Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Segunda nota sobre o stalinismo

Segundo Bobbio, o marxismo do séc. XX dividiu-se em dois: no marxismo dogmático e no marxismo empírico. A classificação só é feliz se dogmático for – como ele propõe – , não uma desqualificação a priori desse marxismo, mas a indicação de que o procedimento destes marxistas se assemelham ao procedimento dos juízes (que se apoiam no método dogmático da jurisprudência). Assim como o juiz procura na lei estabelecida a decisão justa para o caso que julga, o marxismo dogmático procura, nos textos canónicos de Marx, Engels e Lénin, a explicação para a realidade que observa.

O método dogmático opõem-se ao método empírico. Neste, lugar o pensamento científico, os factos empíricos têm a soberania. É preciso, portanto, estar disposto a rejeitar o próprio marxismo. Nele, os factos podem, não apenas refutar este ou aquele aspeto do marxismo, mas toda a teoria. Sublinho “estar disposto”! Os factos estão longe de rejeitar o marxismo; longe disso: seus traços fundadores, sob outro nome de modo a desconhecerem a sua origem, aparecem hoje como indispensáveis às ciências humanas. Não obstante, o bom cientista estar disposto a prescindir do seu ponto de partida, qualquer que ele seja.

Esta oposição, posta assim, explica a preferência dos marxistas que fazem política pelo método dogmático. A tarefa do político é muito mais semelhante à do juiz que à do cientista. O juiz, quando toma uma decisão de acordo com a lei, faz realidade! Essa decisão deve ser cumprida. O político pretende fazer realidade. Quando os comunistas afirmaram, por volta de 1920, que a revolução socialista mundial estava para breve não se enganaram. Apenas foram derrotados!

Numa leitura mais atenta, não obstante, essa opção leva os marxistas para mais próximo do socialismo utópico que do socialismo científico. Nas palavras de Engels: “Para todos eles [socialistas utópicos], o socialismo é a expressão da verdade absoluta, da razão e da justiça, e é bastante revelá-lo para, graças à sua virtude, conquistar o mundo”. À medida que os fracassos se foram acumulando, tornou-se imprescindível corrigir as certezas canónicas: dar um passo atrás,  como fazem os cientistas, de modo a ter uma vista panorâmica sobre a realidade. Com a divulgação do discurso “secreto” de Krushchev, a esquerda deu um passo atrás. Os intelectuais marxistas que, desde a década de 1930, vinham, de forma professoral, criticando os partidos comunistas, surgiram à luz do dia. Até aí, com a exceção da França de Sartre, os partidos tiveram mais audiência que os intelectuais. A partir dos anos 60, os partidos comunistas perdem a sua audiência para os intelectuais de esquerda e, posteriormente, para os partidos movimentistas que estes criaram.

Foi, igualmente, um passo atrás em termos políticos. A década de 1970 marca o início do declínio político do marxismo. A Primavera de Praga constituiu outro rombo; e a queda do Muro de Berlim a machadada quase final nas aspirações políticas do marxismo. Mas também não podemos esquecer que a opção do marxismo pelo método empírico torna-o politicamente ineficaz. Em última análise, o cientista explica porque as coisas são como são; tem pouco a dizer sobre o que fazer para que elas sejam de outra forma. Eu próprio vivi esta angustia todo o ano passado, pois, apesar de entender, desde muito cedo, como o governo atual se escora nas massas (ver aqui e aqui), só muito recentemente pude extrair daí recomendações concretas para a esquerda (ver aqui também). Também por isto, os partidos marxistas tinham todas as razões para rejeitar o marxismo empírico. Ele é politicamente ineficaz.

A solução para esta armadilha, que nos obriga a optar entre um marxismo utópico e um marxismo inoperante, encontra-se, não na busca do meio termo, mas na necessidade de compensar aquele passo atrás por um passo em frente. As bases para esse passo em frente foram ditadas, incrivelmente em 1844, pela crítica de Marx a Hegel. “A teoria é capaz de se apoderar das massas ao demonstrar-se ad hominem” (aqui, p.14; a tradução é substancialmente diferente desta). Isto é: a crítica teórica torna-se crítica prática quando se torna crítica pessoal.

Enfim, se a apreensão teórica da realidade torna o marxismo científico, a tradução desse diagnóstico da realidade em uma política de aliança de classes e numa forma de organização política torna torna a teoria uma teoria prática. Esta implica, por sua vez, a crítica – a tal Ad hominem – de todas as propostas de aliança de classe e formas de organização alternativas em debate. Foi essa a sagaz leitura que Lukács fez daquela afirmação de Marx que eu já tinha notado aqui, e que levei em consideração aqui. Por outras palavras, a realidade coloca os marxistas na ratoeira de optar entre o método dogmático (eu não fiz aqui outra coisa) e o método empírico. Quando, na realidade, a verdadeira opção é o uso dialético dos dois. O método empírico, isto é, a apreciação científica da realidade, opõe-se a ação política como sua antítese. É o passo atrás necessário para fortalecer a prática política. Mas sem o passo à frente, sem a síntese imediata dos dois termos, o marxismo torna-se inoperante.

( Neste sentido, fixar um modelo de organização política é cortar o elo que liga a teoria à prática. Decidir um modelo de organização em função de uma leitura teórica da realidade, como fez Lénin em 1919 com as “21 condições” da Internacional Comunista, é ligar a teoria à prática. Manter esse modelo durante 70 anos é, pelo contrário, impedir que as atualizações teóricas se transformem em prática. Obviamente, a solução não é opor, como fizeram recentemente, o centralismo democrático ao modelo democrático burguês. Isso é opor, consciente ou inconscientemente, de qualquer modo sem tornar explícito, um partido predominantemente voltado para a luta sindical a um partido predominantemente voltado para eleições. Isto é, a questão organizacional colocou-se a despeito das suas implicações teóricas, certamente mais pela a adesão ao modelo forma de democracia burguesa que por uma atualização de facto da teoria marxista. Obviamente, a maioria de sindicalistas que são os militantes do PCP derrotou a minoria de intelectuais que vêm o partido reduzido aquilo que dele espera o Estado burguês.

Pior solução é falar de modelos auto-geridos como faz o Fórum Social Mundial. Se todos os modelos de organização são potencialmente possíveis, nenhuma teoria se torna prática. Como Lukács apontou, foi porque as suas resoluções não tinham quaisquer consequências organizacionais que a II Internacional pode decidir tudo e o seu contrário. Trata-se, realmente, de colocar à discussão quaisquer 21 condições; de, portanto, abri-las a debate… como, de resto, o fez Cunhal em 2001 ).

Lénin conseguiu fazer este movimento dialético sozinho – nisso foi mais marxista que Marx. Não é por acaso que o seu livro de teoria do conhecimento, Materialismo ou empiriocriticismo seja reclamado pelos stalinistas, enquanto os eurocomunistas veem no seu caderno de notas, Cadernos de filosofia, o ponto de partida para o marxismo ocidental. Na verdade, mais do que uma questão de conteúdo, trata-se de uma questão de forma. Os “Cadernos de filosofia” são anotações pessoais de Lénin quando este estudava a “Enciclopédia das ciências filosóficas” de Hegel – o tal passo atrás. “Materialismo ou empiriocriticismo” é um livro publicado contra aqueles que opunham ao marxismo a impossibilidade de explicar o mundo de forma objetiva – o passo em frente. (Embora neste caso, “Materialismo ou empiriocriticismo” tenha sido escrito em primeiro lugar).

A esperança é que, neste tempo de crise, consigamos societariamente fazer o mesmo que Lénin conseguiu fazer individualmente. Entre 1920 e 1960, reinou o marxismo dogmático sob a forma de stalinismo. Entre 1960 até agora, os partidos perderam espaço para os intelectuais dando azo à antítese do stalinismo: o marxismo ocidental. Chegou o momento de alcançar a síntese!!!

Anúncios

12 de Agosto de 2012 - Posted by | Ideologia, Metodologia | , , , ,

Sorry, the comment form is closed at this time.

%d bloggers like this: