Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

As duas mãos do Estado

Vi agora o Olho nos Olhos de segunda-feira passada. Pouca  coisa me surpreendeu – porque, seguindo a análise do PCP (ver aqui também) no início da crise, que parece ter sido diluída em discursos de conjuntura, defendi argumentos muito próximos. Não obstante, noto que há uma diferença na escolha dos argumentos que leva a caminhos aparentemente divergentes.

Há, não obstante, uma diferença entre a economia de Alexandre Patrício Gouveia e Medina Carreira e a minha sociologia. Onde eles vêem más opções, eu vejo a formação de uma fracção da elite económica assente na imbricação entre a banca e a construção civil. O governo não os protegeu para além das suas capacidades por falta de visão, mas incapacidade de derrotar uma poderosa máquina de criar empregos, de aumentar salários e – quando se tornou incapaz disto – de corromper.

Economias e sociologias à parte, há da minha parte a necessidade ideológica de assumir que o problema está do lado da criação de riqueza e não da despesa do Estado. As razões dessa necessidade estão aqui expostas. Deve-se também ao facto de eu partir do suposto que 60% da despesa do Estado é gasto em saúde, educação e reformas – segundo este programa de Medina Carreira.

No entanto, se falarmos das despesas desorçamentadas do Estado, feitas através de PPPs cujo encargo só entrará a partir de 2014 nas contas públicas, a coisa muda de figura. Sobretudo porque essa despesa do Estado têm uma influencia directa nas opções dos empresários. Desse modo, aquela separação que eu usava entre Estado e privado – que deixava as culpas no privado – , além de ser pouco marxista, deixa de ter sentido.

Então, torcendo um pouco a distinção do sociólogo francês entre não esquerda e mão direita do Estado, vemos que o Estado gastou em:

MÃO DIREITA MÃO ESQUERDA
  • PPP’s (Auto-estradas; privatização dos hospitais)
  • Rendas da energia
  • Juros especulativos da divida pública
  • Pensões de reforma
  • Saúde
  • Educação
2004-2010: desorçamentado, a pagar em 2011 e 2030 (PPP’s); custos para os consumidores (rendas); menos de 4% (juros) 2004-2010: 60% da despesa pública

E verificamos que o Estado gastou mal, sobretudo, do seu lado direito e hoje corta, sobretudo, do lado esquerdo.

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23 de Julho de 2012 - Posted by | Economia, Portugal | , ,

3 comentários

  1. José Ferreira, para mim, o pior de tudo foi a falta de visão de RETROVISOR dos resultados obtidos com as más (más não, antesl péssimas opções governamentais Portuguesas, entre 1995 e 2005), exponenciadas entre 2005 e 2011, que se reflecte no DESEMPREGO crescente em que as principais VÍTIMAS são os jovens nacionais e residentes do país, facto que vai ainda ter impacte devastador no futuro do país, se é que o país tem futuro.

    Dito de outra maneira, só idiotas – os portugueses – permitiriam que se progredisse o caminho da desindustrialização e desagriculturação nacionais, privilegiando investimentos a crédito, em obras e equipamentos públicos, sem perspectivas de futuro – O FUTURO DE PORTUGAL FOI ROUBADO, diante do olhar negligente e cúmplice do povo português.

    É LAMENTÁVEL porque, a todos os títulos, fez de todos os cidadãos nacionais residentes uns rematados imbecis.

    Comentar por Regina Nabais | 23 de Julho de 2012

    • Eu sou, nesse aspecto, um pessimista.

      1. Disse-o algures, não podemos partir do suposto que as pessoas são burras. Mas também não podemos assumir que têm uma licenciatura em História, e são pós-graduados em Economia e Ciência Política.

      2. Comento frequentemente com uma amiga que somente as pessoas que são pagas mensalmente para olhar para o longo prazo – os professores, e pouco mais – vêem a longo prazo. Mas me pergunto igualmente até que ponto não é uma maneira de livrarem-se das responsabilidades sobre decisões concretas.

      3. Para acabar, estou a ler “Como funciona a democracia”, um livro de um professor meu. É um estudo antropológico das relações entre eleitos e eleitores. O fio condutor da pesquisa são as negociações entre um líder local de um dos bairros pobres de Ilhéus e os políticos com quem ele interage. Páginas tantas fico a saber que, para ele, “os políticos são todos iguais. Só se ganha deles alguma coisa nos meses antes e depois das eleições”. Fico com uma boa imagem de como as misérias locais determinam o resultado nacional das eleições!

      Abraço 🙂

      Comentar por Jose Ferreira | 23 de Julho de 2012

      • 🙂
        Nesta fase, José, um ABRAÇO GRANDE.
        Estou convicta que. com a colaboração de todas as pessoas EMPENHADAS,TUDO acabará MENOS PIOR do que podemos actualmente pensar…

        Comentar por Regina Nabais | 23 de Julho de 2012


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