Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Teoria revolucionária

Depois de 1917, a Revolução Russa colocou-se como modelo de qualquer revolução. Ainda recentemente, uma tese de doutoramento que se tornou livro, argumentava que Álvaro Cunhal se opôs a uma Revolução em Portugal porque ele se opôs a criação de estruturas de duplo poder, isto é, de sovietes à portuguesa. Um amigo do PCTP/MRPP afirmava que o PCP traiu a possibilidade de uma revolução ao afastar os camponeses dela. E fê-lo de duas maneiras: priorizou a aliança por a classe média, isto é, os militares (o povo-MFA); e concebeu o país dividido entre norte e sul, declarando os camponeses do norte contra-revolucionários. De facto, boa parte dos debates entre Trotsky e Stálin e, posteriormente, entre as várias esquerdas tomam a Revolução Russa como modelo – apenas discordam acerca do que se passou na Rússia por volta do ano de 1917.

Mas o problema central tem a ver com o papel do sistema eleitoral. É fácil ouvir, como diziam os Russos, que a Revolução não se faz pelas eleições. Mas Lénin tinha claro que a alternativa era a guerra civil. Até porque a Revolução Russa não se reduz aos golpes de Estado de Fevereiro e Outubro de 1917. É produto de uma guerra civil que começou na viragem do séc. XIX para o XX e terminou em 1920.

Não obstante, duas condições fizeram desaparecer a alternativa da guerra civil. Primeiro, a universalização do valor Iluminista da paz. Segundo, a luta do movimento comunista pela paz mundial a partir de 1945 – a forma que Stálin encontrou para defender a URSS da eminência (real ou imaginada) de uma invasão dos EUA foi impor aos PC’s do ocidente a vocação de apóstolos da paz.  No séc. XVI, na sua origem, o valor da paz era um valor da burguesia que então ocupava o lugar intermédio da sociedade feudal declinante. Mercadores, tinham tudo a perder com a guerra entre famílias aristocratas (na época as nações ainda não estavam formadas). Hoje, a paz é um valor genérico mas, sobretudo, defendido pela classe trabalhadora – como mostram as recentes manifestações nas Filipinas.

Assim, o séc. XX não nos permite vislumbrar no sistema eleitoral uma janela, mas fechou-nos a porta da guerra civil. Então, se as eleições não servem, se a guerra civil passou de moda, como se faz uma Revolução?

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24 de Julho de 2012 - Posted by | Ideologia | , ,

2 comentários

  1. Tirando o acto militar de deposição do governo (com o apoio da população), a revolução de Abril fez-se com a publicação de Leis, desde a aprovação da CRP até outras mais simples como a criação do SNS, do subsídio de desemprego, da abolição da discriminação das mulheres, as nacionalizações, etc. Havendo condições objectivas e subjectivas é possível a mudança, o meio serão as leis revolucionárias.
    Um abraço.

    Comentar por Rui Gonçalves | 24 de Julho de 2012

  2. Preparam-se 🙂

    Comentar por pequenasutopias | 24 de Julho de 2012


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