Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Konrad Lorenz

Finamente terminei… um livro que se arrastou comigo por meses: A agressão, de Konrad Lorenz. Um amigo ofereceu-me em meados do ano passado. Devo confessar que pesou bastante o pé atrás que tenho sobre as determinações biológicas do comportamento humano. Por isso, somente depois de me envolver em debates com militantes do PNR no Facebook, que reclamam a etologia como fundamento da sua ideologia, resolvi lê-lo. Curiosamente, o livro não os sustenta. Lorenz chega, pelo estudo dos gansos, à conclusão partilhada pelos etnólogos: é o rito, e não a genética, que forma os grupos. Claro que, entre gansos e entre homens, o rito com o parceiro sexual e com os amigos começa na juventude. É inevitável que se escolha um parceiro acessível; e na vizinhança somente encontra outros gansos do seu bando. Se o acaso permitir que um jovem ganso se perca e seja recebido por um rito de acasalamento de outro jovem antes de ser expulso por um adulto, ele se integra na perfeição.

De resto, o argumento de Lorenz é que o amor e a guerra são originadas pelo mesmo instinto. Garantimos a guerra com uns ao ter o amor de outros, e vice versa. Seu plano – mais uma vez no sentido contrário do PNR – é apresentar e estudar tais mecanismos instintivos para que a moral os possa conduzir, estimulando o amor e evitando a guerra. É aqui que eu entro num desacordo fundamental com a obra de Lorenz, mas num ponto aquém da ciência. Esta oposição entre instinto e moral é tributária da grande divisão que define o homem ocidental: entre o espírito e o corpo. Divisão essa que se traduz em várias: homem e animal; sociedade e natureza; moral e instinto; arcaico e moderno; política e economia (em Marx); etc. etc. Mais importante é que ela remete para outra grande divisão: entre o reino da liberdade e o reino da necessidade. Enfim, o que Lorenz faz é deslocar a grande divisão para “cima”, isto é, mostrando que o ser humanos é mais corpo do que espírito, apesar dos seus desejos de ser mais espírito do que corpo.

Obviamente, as coisas não são nada assim. Espírito e corpo são inseparáveis e, creio, o segundo domesticou suficientemente bem o primeiro. Só um exemplo: a nossa nutrição é regrada até nas horas a que devemos comer. Mas talvez valha a pena dar um passo em frente e ir ao âmago da discussão do livro. Lorenz parece crer que as guerras que existem no mundo – ele escreveu o livro em plena guerra fria – se devem ao instinto guerreiro, ao corpo, do Homo sapiens.  Contra ele eu pergunto: quanto espírito é necessário para conceber e pilotar um avião como o F117? Quanto espírito foi necessário para organizar toda a logística que permitiu milhares de homens embarcarem nos EUA e desembarcarem no Iraque? Não será então o espírito humano, e não o corpo, quem precisa de ser controlado?

continua

Anúncios

13 de Agosto de 2012 - Posted by | Ideologia | , ,

Sorry, the comment form is closed at this time.

%d bloggers like this: