Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Sobre dialética (II)

Ler aqui Introdução e Parte I

II – Devir histórico e contradição

Por outro lado, ao contrário de Bobbio, não creio existirem duas dialéticas (ver Introdução). O devir histórico implica a reunião de contradições; a tese e a antítese podem conviver por tempo indeterminado antes de resolverem-se numa síntese. Assim, o terceiro elemento da dialética implica o segundo. Esta constatação exige, a meu ver, esclarecer um dos principais desafios da dialética: a relação temporal entre tese e antítese. A antítese sucede à tese, e inspira-se nela por inversão, mas convive com ela, lado a lado ou, mais exatamente, frente a frente, durante muito tempo.

Assim, como afirmei na análise da conjuntura política de Portugal, Sócrates fez tudo o que pode para manter o modelo de uma economia assente na proteção do Estado à construção civil e à banca que existia desde o primeiro governo de Cavaco e Silva. Foi como antítese daquela proposta que apareceu a sua antítese: o recurso ao FMI, primeiro defendido por Soares dos Santos e somente depois por Passos Coelho. Somente depois da vitória eleitoral de Passos Coelho a hipótese de manter o modelo passou de dominante ao moribunda. Pode, portanto afirmar-se que a política de Passos Coelho é uma síntese da contradição entre José Sócrates e Soares dos Santos.

Se o anterior é verdadeiro, então qualquer par de contrário (2) é, potencialmente, o confronto entre tese e antítese (3). Pois, metodologicamente, o conflito é o ponto de partida. É o conflito entre opostos que o marxista encontra quando decide estudar uma realidade.

Na análise de conjuntura que realizei um ano antes (predominantemente e necessariamente idealista, por se tratar de uma primeira abordagem), José Sócrates e Soares dos Santos surgiam vinculados a correntes de opinião – respetivamente, a saída da crise pela injeção de dinheiro do Estado na economia, através de obras públicas como o TGV,  e o recuo do Estado de modo a deixar a economia caminhar por si mesma – e não às frações de classe que realmente representavam.

Mas como afirmei na parte I deste texto, é preciso encontrar as razões objetivas que justificam aquele comportamento subjetivo. Pouco a pouco, se identifica pelos discursos nos jornais aquilo o enraizamento de cada grupo na infraestrutura.

O próprio discurso de José Sócrates revela a base material da posição que assume: a banca que emprestaria o dinheiro somada aos construtores civis que fariam a obra do TGV. A oposição, pelo contrário (e pela sua natureza), é mais difícil de perceber, pois a sua proposta é, porque está fora do governo para pô-la em prática, fragmentada e incoerente. De qualquer modo, os fragmentos do discurso (sobretudo da Comissão Europeia em que estes, como se sabe, e apoiaram contra Sócrates), bem como os negócios de Soares dos Santos na Polónia e na Colômbia, permitiam reconhecer ali a mão do sector exportador.

Não obstante, os dois grupo ainda aparecem como identidades separadas. A unidade de contrários resulta de vê-los como ‘tese’ e ‘antítese’ de um momento da dialética. Mas isto, obriga, por outro lado a reconhecer, na ‘tese’ a ‘síntese’ de um momento dialético anterior.

Assim, é necessário levar em conta que José Sócrates defendia tenazmente um modelo criado por Cavaco e Silva, isto é, aplicado desde 1985. Em nada diferia daquele aplicado por Roosevelt em 1935 ou Dilma Russef atualmente. Tratava-se de acelerar o crescimento por meio de obras públicas pois, a construção civil é o setor com mais capacidade de puxar por outros setores. Não obstante, o aceleração da globalização nas décadas de 1980 e 1990 põe em causa a eficácia deste modelo. A construção civil pode puxar pela indústria chinesa… que não paga impostos para a manter.

As empresas de exportação portuguesas foram tanto puxadas pelo consumo dos pedreiros e funcionários públicos (as cadeias de supermercado) e que, posteriormente, se internacionalizaram como pelos deslocamentos de capital alemão (o sector da metalomecânica: Wolksvagen/Auto-Europa e Bosh). Embora estas últimas tenham ficado de fora da estratégia económica de Portugal entre 1985 e 2008, elas foram definitivamente afetadas por elas. Setores distintos, elas fazem parte da totalidade da economia portuguesa: são afetadas pelas mesmas condições macroeconómicas, nas quais elas exigem que o governo intervenha. PIB, consumo, investimento, balança corrente de transações, etc., letras mortas, ganham vida a partir do momento em que são entendidas no cerne da luta política. O que interessa a uns, pode não interessar a outros.

A contradição pensada como oposição entre tese e antítese de um momento dialético de devir histórico, obriga à reunião de contrários. Se a ‘tese’ não produziu por completo a ‘antítese’, pelo menos fazem parte da mesma infraestrutura. Obviamente, tese e antítese colocam uma ‘síntese’ em perspetiva. Desse ponto trata a terceira e última parte deste texto.

– continua –

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9 de Agosto de 2012 - Posted by | Ideologia, Metodologia | , , ,

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