Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Crises cíclicas e sistémicas?

Não sou mais do que eu aventureiro na área da economia. Aventurar-me na crítica a um pós-doutorado em economia, ainda que seja um amigo e camarada, é sempre arriscado. Mas cá vai a minha crítica ao texto do Edmilson.

Até onde sei de economia marxista, as crises têm uma só explicação. O consumo é a ultima fase da produção. Se um produto não for consumido, ele não se realiza. Uma tonelada de laranjas não vendidas é uma tonelada de laranjas podres. Uma palete de caixas de sapatos não vendidos é uma palete de caixas de sapatos a ganhar pó. O problema é que “enquanto a força produtiva cresce em progressão geométrica, a expansão dos mercados cresce, na melhor das hipóteses, em progressão aritmética” (Engels, cit pelo Edmilson). Quando se produz muito mais do que se pode vender é necessário pôr de parte as máquinas e os homens que produzem esse excesso. Ora, obviamente, por de parte os homens é reduzir ainda mais as vendas. Esta espiral negativa é a crise.

Mas o Edmilson quer propor-nos uma distinção: entre as crises cíclicas, que Marx conheceu; e as crises estruturais cuja primeira somente viria a suceder em 1873, depois da morte de Marx.

  • “As crises cíclicas são fenômenos perturbadores do curso natural deste modo de produção e já fazem parte do cotidiano histórico”.
  • “As crises sistêmicas têm uma dimensão superior, ocorrem em períodos mais longos, desestruturam toda a ordem anterior e constroem, sob seus escombros, uma nova ordem, isso porque significam a exaustão de um período histórico de acumulação do capital”.

É notável, não obstante, que a síntese de Engels para a explicação marxista da crise seja válida tanto num como noutro caso.

Eu creio, pelo contrário, que aquela distinção não se aplica – ou, pelo menos, não se aplica daquela maneira. Há medida que os capitalistas foram conhecendo as crises, foram também tentando preveni-las. Isso alongou o período entre crises mas também agravou as consequências daquelas que os capitalistas não conseguiam evitar. Isto é quase o que o Edmilson diz. Com uma distinção: a diferença é quantitativa e não qualitativa. Ou, mais exatamente, a diferença qualitativa não está no mecanismo fundamental da crise, mas na capacidade dos capitalistas (e do Estado) evitarem-na manipulando os fatores capazes de contrariar a tendência declinante da taxa de mais-valia.

À primeira vista, eu estaria apenas a repetir o que o Edmilson disse. Mas não é verdade. As crises não diferem pelo seu conteúdo – a contradição entre capital e trabalho e o problema de realização da produção. Em-si elas são iguais; elas diferem no modo como se apresentam à classe burguesa. Então, todas as lupas do marxismo devem estar voltados não para a dimensão da crise, mas para a história das ferramentas dos capitalistas (e do Estado) para lidar com ela. Assim, duas destas ferramentas merecem especial destaque:

  • A criação de um consumo extraordinário pela expeculação
  • A deslocalização das empresas para países onde os salários são mais baixos.

Sobre isto, apraz-me dizer três coisas:

1. A crise de 1973 marca uma rutura com o modelo keynesiano. Este assentava sobretudo na criação de um consumo extraordinário pela especulação. A crise do petróleo dá inicio a uma nova era da globalização com a) a deslocalização da industria do centro para a periferia do capitalismo e b) o crescimento do poder do sistema financeiro que obrigou os Estado a assumirem políticas de combate à inflação. Consequentemente, a válvula de escape do modelo keynesiano foi tapada: sabe-se que a inflação é responsável pelo desaparecimento de 2/3 da dívida norte-americana contraída durante a II Guerra Mundial. Ao mesmo tempo, c) o excedente de poder de compra foi deixou de ser aplicado, pelas empresas, em bens de investimento e passou a ser aplicado, sobretudo, pelo Estado, em bens de consumo. Ou seja, passou de investimento a gasto.

2. Desse modo, o primeiro aspeto que ditará o futuro da economia mundial é saber, até que ponto, estamos frente ao esgotamento do modelo keynesiano. O poder de compra gerado pela especulação é tão grande que parece ameaçar a legitimidade do sistema monetário. A curto prazo isso só parece acontecer na Europa. Mas as causas podem ser antes atribuídas à falta de centralidade do sistema monetário. Ao olhar para os EUA ficamos com a ideia oposta. O endividamento está a acontecer a taxas de juro abaixo da inflação, isto é, negativas, o que tende a anular a dívida a médio prazo.

Não obstante, é preciso entender as bases que permitem aos EUA fazê-lo. Todos os países do mundo compram petróleo em dólares… e guardam dólares sob a forma de títulos de dívida pública norte-americana. É por isso que as emissões de dívida do Estado dos EUA realizam-se como um juro nominal perto de 0%. Não obstante, a China já procura comprar petróleo em yuan – conseguiu-o com o Irão. O conflito na Sïria deve-se a necessidade que os EUA têm de reverter, pelo controlo militar, o sucesso da diplomacia chinesa.

Outro aspeto desta questão é a da relação com a balança comercial. Com a deslocalização das empresas, os países centrais do capitalismo passaram de exportadores a importadores. Aí, devo confessar que entendo pouco de contabilidade pública para esboçar sequer como fazer as contas. A pergunta é: será que a inflação pode erodir a dívida de forma a compensar o endividamento para sustentar o défice da balança comercial?

3. A transferência da industria do centro para a periferia o capitalismo alterou a forma da capitalismo. Não obstante, os economistas continuam a pensar a economia sem considerar verdadeiramente estes fluxos regionais. Além de ser uma visão profundamente etnocêntrica do ocidente. A crise de 2008 é comparada com a de 1929; no melhor dos caso com a de 1970. Jamais é pensada em relação com as crises de 1985 (na América Latina) e 1997 (na Ásia). Neste sentido…

  • Será que estamos mesmo numa crise do capitalismo central?
  • Ou, antes, na terceira contração do espaço de consumo global? Em 1985-1993 foi retirada dele a América Latina e em 1997-2000 a Ásia.
  • Ou, pelo contrário, a globalização gerada na década de 1980 vai permitir que o espaço de consumo/centro do capitalismo se desloque? esta vez para  China.

Possivelmente, esta crise de 2008 pode ser pensada daquelas três maneiras. Ou, mais exatamente, cada uma daquelas perguntas traz, na rua resposta, elementos igualmente importantes para descrever a crise. E, mais do que isso, somente o futuro – e a ação consciente e inconsciente das frações de classe na condução da crise – poderá “decidir” qual daquelas três visões sobre a crise é correta.

Enfim, uma pequena correção da distinção do Edmilson obrigou-se a colocar perguntas que ele não colocou.

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16 de Agosto de 2012 - Posted by | Sem categoria

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