Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Etologia e etnologia

No post anterior, argumentei que Konrad Lorenz, buscando entender a agressão, entre a espécie humana, deslocou a Grande Divisão – entre corpo e espírito – para cima. Assim, o Homo sapiens é, para Lorenz mais corpo do que espírito. E, por isso mesmo, vivia o clima da Guerra Fria em que ele escreveu o livro. Pela minha parte, ripostei a pergunta: quanto espírito é preciso para fazer uma guerra nos dias de hoje? Por outras palavras, dada a logística e a tecnologia envolvidas, nos dias de hoje, numa guerra, parece-me impossível atribuir aos instintos a nossa tendência guerreira. A moral está envolvida decisivamente nisso. É esse argumento que quero aqui detalhar, chamando a atenção para três aspetos.

1. Lorenz, sem ler os etnólogos franceses, concordou com eles. Segundo já um texto de 1903 (“Algumas formas de classificação primitivas” de Durkheim e Mauss), a realidade social é organizado por esquemas binários de oposição; mas nessa época se atribuía essa organização à própria realidade, já que os grupos humanos pareciam constituir-se por cissiparidade. Somente em 1962, inspirado pela linguística, Lévi-Strauss (“O totemismo hoje”) atribui esse resultado ao intelecto e não à realidade em si. A realidade é contínua e desorganizada; a distribuição binária do mundo é produto do esforço por compreendê-lo; e a ação do homem no mundo acaba por transformar este de acordo com esse formato (daí a organização dual das aldeias tribais).

Para Lorenz, a raiz do pensamento dual é o instinto da agressão. A sua evolução filogenética, em algumas espécies, transformou-o também na fonte do amor. Os ritos de acasalamento parecem-se demais com atos de agressão. Nos gansos, por exemplo, o macho simula atacar a fêmea; somente no último momento desvia a sua investida atacando, num movimento em tudo semelhante, o ar ou um macho vizinho segundo as espécies. O amor implica o ódio e vice-versa, como sabiam os poetas. É preciso notar que esta tese contradiz outra, de Jack Gooddy (“A domesticação da mente selvagem”, 1977) segundo a qual é a invenção da escrita que condiciona a mente a organizar a realidade de forma dual. Neste sentido, não são os povos tribais que pensam dualmente; são os etnólogos ocidentais que os percebem assim. O mesmo poder-se-ia dizer de Lorenz e os seus gansos? De qualquer modo, se aceitarmos que o pensamento dual é produto do instinto de agressão, temos de reconhecer que ele influencia a melhor ciência. Gaston Bachelard bem se lamentou (em “A formação do novo espírito cientifico”) que os erros epistemológicos surgem sempre aos pares.

2. Contudo, parece-me insuficiente atribuir ao instinto de agressão a nossa tentação pelo conflito. Imaginemos duas sociedades hipotéticas. Uma, profundamente desigual, onde os mais pobres têm até uma aparência física diferente, são todos trabalhadores, divertem-se apenas jogando futebol e vivem amontoados em casas sem condições. Os outros vivem em casas cómodas, vão frequentemente ao cinema e ao teatro, têm piscina e são os seus patrões ou chefes. (Não se trata de um exemplo puramente hipotético, mas inspirado na organização de uma fazenda de café no sul da Guatemala). Obviamente, estes Homo sapiens têm a tentação de ver-se com indivíduos de duas tribos incomunicáveis, em guerra!

Agora imaginemos outra sociedade (europeia?) como melhor distribuição de rendimentos. Talvez a distância entre o mais rico e o mais pobre seja a mesma. Mas agora há uma gama de estados intermédios. Vejamos isso pelo lado da cultura. Os mais pobres jogam pà bola ou vão ao cinema. O escalão imediatamente acima vão ao cinema e ao teatro; fazem yoga e somente de vez em quando joga à bola. O terceiro escalão vai ao teatro e ao cinema, mas no que toca ao desporto prefere o ténis e o squash. O último o mais rico escalão vai apenas à opera e ao balé e joga golfe. Neste como no caso anterior, o cérebro humano é obrigado a conhecer a realidade opondo as suas partes de forma binária. Ao contrário do anterior, uma oposição não basta; é preciso recorrer a várias. Enfim, a forma elementar da sociedade, o indivíduo, torna-se mais clara – de modo a tornar-se mesmo mais importante que a classe ou a tribo, o grupo. E, uma vez atenuada a imagem da tribo, da classe ou do grupo, a ideia de humanidade aparece. Neste caso, a guerra torna-se impossível.

(Porque se inspira mais na etnologia norte-americana do que na francesa, Lorenz percebe de modo diferente – e, a meu ver, errado – o mal estar gerado pelo contacto entre europeus e outros povos no processo colonizador. Não é a cultura que, em contacto com outra cultura se dilui e deixa os seus membros sem capacidade de entender o mundo. É uma oposição do primeiro tipo, ao extremo, que se instaura).

3. Podemos imaginar também a disputa entre dois grupos “tribais” acerca da guerra. Falo, por exemplo, da marinha e do exército (norte-americano?). Podemos imaginá-los, por um lado, opostos aos fabricantes de armas e, por outro, opostos entre si aliados a diferentes fabricantes de armas. Esta dupla oposição cruzada coloca-os em disputa entre si, criando um jogo cujas provas só podem ser dadas na guerra conta um inimigo distante. Assim, mais uma vez, a guerra é produto do instinto mas somente de forma indireta. Sendo necessário toda a agudeza de espírito para ganhar essa guerra; é o instinto que lhe dá ânimo. Mas basta um pouco mais de imaginação para observar que aquilo que pode produzir a guerra também pode a paz. Imaginemos agora duas faculdades de medicina disputando a descoberta da cura da SIDA.

CONCLUSÃO: A etologia e a etnografia (ou o marxismo) arriscam-se a ser complementares e necessárias para explicar a sociedade. Bourdieu (em “Meditações pascalianas”) afirmava que o sociólogo pode explicar porque umas coisas são mais interessantes que outras. Mas difícil é explicar porque o Homo sapiens  tem, necessariamente, de interessar-se por algo e o contrário, a apatia, é um estado patológico. Essa dificuldade advém, certamente, da explicação para isso estar fora do objeto da sociologia. Depois de ler Lorenz, fiquei convencido ter encontrado a explicação: o instinto natural da agressão.

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13 de Agosto de 2012 - Posted by | Mundo | , , ,

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