Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Capital em Marx

Há uma ideia errada acerca da ideia de capital. A noção de capital, em Trabalho assalariado e capital, tem uma definição muito precisa: é uma relação social. Citemos:

Um negro é um negro. Só em determinadas relações é que se torna escravo. Uma máquina de fiar algodão é uma máquina para fiar algodão. Apenas em determinadas relações ela se torna capital. Arrancada a estas relações, ela é tão pouco capital como o ouro em si e para si é dinheiro, ou como o açúcar é o preço do açúcar.

Vejamos isto de outra maneira. O homem mais rico de Portugal é Américo Amorim; o homem mais poderoso é Ricardo Salgado. Tanto que, em crise, financia-se bancos e aumenta-se o IVA – o que leva as pessoas a comprar menos, com prejuízo para todos os empresários que vendem. Quer dizer que o valor do seu património, a medida quantitativa do seu capital, dá apenas uma ideia aproximada da realidade. É preciso considerar igualmente a qualidade do seu capital. Assim, sendo verdade que X supermercados podem comprar um banco e, portanto, equivalerem-se, um banco é sempre um capital maior todos os supermercados que permitem compra-lo.

A razão é simples: é prática dos supermercados, assim como de todas as outras empresas, e até do Estado, não se preocuparem em guardar dinheiro para pagar a fornecedores. É mais prático obter uma linha de crédito junto de um banco e usá-la para as compras. Quando se vende algo, pagam-se dividas. É como viver no cartão de crédito e usar o salário para pagar o cartão. No caso do Estado temos números que demonstram isso mesmo. Em 2004, com uma despesa de 70,5 mil milhões de euros, tomou de empréstimo 36,5 mil milhões de euros e pagou 28 mil milhões de euros. Ou seja, para metade do “volume de negócios” (se podemos usar a terminologia da contabilidade privada) o Estado viveu no “cartão de crédito”.

Assim, capital não é apenas ter , é ter algo que o faça mais importante do que os outros. Ter um banco é mais importante que ter X+1 supermercados – ainda que X+1 supermercados possam ser mais caros que um banco.  Assim como não é por ser rico que o burguês é protegido pelo Estado. É por que o burguês é o dono das máquinas que permitem ao trabalhador trabalhar. Por isso é que o marxismo não se preocupa com a moral (egoísta ou solidária) dos homens. O marxismo é uma crítica despudorada da forma como a sociedade está organizada e faz com que uns já nasçam privilegiados.

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21 de Julho de 2012 - Posted by | Economia, Ideologia | , ,

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