Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Crise: dois preconceitos

Não sei se são preconceitos ou pré-conceitos (isto é, ideias feitas, independentemente se são fonte de legitimação e poder – como os preconceitos – ou não). Mas dois preconceitos têm levado a que, sobretudo a esquerda, não coloque questões fundamentais sobre a crise.

O primeiro pré-conceito deriva do nacionalismo do pensamento económico. Se analisa a crise a partir da contabilidade nacional de um ou dois países. Normalmente o país do autor da análise e/ou os EUA. Assume-se que o mundo é um grande país. Ou, mais das vezes, a média de todos os países, onde os BRICs vão contra corrente. Esquecemo-nos que, na década de 1990, a economia mundial apareceu organizada em regiões (Europa, América do Sul/MERCOSUR, etc.) numa dupla hierarquia: hierarquia entre regiões; e hierarquia entre economias nacionais dentro das regiões.

De acordo com a literatura marxista as crises devem-se ao fato de a  vários fatores. Pelo seu aspeto externo, podemos dizer, com Marx, que “[e]nquanto o poder produtivo aumenta numa razão geométrica, a extensão dos mercados avança, na melhor das hipóteses, numa razão aritmética”. (Não  confundir capacidade de consumo com necessidade de consumo. 8 milhões de pessoas em todo o mundo têm necessidade de alimentos, mas não têm capacidade – poder de compra – para consumí-los). Quando a produção supera em demasia a capacidade de consumo, a economia conhece prejuízos terríveis. Uma tonelada de laranjas que fica por vender se torna em uma tonelada de laranjas pobres. Mil caixas de sapatos não vendidas são mil caixas de sapatos ganhando pó. 500 casas por vender valem tanto quanto 500 casas imaginárias – sobra só a dívida da construtora. O consumo é a última fase do processo produtivo. É pelo consumo que a produção se realiza.

Nesse momento, e devido ao planeamento anárquico da produção (cada empresa por si), a solução mais corrente é ajustar para baixo. Colocam-se de lado as máquinas e os indivíduos em excesso que produziram aquilo que o mercado não consumiu. A consequência é, evidentemente, um novo golpe na capacidade de consumo. O problema de produção excessiva, aparentemente resolvido com a demissão de trabalhadores ou corte nos salários, simplesmente se agrava exigindo outro corte. Começa então uma espiral negativa a que chamamos crise do capitalismo.

Este nacionalismo só é possível porque ajudado por um eurocentrismo. A crise atual é frequentemente comparada com a crise de 1929. No melhor dos casos com a de 1973. Mas jamais com as crises de 1985 em diante na América Latina e de 1997 em diante na Ásia. Deste ponto de vista, continua a ser verdade que a crise é uma crise de super-produção. Não obstante, não existirá aqui também uma deslocalização dos espaços de consumo, isto é, dos espaços de realização da produção?

Partindo desta questão podemos prever três cenários:

  • Se trata mesmo de uma crise de super-produção.
  • Se trata de uma redução dos espaços de realização da produção.
  • Se trata de uma deslocalização desses espaços.

No primeiro caso, o modelo marxista explica ainda as crises. No segundo e no terceiro, é necessário incluir nele os deslocamentos geográficos da produção estrito senso e do consumo no último meio século. Esses deslocamentos podem mostrar-nos duas coisas. Que os espaços de consumo estão a reduzir-se aos países da Europa do Norte e aos Estados mais industrializados dos EUA. Ou, pelo contrário, que os espaços de consumo estão migrando dos espaços que se desindustrializaram há 40-50 anos (Europa do Sul, por exemplo) para os espaços que se industrializaram no mesmo período: Brasil, China, etc.

O meu palpite – à falta de uma análise – é que a realidade contém elementos de cada um destes três cenários. Assim, a economia mundial tenderá a aproximar-se de um ou de outro cenário conforme a evolução das condições objetivas e subjetivas. Obama, pouco interessado em der a hegemonia mundial que o seu país detém, supõe e propõe o primeiro cenário. Tendo como “ponta de lança” Krugman, tenta convencer a Europa a tomar medidas que evitem a contração do consumo. Mas isto implica, entre outras coisas, que a Alemanha pague boa parte da dívida aos países da Europa do sul. E Merkel não está interessada; por isso supõe e propõe o terceiro cenário. Enquanto obriga os países da Europa do Sul a acelerarem a sua quebra de consumo – como forma de reduzirem o défice da balança comercial – , faz pressão sobre os BRICs para implementarem políticas sociais. A distribuição de rendimentos nestes países serve para acelerar a formação de uma classe média capaz de consumir aquilo que os europeus deixaram de consumir.

Claro que de boas intenções está o inferno cheio. E, mais do que as boas ou más intenções de Obama e Merkel – que resumem a divisão atual de toda a classe burguesa – , está a realidade. As dificuldades que a Europa tem em aplicar a política keynesiana de Obama, como as dificuldades de Dilma em aplicar a política de Merkel, mostram os limites a vontade humana sobre a  condução dos assuntos económicos. É um facto que os três cenários continuam em cima da mesa. Mas não é só escolher!

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21 de Agosto de 2012 - Posted by | Economia | , , ,

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