Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Programa mínimo

Ultimamente tenho lido no facebook algumas críticas ao PCP por parte de militantes do PCTP-MRPP. Com dois deles, o André Januário e o Luís Lima, eu tenho debatido. É um debate difícil porque, se também eu tenho críticas ao PCP, em nada se parecem com aquelas. Mas recentemente, o meter dos pés pelas mãos de Arnaldo Matos, neste vídeo, permite-me explicar porquê. O dirigente do MRPP explica muito bem como abandonar o euro. Tudo começar por fechar o bancos e usar o exército para controlá-los. O que o “grande educador da classe operária” não explica é como convencer o exército a tomar as ruas. Sobretudo, quando assume, noutro vídeo, que hoje não há operários suficientes em Portugal para fazer uma revolução socialista.

Para explicar o que está em jogo é preciso dizer que, hoje, aos partidos de esquerda, se colocam dois problemas. (1) Defrontar o capitalismo de acordo com a disposição moral das massas. Trata-se de ajustar o confronto necessário às políticas de direita com o possível. O batalhão anda ao passo do soldado mais lento. Querer ir rápido demais – como o stalinista a MRPP ou o trotskista MAS ou mesmo os anarquistas do PAGAN – é transformar a luta de massas numa luta de grupelhos de esquerda. Como dizia um amigo: é preciso cuidado para não avançar tão prá frente que não vem ninguém atrás.

Seja a defender a renegociação da dívida, seja a ambiguidade em relação ao euro, o PCP tem tomado posições bastante moderadas. Além do mais, a presença de propostas de acção imediatas do PCP é uma porta escancarada à crítica destes partidos “radicais”. Eles acusam-no de querer salvar o capitalismo dele mesmo, isto é, de ser um partido keynesiano. Apesar de levar a uma discussão mais complexa, vale a pena acrescentar a posição moderada do PCP em relação ao que poderíamos chamar a direita da esquerda: o Movimento da Esquerda Livre.

Não obstante, o PCP está certo e todas estas críticas são espúrias. Se algo aprendi com o Que fazer? de Lênine foi que a agenda de uma vanguarda revolucionária deve acompanhar a disponibilidade revolucionária das massas. Ora, num contexto em que a disposição moral das massas anda para a direita, só à custa de um grande malabarismo – ou do seu isolamento – um partido de esquerda pode manter-se tão à esquerda. Não vale a pena pensar, como Arnaldo Matos, em usar soldados para fazer uma mudança quando não temos o seu apoio.

Por outro lado, os bolcheviques demonstraram que um programa mínimo, quando é assumido pelas massas, rapidamente se transforma num programa máximo. É tanto um erro defender um programa demasiado radical sozinho como, no momento em que se obtém o apoio das massas, esperar não ter aberto uma caixa de pandora. Qualquer Fevereiro implica o seu Outubro. Portanto, o problema não está em o PCP defender um programa mínimo. Mas no facto das massas não aderirem nem a esse programa mínimo.

Isso leva à segunda questão que deveria preocupara a esquerda: (2) o deslizar sustentado da consciência psicológica das massas para a direita. Assentes na lei do “em poupar é que está o ganho”, elas acreditam nas medidas de austeridade como única solução para erros já cometidos. E, pior, transformam o “poupadinho” Salazar em político modelo. A esquerda, em vez de pensar nele, consola-se afirmando que a culpa é da televisão. Mas colocar a culpa em terceiros, por muito que seja verdade, é recusar-se a fazer alguma coisa. Se a televisão tiver 99% de culpa, eu queria saber o que se passa nos outros 1%. Talvez possamos fazer alguma coisa.

O PCP, que resolve (demasiado bem, sublinhe-se) o primeiro problema em piloto automático, nem sequer se preocupa com o segundo – eis a minha crítica. Mas os stalinistas, trotskistas e anarquistas, tão preocupados em criticar o PCP, tampouco estão em condições de o resolver! As suas análises partem sempre da crítica ao PCP. E para fazer isto é partir da análise da composição interna da classe média, classe trabalhador e pequena burguesia. Mas creio que para isto eles não têm nem competência!

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28 de Junho de 2012 - Posted by | Partidos, Portugal | , , , ,

4 comentários

  1. Meu caro quer me parecer que és um tipo do género do Pacheco Pereira que gostas de investigar e fazer história. Deves ter meios e vagar para isso, No entanto não posso aceitar as tuas teses, não porque seja um radical pequeno burguês, mas porque entendo que as tuas interpretações são baseadas no que lês e não no que sabes analisar à luz do marxismo nem tens o arcabouço nem a inteligência para ridicularizar Arnaldo Matos que é um eminente Marxista Leninista do nosso tempo e espero que dure ainda muitos anos. Cunhal não lhe chegava aos calcanhares porque já tinha abandonado há muito a revolução e a ditadura do proletariado quando reviu os estatutos do PCP por isso se tornou um revisionista. Tu embora te digas opor ao PCP o apoias e defendes.

    Comentar por Luis Lima | 28 de Junho de 2012

    • O facto da tua crítica não se focar em sequer um dos argumentos do post, mas apenas numa comparação entre mim e Pacheco Pereira, me permite apenas uma resposta. O Luís Lima não tem nada para me ensinar acerca de marxismo-leninismo, antes pelo contrário. Antes de jogar pedras, cuide dos seus telhados de vidro.

      Uma última nota. Não me oponho ao PCP. Tenho-lhe críticas!

      Comentar por Jose Ferreira | 28 de Junho de 2012

  2. (1) Defrontar o capitalismo de acordo com a disposição moral das massas.

    caro José,

    Assim sendo que papel atribui ao partido enquanto vanguarda? Concordando consigo na afirmação – não devemos ir mais além do que aquilo que as massas estão dispostas a ir, acho que devemos conjugá-la com a necessidade de ter um partido a agir junto das mesmas massas, até para impedir e inverter o (2) deslizar sustentado da consciência psicológica das massas para a direita.
    Também concordo consigo que a culpa não é apenas da TV, até porque se as TV não ajudam estamos muiot a tempo de criar os nossos canais e hoje em dia tecnologicamente não é assim tão dificil.
    Um abraço,
    Rui

    Comentar por Rui Gonçalves | 28 de Junho de 2012

    • Olá Rui

      O diagnóstico está feito em várias partes deste blog. Este texto que escrevi no final de Dezembro e este mais recente apresentam as razões porque eu acho que as classes trabalhadoras estão a andar para a direita.

      É um facto que a direita está a velejar no discurso “estamos a pagar pelos erros que cometemos”. Seja porque, crêem uns, gastamos todos demais; seja porque, crê a maioria, votamos em políticos que só roubaram. (Assim se vê que chamar aos políticos de ladrões não é mais que fazer política para a direita).

      Posto isto estamos como um problema. Gritar “não pagamos” é, para esta maioria da população, não querer pagar pelos seus erros. Por isso é necessário recuar e adoptar um programa mínimo. (Aqui o PCP tem sido o partido mais sagaz; mas infelizmente só até aqui). Não obstante, é preciso que esse programa mínimo ponha aquela teoria do “estamos a pagar pelos nossos erros” em causa.

      Nisso penso que os que restam do 12 de Março acertaram sem apontar. Ao convocar uma manifestação de desempregados, mostram os limites do programa do governo e da troika. Mas creio que, para ter sucesso, é preciso duas coisas:

      1) Recuar e adoptar um programa mínimo. O discurso seria: “desempregados não pagam dívidas”. Assim poderíamos até colocar o problema da renegociação da dívida do modo como o PCP o colocou originalmente (e abandonou, infelizmente, pela dificuldade de passar a mensagem). O importante não é pagar ou não pagar a dívida; é reconstruir a economia portuguesa, reindustrializar Portugal. Mas a dívida pública (e, já agora, a ideologia liberal) estão a estrangular a capacidade do Estado em intervir neste domínio.

      2) Mas este discurso, que me parece mais eficaz que qualquer outro, terá de sustentar-se numa organização permanente de desempregados. Portanto, a solução passa, em muito, pelo trabalho conjunto do PCP e do BE. Talvez fosse mais importante as direcções entenderem-se para dar a directriz às bases que se entendam neste assunto, do que para preparar listas conjuntas à Assembleia da República. O PCP já fez isto, em 1975, com relação ao PS, para criar a CGTP. Foi o PS que roeu a corda e foi criar UGT.

      Há sinais de uma possível aproximação entre os dois partidos de esquerda. Este texto do MAS. A declaração sem sal do PCP em relação ao Congresso das Esquerdas. E o facto de o PCP não ter subscrito um documento de apoio ao KKE na véspera das eleições. Mas basta imaginar uma discussão de quem fica no poleiro entre bloquistas e comunistas para ter muitas dúvidas que isto possa acontecer.

      Acresce-se que o BE, ou pelo menos uma certa ala, partiu para um discurso muito complicado. Falo do Manifesto para uma Esquerda Livre que agora virou congresso das esquerdas. Um grupo que não só não coloca em causa o discurso de que “estamos a pagar pelos erros que cometemos”, como se serve dele para buscar apoios. Pois, segundo o seu Manifesto, “as raízes desta crise estão no desprezo do que é público”…

      Comentar por Jose Ferreira | 28 de Junho de 2012


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