Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Greve geral (comentários impróprios)

Ao ler, no Facebook, certos debates sobre uma possível greve geral, fico preocupado com a forma como pensam certos militantes de esquerda. Para uns, próximos do PCTP/MRPP, qualquer dia é bom para fazer uma greve. Não há evolução das condições subjetivas. Para outros, fieis à CGTP, somente quando a CGTP fala há condições subjetivas para fazer uma greve geral. Alguém se preocupa em analisar as condições subjetivas??

1. De facto, no passado dia 7 houve uma modificação qualitativa nas condições subjetivas. A classe dominante partiu-se: de um lado ficaram os credores do país (banca nacional e troika) e do outro os investidores nacionais. Agiotas versus exploradores! O motivo foi a apresentação, pelo governo, de um plano proposto pelos credores que os investidores não acreditam que vai funcionar. Consequentemente, a “teoria das inevitabilidades” com que o plano de austeridade é imposto foi para o espaço.

2. Tiro o chapéu ao Bloco de Esquerda que um mês antes do anuncio de Passos Coelho, convocou uma manifestação para a semana seguinte. Obviamente, o BE não podia prever o que aconteceu. Mas, atento ao que se passa na Grécia, sabia que os resultados da missão da troika para preparar o Orçamento de Estado seriam novas e polémicas medidas de austeridade. Mesmo assim, todos nos surpreendemos com a profundidade da divisão intra-elitista que daí surgiu. O BE adivinhou uma crise do governo; não imaginava, seguramente, é que fosse tão profunda.

3. A CE, em representação da banca franco-alemã, afirmou que não voltava com a palavra atrás. A manifestação de 15 de Setembro pregou um susto na elite. E o Presidente da República foi obrigado a re-unir a elite. Nestas condições, o governo é obrigado a procurar uma forma alternativa – e menos eficaz – de fazer o mesmo. E, por outro lado, o consenso imposto às elites traz de volta a “teoria das inevitabilidades” – ainda que o governo tenha saído bastaste desgastado disto. Acresce-se a isto que, pela sua própria natureza, as manifestações espontâneas tendem a perder folgo. Daí que a CGTP, que pode fazer uso do seu aparelho burocrático para levar as pessoas para as ruas, propôs-se, e bem, a dar-lhe continuidade.

4. Uma greve geral só tem sentido depois do dia 7 de setembro. Numa conjuntura de refluxo da luta, uma greve “geral” – pois as greves gerais tem sido, nos últimos anos greves dos trabalhadores do Estado – agrava a divisão dos trabalhadores entre funcionários de Estado (que fazem greve) e trabalhadores do setor privado (que olham para eles como para a folha do IRS). Na conjuntura de ascenso iniciada a 7 de setembro, os trabalhadores do setor privado irão, na melhor das hipóteses, para a greve atrás dos funcionários públicos. Ou, na pior das hipóteses em que os trabalhadores do sector privado não farão greve para manter o emprego, ele se sentirão representados na greve pelos funcionários públicos.

5. A CGTP optou por marcar uma manifestação para o próximo sábado, cuja preparação é rápida, adiando uma greve geral de preparação mais lenta. De qualquer modo, a conjuntura exige uma greve geral. Mas então não tem sentido anunciar essa greve senão no comício final da manifestação. Os manifestantes serão as testemunhas avalizadoras dessa convocatória.

6. A data da greve tem de assentar numa clara avaliação da previsível evolução das condições subjetivas. A direita desentendeu-se por causa das soluções para o Orçamento de Estado de 2013 (é bem mais profundo que a TSU). Recentemente, entendeu-se acerca da necessidade de encontrar uma solução. Mas, inevitavelmente, se desentenderá acerca de cada uma das soluções propostas. Já há sinais desse desentendimento (ver aqui também). Nesse sentido, a fratura da classe dominante tenderá a alargar-se até à aprovação do Orçamento de Estado para 2013 e a greve geral terá de coincidir, mais coisa menos coisa, com a entrada do Orçamento na Assembleia da República. Aproveitaremos então o efeito da rutura nas elites e agravaremos essa rutura. Até lá, greves preparatórias irão abrindo a pequena brecha que se pressente.

7. No melhor cenário, o governo cairá antes do final do ano. Certamente será substituído pelo PS de José Seguro. Isso não é uma derrota, mas uma vitória conjuntural. A burguesia queima cartuchos: queimou Sócrates, está a queimar Passos Coelho e queimará Seguro. Nesta correlação de forças, os trabalhadores jamais chegaram ao poder. A nossa tarefa é encurtar a vida útil dos cartuchos da burguesia, contribuindo assim para uma alteração da correlação de forças. Faz, portanto, todo o sentido uma aliança com as bases (“unidade por baixo”) do PS associado a um silencioso desdém pela ação da cúpula. Imediatamente, o afastamento de Seguro do programa da troika poderá ser e ser visto como uma tentativa de aproveitar-e eleitoralmente a conjuntura. Uma vez no governo, será o ponto fraco da sua política: as suas palavras serão usadas contra ele. José Seguro será um cartucho mais curto que Passos Coelho.

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28 de Setembro de 2012 - Posted by | Economia, Portugal | , , , ,

2 comentários

  1. jose nao sao os militantes de um partido contra outos,eu baseio-me no conhecimento do terreno que piso,a cgtp tem estado no auge das lutas,porque mais forte que uma greve geral muitas veezes sao as greves setoriais que minam o sistema capitalista nos seus alicerces,sabe eu nas emppresas a dar a cara nao é aos militantes do bloco quevejo disponiveis para delegados sindicais,porque ai é que elas doemporque é no local de trabalho que está o cerne da luta de classes e ai eu vejo militantes e simpatiaantes e sabemos a que partido de esquerda eles pertencem,nao foi o bloco que convocou a manif de 15 setembro pois muitos miltantes de esqueda nao bloco que faziam parte dos movimentos inorganicos tambem participaram nessa marcaçao que estava só para lisboa e foram pessoas como eu que nao sao do bloco que convocaram para outras regioes do pais em 6 dias

    Comentar por vitor mnteiro | 28 de Setembro de 2012

    • Não dou mais méritos ao BE que estes dois: 1) Ter começado a falar do dia 15 antes do dia 7. E, nestes caso, reconheço caso reafirmo que 70% foi sorte. Eles esperavam o anuncio de mais austeridade; duvido que esperassem tanta. 2) Ao anteciparem-se, escolheram o lema acertado. Se fosse o José Gomes Ferreira da SIC a escolher o lema teria sido “Contra a TSU, pela austeridade”. E se fosse a massa espontânea seria “Abaixo os políticos! Abaixo os partidos!”.

      Ao antecipar-se a toda a gente, o BE escolheu o lema e orientou a manifestação no sentido certo. Ao surpreender toda a gente, Passos Coelho engrossou o caudal do riacho que o BE tinha traçado.

      Comentar por Jose Ferreira | 28 de Setembro de 2012


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