Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

III Guerra Mundial

A hipótese da guerra como solução para a crise está permanentemente a ser trazida à baila pelos agoirentos (de esquerda). Afinal, ela foi uma solução para a crise: a reconstrução europeia relançou o crescimento depois da crise dos anos 30. Além de que, o VAB das empresas que fabricam balas conta para o PIB. E a procura solúvel de balas é inesgotável.

Não obstante, as condições político-institucionais actuais impedem um guerra. A guerra do Iraque foi, na verdade, uma guerra dos EUA contra a França na disputa por petróleo. Os EUA avançaram; a França acobardou-se; a Sadam Hussain saiu a fava. É preciso ter claro o que está em jogo aqui. Não é o petróleo que interessa; mas a moeda que controla o petróleo. Como todo o crude se compra em dólares e, portanto, todos os países precisam de dólares, o endividamento externo dos EUA a baixos juros é ilimitado. É o único país que pode pedir dinheiro emprestado aos outros sem praticamente pagar juros. Os outros necessitam de emprestar-lhes para ter dólares (ou títulos do tesouro norte-americano, mais cómodos) para comprar petróleo. A Europa quis disputar essa hegemonia inventando o euro. E, por alguns meses, a Total teve um contrato no Iraque em euros.

Recentemente, a China entrou no jogo. Ao contrário dos europeus, os chineses são mais activos diplomaticamente. Quando os EUA se preparavam para invadir o Irão – com o qual os chineses já celebraram alguns contratos – , a China virou as suas atenções para o principal aliado americano, a Arábia Saudita. O sinal foi claro: a diplomacia chinesa é mais ágil que o exército norte-americano. O clima abrandou; mas logo depois foi retomado pelas bordas. Falo da Síria. Chineses e Russos bloquearam qualquer intervenção externa, e a cedência do passado domingo (o estabelecimento de um plano de transição?!) terá o significado do que resultar desse plano. É certo que o actual governo sírio vai cair; não é certo como isso reequilibrará o jogo de influencias que os EUA e a Rússia disputam sobre esse país. Boato ou não, é significativo que uma agência iraniana de notícias tenham afirmado que a China, a Rússia e o Irão se preparavam para fazer exercícios militares na Síria. A China está bastante mais disposta a empregar as armas contra os EUA que a Europa.

Por outro lado, deve ter-se consciência de que a paz é um valor frágil. Tem 65 anos (surgiu após a II Guerra Mundial) e está muito localizado na Europa. Além do mais, depende da “democracia” parlamentar, isto é, da existência de um sistema político que resolve os diferendos pela via do diálogo burocrático. Ora, este mecanismo institucional só, com muita dificuldade, foi estendido ao resto do mundo. Por outro lado, um valor europeu (extremamente ligado à má memória de duas guerras e do Holocausto nazi), de algum modo japonês (depois de Nagazaki e Hirochima), será hegemónico no mundo na condição que a Europa seja uma potência mundial. A crise económica europeia significará igualmente uma crise dos valores europeus no mundo.

Em breve, somente o medo dos efeitos devastadores da bomba atómica, impedirá os líderes mundiais de entrarem em guerra. Aliás, só não estamos em “guerra mundial” porque os políticos têm-se decidido por pequenas guerras pelas bordas do mundo: Iraque, Irão, Síria… Mas, ontem, alguém alertava que uma grande guerra na Europa pode começar por aí, pelas bordas.

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3 de Julho de 2012 - Posted by | Mundo | , , , ,

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