Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

A aventura de Passos Coelho

O governo de Passos Coelho foi um governo muito peculiar; em certo sentido foi revolucionário. A fração dominada da classe dominante arrebatou o poder por uns tempos. Os exportadores, em especial a Jerónimo Martins e a Auto-Europa, adquiriram o protagonismo político que até aí era da banca (BES, BPI, CGD…) e da construção civil (Mota Engil, Teixeira Duarte, Grupo Lena…). Essa tensão, refletida na divisão da economia que surgiu então na boca dos comentadores políticos (bens transacionáveis vs bens não transacionáveis), ficou bastante explicita no debate político durante o último ano de governo de José Sócrates.

Esta mudança implicou duas coisas. Primeiro, o apoio de Bruxelas; segundo, a nomeação de gente nova para o governo. A novidade do governo revelou-se primeiro negativamente, com uma série de recusas de notáveis do PSD (com destaque para Manuela Ferreira Leite) em participar dele. Depois, a novidade afirmou-se positivamente, sublinhando o fato da vários ministros terem mais experiência académica e profissional que política. Álvaro Santos Pereira é o arquétipo desta novidade: possuidor de um invejável currículo académico, ficou prisioneiro da sua inexperiência política. As trapalhadas em torno do plano estratégico dos transportes (que afinal era só um calendário de privatizações em powerpoint) e, mais recentemente, em torno dos gestores do metro do Porto deram a prova da sua inexperiência política.

Miguel Relvas era, talvez, o único ministro que está no governo como peixe na água. Foi ele quem distribuiu os jobs pelos boys e os boys pelos jobs no governo, mantendo assim a paix social entre o governo, o partido e alguns lóbies.  Quando as coisas  começaram a correr mal, ele foi o primeiro alvo a abater. É claro que o governo conta com o experiente Paulo Portas, mas… conta mesmo? Finalmente, o núcleo duro do governo é, evidentemente Passos Coelho e Victor Gaspar. A sua experiência política é eminentemente profissional e vice-versa. O Primeiro-Ministro era, até ser eleito líder do PSD, administrador de uma empresa do barão do PSD Ângelo Correia. O Ministro das Finanças era, até entrar no governo, um consultor de várias instâncias europeias. Assim, podemos dizer que estão a meio caminho, em (in)experiência e (falta de) CV, entre o Alvarinho e o Relvas.

Do ponto de vista político e ideológico o governo é radicalmente novo. Obviamente, representa, como disse, uma nova fração da elite económica. Mas é novo não só no conteúdo; é-o também na forma. De Cavaco a Sócrates, os governos legitimavam o interesse de algumas empresas portuguesas através de um discurso neo-keynesiano. Passos Coelho representava outros interesses. Mas no seu caso, foi o discurso liberal que se tornou interessante para aqueles que o puseram no poder. Com Passos, a teoria e os princípios sobrepuseram-se ao discurso… pelo menos enquanto a teoria funcionou. Desde março que as coisas não vinham a correr bem e o governo não teve a experiência política para adequar as suas convicções às circunstâncias. A partir do momento em que a realidade se demonstrou mais complexa que a teoria, a inexperiência política corroeu o governo. Quando as folhas de Excel não chegaram, Passos Coelho cavou o seu túmulo. Isto é, fez o discurso da passada sexta-feira.

Eis o destino dos homens de fora da política.

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13 de Setembro de 2012 - Posted by | Partidos, Portugal | , , , ,

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