Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

O refluxo da luta

É típico do ser humano – já Platão o elogiava sob a ideia de justiça – empenhar-se no que faz bem e negligenciar o que faz mal. Pelo que vejo daqui do Rio de Janeiro, os sindicatos estão a fazê-lo. Mas ao ponto de se tornar contraproducente e minar o seu trabalho. Os sindicatos hoje conseguem mobilizar pouco mais que os funcionários de Estado, em especial, a) os trabalhadores dos transportes públicos, b) os professores e c) os trabalhadores da administração local.

Não tenho dúvidas que foi a reorganização do trabalho durante a década de 1990 (em especial a tercearização mas também a imposição de rotatividade do trabalhadores entre equipas) que minou o trabalho dos sindicatos nos outros sectores da economia. Assim, vale a pena notar a ausência de qualquer sindicato forte nos dois sectores mais importantes da indústria: d) a construção civil e e) a metalomecânica (apesar da Auto-Europa ser a maior empresa portuguesa). Ou mesmo no f) comércio, em particular nas grandes superfícies. Ao que valia juntar g, h… z) todos os outros sector desorganizados.

Esta partição da classe operária entre trabalhadores do Estado e trabalhadores do privado existe duas vezes. Objetivamente, enquanto não apenas uma diferença de patrão, mas sobretudo devido às suas consequências na organização sindical. Assim, os trabalhadores do Estado são objetivamente diferentes dos trabalhadores do privado: encontram-se mais organizados*.  No plano subjetivo deve ser sublinhado que a crise é vista como consequência do “despesismo” do Estado. Portanto, os salários dos trabalhadores do Estado surgem, também eles, como uma das causas da crise.

Assim, os trabalhadores tendem a quebrar a sua unidade em torno destas duas frações. Por três razões:

  • A esquerda só consegue levar os primeiros para a luta.
  • Os segundos desdenham essa luta porque veem os salários (e a preguiça) dos primeiros como uma das causas da crise.
  • A burguesia aproveita-se desse fenómeno para forçar a quebra, divulgando casos excecionais ou mentiras (aqui também).

Posto isto, é natural que as classes trabalhadoras percam força. À medida que os trabalhadores do Estado ficam mais isolados também ficam mais desmotivados. E há medida que se desmotivam, os sindicatos vão baixando os braços. Apesar dos pré-avisos de greve, somente nos transportes públicos se vê algum impacto. Novembro é o mês da reentrée política da CGTP, com uma greve geral! Duvido que, em 2012, essa greve se repita. A confederação sindical tem a consciência que está a perder força.

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5 de Setembro de 2012 - Posted by | Portugal | , , ,

2 comentários

  1. Olá.

    Algumas questões depois de ler isto: http://www.scribd.com/doc/102101799/Desempregados-nao-pagam-dividas-respostas

    Podes tentar explicar-me a palavra de ordem “desempregados não pagam dívidas”?

    O intuito é mobilizar o povo para a defesa do país, da economia, rejeitando a sua destruição com o propósito de “honrar compromissos”?

    Não abrimos terreno ao discurso do PS de divergências quanto ao ritmo e à intensidade da austeridade, facilitando a alternância sem alternativa?

    E em que pé ficam os trabalhadores organizados nas empresas? Porque a luta de massas tem, entre outras, estas duas vertentes: os trabalhadores, “individualmente”, no seu local de trabalho em guerra com o patrão, por um lado, e esses mesmo trabalhadores *com os outros*, a rejeitar as políticas em curso, e mesmo que inconscientemente a classe a que o seu patrão pertence.

    Há fenómenos, como o 12 de Março, e não refiro mais porque não os houve com dimensão sequer comparável à deste, que ultrapassam o primeiro dos fenómenos que referi e em que acabam por caber todas as frustrações, incluindo as frustrações contra este ou aquele governo em particular, ou contra os políticos em geral, mas raramente com a pontaria certeira que a situação exige: o grande capital e o sistema que o sustenta.

    A CGTP tem na manifestação pelo emprego que vai haver em Outubro, a oportunidade de aliar aos trabalhadores no activo, que lutam (quando lutam) nas empresas, camadas de trabalhadores precários ou desempregados, potenciando a sua participação na luta de massas de forma consequente. Percebo, por esse exemplo, a necessidade de ter o desemprego como bandeira.

    Podes, então, explicar-me melhor o que está mais por trás dessa palavra de ordem que eu não tenha percebido?

    Obrigado e boas noites!

    Comentar por Tiago Figueiró | 9 de Setembro de 2012

    • Olá Tiago.

      A questão é complexa e múltiplos caminhos vão dar a Roma. Existem 3 grandes razões para apostar nesse lema. 1) É um modo de mobilizar e organizar uma terceira fração das classes trabalhadoras: os jovens que fizeram o 12 de Março. Como filhos de ambas frações são capazes de arrastá-las na sua luta, como fizeram nessa manifestação, e unir a classe operária. 2) Apesar de modesta, essa palavra de ordem expõe o programa de austeridade na sua contradição. O desemprego mostra que a redução do défice gera desemprego e, portanto, aumenta a dívida em percentagem do PIB. Hoje devemos 7 mil milhões de euros menos que em março, mas a dívida aumentou de 129 para 136% do PIB. Porquê? Ora, porque 20 mil desempregados não produzem riqueza.

      O espaço de comentário é insuficiente para explicar, como eu gostaria, estas duas questões. Vou a uma terceira: não estarei a abrir espaço para o PS? Ou, mais radicalmente, para uma austeridade mas pouco que José Sócrates adorava? Acho que a melhor resposta é um facto histórico.

      O que surpreende os investigadores é o recuo do PCP, em 1974, em relação à Reforma Agrária. Se ela estava bem explicita no “Rumo à Vitória”, desaparece na Resolução do VII Congresso do PCP. O Partido defende, para o Alentejo, exatamente aquilo que os trabalhadores demandam: o pleno emprego. E vai mais longe. Os camaradas do STA (Sindicato dos Trabalhadores Agrícolas) afirmam que assegurar o pleno emprego é um dos elementos fundamentais para promover a revolução agrícola (leia-se “modernização das herdades”) proposta pelo Ministério da Agricultura dos governos provisório. Lembremo-nos que se trata de um ministério que, exceto no VI governo e, talvez, no V, esteve sempre entregue ao PSD.

      Assim, a reunião entre o governo, a Associação De Agricultores (atual CAP) e o STA acordou a criação de uma comissão para ver quantos empregos poderia oferecer cada herdade o obrigar o latifundiário a oferecer todos os empregos disponíveis. Mais ou menos reticentes, a maioria aceitou. Uma minoria recusou-se. Um resolveu vender rebanhos e tratores para não ter emprego para oferecer. Os trabalhadores ocuparam a entrada da herdade para impedir a saída das máquinas e do rebanho. O Ministério da Agricultura (PSD) e o Ministério do Trabalho (PS, embora se fizesse representar pelo Secretário de Estado indicado pelo PCP, Carlos Carvalhas) intervieram. Rapidamente se esgotaram as alternativas e o Estado foi obrigado a nacionalizar a herdade.

      Em novembro de 1974, as primeira herdade foi nacionalizada. Em fevereiro de 1975, são os próprios trabalhadores agrícolas que, num congresso realizado em Évora, propõem a Reforma Agrária. Aliás, não é por acaso que as ocupações de terras se dão entre agosto e setembro de 1975. O V governo provisório (8 a 24/ago), no qual só o PCP se apresentou disponível para participar, coincidiu com as sementeiras que os latifundiários não quiseram fazer para evitar dar emprego em 1976. Os trabalhadores ocuparam, sobretudo, para semear os campos. Por isso as ocupações continuaram no VI governo provisório onde o PCP quase não participa.

      Moral da história: se a bola de neve partir, ela atropelará aqueles que, como o PS, podem beneficiar da sua partida. Eu tenho essa esperança. Admito poder estar errado. Nesse sentido, o que separa o recuo tático correto do incorreto? O recuo tático permite fincar os pés no chão; mas só o recuo tático correto permite, depois, avançar. Eu acho que, dado os dois pontos acima, gritar “desempregados não pagam dívidas” e, sobretudo, constituir uma organização de desempregados, abre as portas à escalada da luta.

      (Obviamente, não vamos abandonar os nossos instrumentos de luta – a CGTP. Trata-se, antes, de forjar outros que me parecem, no contexto concreto de Portugal no ano de 2012 – insisto no caráter conjuntural desta análise – , mais capazes de unir a classe operária).

      Comentar por Jose Ferreira | 10 de Setembro de 2012


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