Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

As achas de Gomes Ferreira e a fogueira da crise

Como argumentei neste estudo, o governo de Passos Coelho foi fruto de uma disputa intra-elista. Esta opôs, de um lado, a banca e de outro os exportadores. Não obstante, ao contrário de José Sócrates que estava organicamente vinculado à banca, Passos Coelho estava apenas ideologicamente alinhado com os exportadores. Isso teve duas consequências. Primeiro, a “receita de bolo” ideológica é mais importante, para este governo,  que os interesses reais desta fração da classe dominante. Segundo, Passos Coelho ficou disponível para vincular-se à banca quando a realidade o obrigou.

Mas a mesma disputa (de nov/09 a fev/11) favoreceu outros como favoreceu Passos Coelho.  Comentadores como Medina Carreira, Paulo Morais e José Gomes Ferreira tornaram-se estrelas de televisão. Outros, já conhecidos – Marcelo Rebelo de Sousa e Miguel Sousa Tavares – ficaram marcados pelo mesmo discurso. Um discurso contra as relações entre o Estado, a banca e a construção civil, a favor da “iniciativa livre” dos exportadores. Trata-se, portanto, de uma periferia da elite portuguesa que, como Passos Coelho, alinhou-se ideologicamente com os exportadores. Mas, ao contrário do Primeiro-Ministro, eles não necessitaram – pela sua profissão – de render-se às evidências da força da banca. Assim, mantém na atualidade a disputa intra-elitista que surgiu em meados de 2009 e que parecia estar resolvida no final de 2011.

A recente tomada de posição de José Gomes Ferreira sobre a manifestação de 15 de setembro expõe os limites da sua posição. Contrastando com a atual divisão a elite que discorda acerca de quem (os trabalhadores ou o Estado?) deve arcar com os custos do crescimento económico necessário (desde março, o ponto nevrálgico da crise), o jornalista da SIC acredita que há espaço para reduzir as despesas do Estado com as Parcerias Publico-Privadas e outras rendas, libertando dinheiro para financiar o crescimento económico. É curioso que, ao mesmo tempo que declara ilegítima esta forma do Estado financiar os bancos, não diz uma palavra sobre o esforço financeiro que o Estado faz atualmente para recapitalizar os bancos. Ao contrário de Passos Coelho, José Gomes Ferreira não teve de resolver esta contradição na prática e pode exigir que se tire dinheiro aos bancos sem questionar que se deva repor por  outro lado. Isto é, José Gomes Ferreira não se confronta com a insolubilidade da disputa.

Assim, o ataque dos formadores de opinião (a periferia da elite) à banca calada e acantonada na proteção da troika, duplica a recente, mas anunciada, disputa entre os credores de Portugal e os seus empresários – que eu descrevi no meu texto anterior. São estas duas disputas que, como disse, arrasam com a “teoria das inviabilidades” com que Passos Coelho tem governado e criaram as condições para que tivéssemos visto e feito o 15 de setembro.

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19 de Setembro de 2012 - Posted by | Economia, Ideologia, Portugal | , , ,

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