas reivindicações no debate político para lá de Julho.

Por outro lado, é indispensável que o movimento não caia no erro de disputar o quão radical há-de ser. Saber se deve defender a renegociação da dívida ou ou não pagamento, coisa que agora mantém a esquerda entretida, é perder tempo. É disputar quem está mais à esquerda quando as massas lhe fogem pela direita. É descolar-se das massas e tornar-se uma seita! Certamente muito inteligente, muito bem informada, mas uma seita.

A alternativa é adoptar um programa mínimo: Desempregados não pagam dívidas!

Quanto mais leio sobre a Revolução Russa mais acredito que um programa mínimo se tornará um programa máximo no dia em que tiver o apoio das massas. O fracasso das medidas de compromisso exigirá medidas radicais. Assim, a esquerda só não pode cometer dois erros: Nem defender um programa máximo sem as massas. Nem esperar que a apropriação do programa pelas massas não signifique a abertura de uma caixa de pandora.

Por mais mínimo que seja, um programa que se aproprie das massas transmutar-se-á em um programa máximo. Por mais máximo que seja, um programa empunhado por uma seita política não cumprirá os mínimos.

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28 de Junho de 2012 - Posted by | Ideologia, Portugal | , ,

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