Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Brasil, economia e classes

Há tempos que tento começar a olhar a política brasileira do mesmo modo que olho a política portuguesa. Pretendo ver os acontecimento políticos como disputas entre classes e frações de classe confrontadas, consciente ou inconscientemente, com uma realidade económica. Até hoje isso me era difícil. Eu havia aceite a opinião de alguns amigos de partidos à esquerda do PT segundo os quais o Lula se tinha “passado” para o “lado” das elites.  Isso bloqueava-me a análise.

Este artigo, ontem, abriu-me outra prespetiva. Não se compreende o governo Lula sem assumir que se trata de uma aliança entre a burguesia industrial com certos grupos das classes trabalhadoras, contra a burguesia agrícola. Isso, não obstante, não resultou num forte processo de reforma agrária, bem pelo contrário. Aumentaram os apoios às famílias assentadas; mas o número de assentamentos caiu em 40% em relação ao seu antecessor.

A luta deu-se em outros dois domínios. Primeiro, na distribuição de apoios sociais no campo que obrigavam os fazendeiros a pagar mais caro para obter mão-de-obra As notícias que acusam os beneficiários do bolsa família de preguiçosos são pouco mais que preconceitos encomendados. Mas o facto de terem sido encomendadas indica o impacto dos apoios do Estado sobre o preço da mão-de-obra no meio rural brasileiro. Segundo, com as contas organizadas, Lula (bem orientado por Maria da Conceição Tavares) pôde promover o crescimento do setor industrial. Aí ele enfrentava o agronegócio retirando-lhe a fonte de seu poder: o peso na balança comercial. Enfim, foi a luta pela urbanização do Brasil!

As classes trabalhadoras entraram de modo subordinado. Os “privilegiados” foram as classes mais baixas da população: os 45 milhões de beneficiários do bolsa família e os trabalhadores indiferenciados que aproveitaram o crescimento industrial. Esses entraram tanto como trabalhadores como consumidores de uma economia cada vez mais industrial e urbana. De foram ficaram aqueles que sofrem o impacto ambiental do desenvolvimento, como os indígenas, e as classes médias que já estavam instaladas quando Lula chegou ao governo.

A aliança desfez-se com a crise económica. Com a depreciação do dólar, os empresários brasileiros ficaram em piores condições para exportar. Afinal, vendendo ao mesmo preço em dólares, passam a ganhar menos em reais. Somente o agronegócio continuou de vento em poupa na medida em que a demanda chinesa fez subir os preços dos alimentos em dólares. Com o agravar da crise europeia a situação ainda piorou mais: as exportações não param de cair na industria. E com isto, obviamente, o governo perde força frente ao agronegócio.

É óbvio que a nova classe média podia consumir boa parte da produção industrial não exportada. E isso aconteceu, de facto, em 2008 e 2009, o que levou Lula da Silva a afirmar que a crise estava superada. Mas, a partir de 2010, o Brasil entra numa situação complexa. Cada vez mais capitais estrangeiros buscavam o pouso seguro dos bancos brasileiros e suas elevadas taxas de juro. Mas com o mercado externo incerto e juros elevados, a burguesia industrial não quis aproveitar a oportunidade. Por seu turno, os bancos estavam mais interessados no ganho fácil do crédito ao consumo. E o endividamento acelerado da classe média brasileira fez a burguesia industrial, que já temia as nuvens sombrias do mercado exterior, a desconfiar do futuro do mercado interno. Mas o rol de problemas não para por aqui. O crescimento da classe média, associado, por um lado, ao crédito ao consumo e, por outro, à falta de investimento, fez disparar a inflação e, portanto, o custo dos investimentos.

Enfim, a burguesia industrial está parada à espera de notícias melhores. Logo, o governo está com um projeto cujo principal sujeito saiu do barco e parou para ver. Por outro lado, as classes trabalhadoras começam a afastar-se da política do governo. Os benefícios trazidos pelas políticas do PT estão a ser anulados pelo aumento geral dos preços. E os primeiros a protestar foram aqueles que não receberam benefícios nenhuns: polícias, professores, enfim, a classe média FHC. A popularidade de Dilma Russef está segura apenas pelas classes trabalhadoras baixas e pelo facto de o desemprego no Brasil ter atingido um recorde mínimo o mês passado. Mas com o crescimento do PIB parado há nove meses, o desemprego deve começar agora a subir.

Prevejo um governo assente em nenhum projeto de classe ou fração de classe. Consequência? Ziz-zagueante! Pois, por muitas boas políticas que desenhe, elas por si só não levam o país para a frente. É preciso que um sujeito social se aproprie delas e conduza a economia (em sentido amplo), isto é, a sociedade. Se esse sujeito não surgir rapidamente, o governo vai começar a disparar medidas para todos lados para ver por que lado funcionam… e não vão funcionar em lado nenhum!

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4 de Julho de 2012 - Posted by | Brasil, Economia | , , , ,

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