Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Portugal no caminho da Grécia?

A declaração de inconstitucionalidade da suspensão dos subsídios de férias e natal dos funcionários públicos tornar-se-á, inevitavelmente, o ponto nevrálgico do debate político dos próximos tempos. Mas existem condições particulares da conjuntura. Como já afirmei aqui, e atualizei aqui, os efeitos da austeridade retiraram a Passos Coelho o apoio político que ele gozou entre os empresários portugueses. As falências e o desemprego e a consequente quebra do consumo estão a deixar empresários em pânico. Só a banca, que está a ser recapitalizada pela troika, defende a austeridade (à, exceção do BES que se recapitalizou com capitais próprios). Em suma, Passos Coelho está praticamente como Sócrates há um ano: apoiado na banca, contra o resto da elite económica portuguesa. Apenas mantém, ao contrário de Sócrates, o apoio de Bruxelas.

Existem duas opções em cima da mesa sem quaisquer possibilidades de ser realizadas: devolver os salários aos trabalhadores relaxando a austeridade (como defendem os sindicatos); ou cortar nas PPPs (como defendem certos comentadores políticos). O primeiro vai contra a lógica do sistema; o segundo vai contra os grupos mais fortes deste sistema. Lembro-me que, na questão das rendas das energias, a troika aceitou que a renegociação por mútuo acordo, isto é, só até ao ponto em que as empresas aceitaram! O mesmo vai acontecer nas PPPs.

Assim, a questão coloca-se neste termos: Estes cortes salariais vão servir para o ajuste das contas do Estado e para a tentativa (sublinho, tentativa – porque não acredito que seja possível) de cumprir o défice? Ou, pelo contrário, levaram em conta as preocupações dos empresários portugueses com o excesso de austeridade? Eu esperei que a CIP se posicionasse em favor desta última via. Acreditei que os patrões viessem defender a suspensão dos subsídios no sector privado, a favor dos patrões e não do Estado, de modo a substituir o eterno retorno da redução da TSU. Mas não! Parece que essa opção não está em cima da mesa.

De qualquer modo, em termos genéricos, as opções do governo são duas: ou insistir na impossível meta do défice para “agradar aos mercados“; ou aliviar a austeridade para permitir a Portugal crescer. Trata-se, sem dúvida, de um braço de ferro entre os credores do país e os seus empresários. É bastante provável que ganhem os primeiros. Mas neste caso iremos no caminho da Grécia. Senão na esfera económica, pelo menos a esfera política: A própria direita, isto é, os empresários e opinion makers acusaram Bruxelas de levar a cabo uma experiência económica com o seu país e as suas vidas. Um apelo ao nacionalismo que se enraizará facilmente na população… estendendo o tapete vermelho à esquerda… ao Bloco de Esquerda (qual Syriza!).

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9 de Julho de 2012 - Posted by | Economia, Portugal | , , , , ,

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