Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

29s/CGTP: um novo patamar

Fiz ontem a crítica da manifestação da CGTP. O compasso de espera burocrático para marcar a greve geral parece-me desnecessário. E cada vez mais creio que esse compasso de espera de deveu a que a manifestação correu surpreendentemente bem. Fica a ideia que a CGTP não esperava ter ali condições para convocar a greve geral. Mas enganou-se, teve e perdeu a oportunidade. O que está em questão não é atrasar 3 ou 4 dias a convocação da greve geral. Mas a necessidade de acelerar a luta para que o objetivo de derrubar o governo aconteça antes da aprovação do Orçamento de Estado.

De qualquer modo, o importante desta manifestação era demonstrar a unidade da classe trabalhadora. Como venho afirmando, é com os trabalhadores do Estado (em especial, transportes públicos, professores e trabalhadores da administração local) que os sindicatos realmente contam. E os trabalhadores do setor privado olham para aqueles como olham para a declaração de IRS. Por outro lado, parecia não haver alternativa à austeridade. O  consenso entre as elites permitiu a Passos Coelho governar baseando-se ideologicamente numa teoria das inevitabilidades. Ao estender os cortes aos trabalhadores do setor privado e, sobretudo, ao arrasar com o cimento ideológico da sua política (i. é, com a unidade da elite), Passos Coelho uniu numa ó massa todas as classes trabalhadoras na manifestação de 15 de setembro. Duas semanas depois era necessário dar provas que as classes trabalhadoras seguiam unidas.

Havia dois elementos contra o sucesso da manifestação da CGTP. As elites já tinham recuado e, aparentemente, se re-unido. E existe um discurso contra os políticos “em geral” que reforça aquela oposição entre trabalhadores do público e trabalhadores do privado. (Há seguramente uma sobreposição parcial entre estas três oposições: emprego público vs privado; sindicalizado vs não sindicalizado; luta contra o capital vs luta contra os políticos, sendo que entre os políticos se encontram os dirigentes sindicais). A massa desconfia, portanto, da burocracia. Mas este obstáculo teria de ser superado. Os protestos espontâneos são inevitavelmente esporádicos. A continuidade da luta exige o trabalho da organização burocrática. Enfim, o que se jogava ante-ontem eram saber se os protesto iam continuar com apenas os de sempre (ligados à CGTP, ao PCP e ao BE) ou se, pelo contrário, o movimento amplo iniciado no passado dia 15 continuaria com a única direção possível: a CGTP. O 29 de setembro foi tão amplo (em termos de representatividade das duas frações da classe trabalhadora) quanto o 15 de setembro. Apenas, obviamente, a liderança da CGTP implicou numa representatividade assimétrica.

Os dois desejos de Arménio Carlos se cumpriram: o Terreiro do Paço ficou cheio como um ovo; e a manifestação ultrapassou a CGTP que a organizou. As televisões ajudaram. A RTP, talvez ameaçada pela privatização fez belíssimas reportagens. A TVI ofereceu uma entrevista bem particular (não obstante de tentar manipular, no final da reportagem, o grau de participação – sim, o Terreiro do Paço está meio cheio, mas o palco ainda está vazio o que indica que as pessoas ainda agora começam a chegar). E a cobertura singular da SIC rebateu a manobra da TVI. Além do mais, ao dar mais voz e vez à gente nova, sem partido e às vezes contra os partidos, as televisões – por tudo o que se disse atrás – reforçaram o sucesso da manifestação da CGTP (ainda que possam tê-lo feito com a má intenção, atribuída por Correia da Fonseca, de “calar” as palavras de ordem da CGTP).

Noto, não obstante, que esta unidade da classe trabalhadora é absolutamente conjuntural. É fruto – assim como a cobertura jornalística – da luta aberta e aos olhos de todos entre as elites. Luta à qual António Borges e António Saraiva deram continuidade nesse mesmo dia 19 de setembro. Essa unidade será quebrada seja pelo desgaste dos trabalhadores em luta (que a união da elite, ainda que só na aparência, pode reforçar… com o regresso da “teoria das inevitabilidades”), seja por um processo eleitoral que se siga à queda do governo. A CGTP – e, igualmente, o PCP, o BE e outras organizações de esquerda – pode optar por conservar esta unidade, agindo cautelosamente, e condenar-se ao cansaço. Ou intensificar a luta, tentar derrubar o governo, mesmo sabendo que perderá de imediato as massas. Uma opção tática que depende de uma estratégia… (Ao colocar a sua estratégia num corte nacionalista, e não de classe, a CGTP não pode responder claramente a esta pergunta. Acerca disto ver o meu ponto um do texto anterior).

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1 de Outubro de 2012 - Posted by | Partidos, Portugal | , , ,

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