Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Sobre dialética (I)

Li ontem dois textos de Nobert Bobbio no seu livro Nem com Marx, nem contra Marx. Devo dizer que, na minha leitura desorganizada dos marxistas tinha outra compreensão da dialética materialista. E, como a correção não me convenceu, é a minha dialética que vou expor. A dialética tem três elementos: (1) a relação entre infraestrutura e super estrutura; (2) a reunião de contrários; e (3) a dinâmica histórica por ‘tese’, ‘antítese ‘ e ‘síntese’.

Duas notas: Quem conhece a proposta de Engels sabe que o primeiro termo da dialética é, para ele, a relação entre quantidade e qualidade. Mas isso não deve ser levado muito a sério. Trata-se apenas da generalização de um exemplo hegeliano sem que haja motivo para transformá-lo em lei geral. Por outro lado, a relação entre infraestrutura e super-estrutura pode não ser parte da dialética, mas é a base ontológica em que ela assenta. Assim, não se distingue a dialética materialista da dialética idealista sem tê-la em conta. Essa é a primeira parte deste texto.

Em segundo lugar, vou discordar de Bobbio. Os dois outros elementos da dialética não dão origem a duas dialéticas. A primeira, presentes nas obras de Marx entre 1843 a 1848, corresponderia ao (3), isto é, a uma filosofia da histórica. A segunda, d’O Capital, era um método de investigação semelhante a muitos outros. No ponto II e III deste texto pretendo argumentar que uma implica a outra.

I – Infraestrutura e super-estrutura

A posição entre infraestrutura e super-estrutura é enganadora. Ela remete para um termo intermédio: a estrutura. Neste sentido, a estrutura seriam as classes. Mas logo em Miséria da filosofia, Marx nos lembra que a classe existe em-si e para-si, isto é, como infraestrutura e super-estrutura. Então onde fica a estrutura? Por outro lado, esta oposição é resolvida em outra: entre sociedade civil e Estado. Assim, o Estado, como super-estrutura, passaria a ser um fenómeno secundário face à economia. Como acusaram J.-P. Sartre, Bobbio e Virgílio Ferreira, relação entre Estado e economia ou sociedade civil seria pouco dialética (entendida de acordo com [2] e [3]).

Um problema decorre desta dicotomia: onde está a ideologia da classe operária? Na década de 1950 este constituía o grande problema do marxismo, da III Internacional à Escola de Frankfurt. A falta de soluções obrigou dentro do marxismo obrigou ao recurso à psicanálise – solução na qual Slavoj Žižek insiste ainda. Por uma via alternativa vão E. P. Thompson, Lukács e Leandro Konder. Para eles, essa oposição foi usada uma ou outra vez, por Marx, com funções de clareza argumentativa. Como não tem qualquer utilidade teórica, melhor abandoná-la. Mas a diferença entre uns e outros não se funda aí. Se para os primeiros é preciso explicar porque é que a forma de pensar dos operários não progride como Marx previu, para os segundos a resposta está dada: Marx, nesse aspeto, enganou-se. Trata-se então de compreender os operários pelo que são (infraestrutura) e pelo que pensam (super-estrutura) como um todo inseparável.

Eu, creio, pelo contrário que não se pode abandonar aquela oposição. Não obstante, deve-se vê-la como uma forma de colocar o problema filosófico que de Descartes à atualidade atormenta os filósofos: a dicotomia entre objetivo e subjetivo. Daí o termo intermédio da estrutura não fazer sentido na teoria marxista. Assim, a minha decisão subjetiva “vou hoje ao cinema” implica sempre um referente objetivo: a existência de um cinema aberto a que eu possa ir, acessível física e economicamente. Do mesmo modo, o debate político subjetivo – como prova a crise atual – tem como referente objetivo as condições económicas do país e, de maneira mais geral, a composição da sociedade civil. É neste sentido que a estrutura determina a super-estrutura: não posso ir a um cinema fechado; e nem sequer podia pensar em ir ao cinema se tivesse nascido no séc. XV.

Postas as coisas desta maneira, as críticas de J.-P. Sartre, Bobbio e Virgílio Ferreira a esta oposição, caem em saco roto. É preciso, por outro lado, mostrar como é que também desta maneira o conflito entre Althusser, Adorno e Žižek, por um lado, e E. P. Thompson, Lukács e Leandro Konder, por outro, também pode perder o sentido. O problema não é saber como a infraestrutura determina a super-estrutura, mas como a super-estrutura é sustentada pela infraestrutura. Por outras palavras, o problema é metodológico e não teórico. Não partimos da análise das condições objetivas para “prever” a evolução das condições subjetivas. Partimos sim da disputa política subjetiva e buscamos encontrar as razões dessa disputa no plano objetivo. Com esta inversão, a falta de sintonia entre a classe e a sua consciência nunca se coloca. Necessitados sempre de encontrar o substrato – a classe – de determinada forma de pensar; nunca a forma de pensar que seria “teoricamente” correta (oh! teoria transmutada em fé) para aquela classe.

contínua

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9 de Agosto de 2012 - Posted by | Ideologia, Metodologia | , , , ,

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