Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Que fazer hoje?

Amigo Tiago Figueiró,

A resposta que dei ao teu comentário neste post é correta; mas está desatualizada. Com base numa análise da Reforma Agrária de 1975 (retirada daqui), expus o que define uma boa estratégia política. Ela não ultrapassa o discurso “médio” dos trabalhadores que a irão pôr em prática; mas expõe as contradições do programa burguês, inviabilizando os seus cantos de sereia. Consequentemente, a partir de um “programa mínimo”, a luta dos trabalhadores rapidamente alcançará um “programa máximo” – que nem precisa de estar definido.

A separação das classes trabalhadoras, entre i) trabalhadores do Estado e ii) trabalhadores do privado, minou a sua capacidade de luta. Gritar “Desempregados não pagam dívidas” promete acelerar a luta por duas razões. No plano objetivo, organiza uma terceira fração das classes trabalhadoras: iii) os jovens que pretendiam emprego no Estado (queriam ser professores, advogados, etc.). Porque são os filhos das outras duas frações, são capazes de trazer, atrás de si, seus pais. No plano subjetivo, a palavra de ordem “Desempregados não pagam dívidas” é muito modesta. Mas ela expõe as contradições do programa burguês atualmente em curso. Pagar as dívidas do Estado em nome da honra nacional é destruir a economia nacional para alimentar os agiotas da nação. Pôr a tónica nos desempregados é colocar os holofotes da luta de classes nessa destruição da economia nacional.

Estas observações estão nas minhas Respostas. Mas o discurso de Passos Coelho de 7 de setembro desatualiza a análise. Não nos enganemos; não foi por retirar 7,5% do salário dos trabalhadores que o Primeiro-Ministro uniu as classes trabalhadoras (as três frações assinaladas). Foi porque dividiu as elites; e a fração dissidente arrasou a teoria das inevitabilidades com que o governo impôs o seu programa aos trabalhadores. As três frações saíram à rua numa manifestação que havia sido previamente convocada pelo BE. Não obstante, a sua unidade ainda está longe de ser alcançada. Por exemplo: enquanto que a primeira fração (ver Respostas) continua a confiar nos sindicatos, as outras duas desconfiam de qualquer político profissional incluindo os sindicalistas. Por essa razão, os organizadores da manifestação “Que se lixe a troika” foram obrigados a, pelo menos oficialmente, virar as costas aos partidos.

Qual é o dever, hoje, de qualquer um que se esteja em Portugal e se proponha como vanguarda revolucionária? Derrubar este governo? Não. A massa fá-lo-á sozinha. Uma vanguarda que toma para si os objetivos que a massa já identificou é uma retaguarda. (Não é por acaso que a UGT e o PCTP vieram falar de greve geral na mesma semana. A massa imponente obrigou todas as organizações a radicalizar a sua agenda). Aliás, em Portugal não há vanguardas. O BE nem coloca isso como questão, propondo coisas absolutamente dispensáveis. O PCP coloca como sinal de vanguarda a organização, o que transforma a organização num fim em si. Uma vanguarda deve estar organizada. Mas isso é insuficiente para defini-la como tal. Já o PCTP vê como vanguarda a fração da massa mais radical na crítica ao governo. Mas as vanguardas, como mostrou bem Lénin em o Que fazer?, são organizações enraizadas da massa… não frações da massa.

Uma vanguarda deve antecipar a luta de classes. Isto é, ela deve prever como esta luta vai evoluir e começar mais cedo a organizar os setores chave da luta de classes no futuro imediato. Como nos meses que se seguiram a março de 2011, devemos esperar que este climax da luta entre, em breve, em refluxo. Acontecerá pelo menos uma de três coisas. a) As tensões entre frações da classe trabalhadora mandarão para o espaço esta unidade conjuntural. A manifestação convocada pela CGTP para o próximo dia 29 é um verdadeiro teste à capacidade de os trabalhadores se manterem unidos. b) Um dos grupos da elite em confronto cede e regressarmos ao ambiente de inevitabilidades que conhecemos até agosto. Não obstante, a legitimidade e, portanto, a eficácia do governo de Passos Coelho será muito menor. Ou, no caso de tanto as disputas intra-elitistas como as manifestações de trabalhadores provocarem a queda do governo, c) uma campanha eleitoral será o ambiente propício para que as elites façam novos acordos e as massas se pulverizem na luta partidária.

O cenário mais favorável aos trabalhadores é o cenário c) – até porque, ao implicar uma extensão temporal da luta, permitirá que os trabalhadores adquiram mais experiência organizativa e política. Evitar o cenário b) é impossível. Ele depende das elites; a melhor vanguarda nada poderia fazer. A possibilidade do cenário a) joga-se dia 29 de setembro. É necessário que seja uma grande manifestação – com números semelhantes aos de 15 de setembro – de modo a que o discurso anti-políticos profissionais, que divide as classes trabalhadoras, seja derrotado. Mas é também necessário que qualquer contraposição, de qualquer natureza, entre as duas manifestações seja evitada. A melhor imagem que poderíamos obter é que 29 repetirá 15, embora sob organizações distintas.

De qualquer modo, há razões para crer que o período de refluxo que se anuncia seja em tudo semelhante aquele que se viveu de 5 de junho de 2011 a 7 de setembro de 2012. Portanto, a agenda que proponho em Respostas voltará a ser de novo pertinente. Até lá, uma vanguarda que se preze deve ajudar a massa a derrubar o governo de Passos Coelho. Mas de forma a estabelecer os contactos para organizar os desempregados nesse período de refluxo. A palavra de ordem não será, por enquanto, “Desempregados não pagam dívidas”, mas todas aquelas que surgirem no calor da luta contra este governo. No entanto, panfletar nos centros de emprego e atribuir tarefas a desempregados nesta luta é uma prioridade!

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18 de Setembro de 2012 - Posted by | Ideologia, Portugal | , , , , , , ,

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