Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Dilma contra os bancos

(Reorganização de parte deste artigo escrito ontem ).

A partir do momento me que se assume a política brasileira não como o fruto da luta entre frações de classe, mas como a eminencia do rompimento de um projeto interclassista, as coisas tornam-se claras. Ao contrário de Portugal onde a política resulta da luta pelo poder entre duas frações da classe burguesa, o Brasil seguiu uma política resultado da coincidência entre os interesses da burguesia industrial e certos extratos das classes trabalhadoras. Precisamente porque as condições objetivas que asseguraram essa coincidência se desfizeram, está aberta a porta para um governo ineficaz, empenhado em arrastar a burguesia industrial para uma tarefa que ela não quer mais cumprir!

De um lado, a burguesia industrial surgia como criadora de emprego e renda. Do outro, as classes trabalhadoras como consumidores, e claro, trabalhadores. Mas a crise mostrou que os industriais confiam pouco no mercado interno e investem sempre a olhar para o mercado externo. Assim, no momento em a crise europeia e norte-americana provocou uma valorização do real – e consequente perda de competitividade externa da economia brasileira – a burguesia industrial retraiu-se abdicando da sua força política, social e económica. Ainda reclamou contra a política monetária do governo (Mantega nega – mas onde há fumo, há fogo), mas sabe que é pouco provável que o Banco Central possa fazer alguma coisa.

Deste modo, a notícia de que os bancos à exceção do BNDES, após 2008, encaminharam o crédito para o consumo tem uma leitura clara. A nova classe média – isto é, as frações das classes trabalhadoras beneficiadas pela política petista – tornaram-se o target dos bancos. Isto é, os bancos acompanharam o pessimismo da burguesia industrial. E, sem querer, minaram o mercado interno que cresceu mais impulsado pelo crédito (ver aqui também) do que pela geração de emprego. Por isso mesmo, há um mês atrás, Dilma estava indignada pelo facto dos juros do crédito ao investimento serem iguais aos juros do crédito ao consumo (não encontro onde li). Mas depois de descobrir, na última reunião do G20, que as políticas europeias apagaram a luz ao fundo do túnel no que toca a expansão do mercado externo, o consumo interno voltou a ser a solução.

A primeira e óbvia medida tomada pelo governo foi a redução da taxa de juro a que os bancos obtém dinheiro (taxa Selic). Dado que os bancos tardaram em passar essa redução do custo para os seus clientes, o governo pressionou os bancos públicos a baixarem os spreads e a obrigar a concorrência a fazer o mesmo. Mais recentemente apresentou um pacote de crédito para a industria. Todas estas medidas são, segundo Dilma, tomadas em defesa da industria brasileira contra os especuladores. Na verdade, medidas contra os bancos em nome da industria.

Mas essa oposição entre banqueiros e industriais só parece existir na cabeça dos membros do governo: os bancos reproduzem o pessimismo dos investidores. Já ninguém acredita mais no mercado externo. E o mercado interno está endividado, está à mercê das importações e, sobretudo, nunca foi prioridade dos empresários brasileiros. Dilma pode estar não só a apostar num apoio que não têm – da burguesia industrial – como estar a minar o equilíbrio da balança comercial. As condições objetivas do “modelo económico Lula” podem ter desaparecido!

(Este artigo de José Serra, com o devido distanciamento, merece ser lido).

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6 de Julho de 2012 - Posted by | Brasil, Economia | , , ,

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