Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Rumo à greve geral

No artigo anterior coloquei as questões estratégicas pelas quais os partidos de esquerda se deveriam pautar. Agora quero abordar a questão tática do momento. Vivemos um momento especial! No passado 7 de setembro, a elite portuguesa dividiu-se e fez de Passos Coelho e da sua proposta de aumento da TSU um espantalho que, conjunturalmente, apagou a divisão interna da classe trabalhadora. De imediato, a população saiu à rua exigindo a demissão do governo. Necessariamente, a elite recuou e as condições subjetivas da luta entraram em refluxo desde então. Essa unidade conjuntural ameaça desfazer-se.

A primeira prova a essa unidade foi dada a 29 de setembro. A manifestação da CGTP foi um sucesso. A próxima prova apenas será dada a 14 de novembro, para quando foi convocada a greve geral. Mas, dada a  distância entre as duas, ao invés de servir para travar o refluxo da luta, a greve geral pode ser mesmo prejudicada por esse refluxo. À medida que os trabalhadores do setor privado se forem desligando dos trabalhadores do Estado, a greve geral passa a ser uma greve apenas destes últimos. Nessa caso sairemos derrotados!

Note-se que este é um momento muito particular. Existe a possibilidade de fazer o governo cair. O povo, nas ruas, colocou esse ponto na agenda política a 15 de setembro. E, se esse objetivo for cumprido, governo terá caído – e José Seguro terá sido eleito – no bojo de uma manifestação anti-troika. Consequentemente, o novo governo será estrangulado entre a necessidade de cumprir o memorando e o significado da sua eleição. José Seguro estará condenado a optar entre rasgar o memorando ou destruir o partido (“PASOKização”). Escolhendo a segunda opção, José Seguro destruirá também o principal sistema de dominação ideológico-institucional da burguesia: a alternância entre o PS e o PSD no governo.

De todos os modos, não se vaga a cadeira do poder sem  a participação do pretendente ao trono. Nesse sentido, a chave está nas mãos do PS que faz tudo para fechar a porta à possível queda do governo. Não obstante, a chave não está completamente nas suas mãos. A elite não deseja uma crise política; mas existem atritos internos entre duas frações. Uma é representada pelo governo. A outra transparece nas palavras de António Saraiva e nos atos (e até na falta deles) de Cavaco e Silva. A negociação do Orçamento de Estado é um momento em que estes conflitos se exacerbam e, sendo pouco provável, não está fora de questão a possibilidade de uma crise política. Essa crise política poderá empurrar o país para eleições, a despeito da vontade e das manobras da direção do PS.

O outro lado da potencial crise política está nas mãos da esquerda. As ações de luta nas ruas poderão forçar o desentendimento das elites e obrigar as eleições. Mas para isso, há que resolver dois problemas.

1. Entre 29 de setembro e 14 de novembro vai demasiado tempo. Portanto, há que transformar a manifestação convocada para o dia 15 de outubro numa grande manifestação que ultrapasse os pequenos grupos que a convocaram.

2. Em segundo lugar, a tendência à divisão interna da classe trabalhadora tem de ser mitigada.  (Devo confessar que confio bastante na capacidade da CGTP e dos seus sindicatos em arrastar para a greve os trabalhadores em cada setor e em cada empresa. Não vejo, no entanto, um trabalho transectorial que permita atenuar os efeitos negativos das divisões internas da classe trabalhadora). Nesta questão, os sindicatos dos transportes têm um papel fundamental.

Se, por um lado, eles são o setor mais beligerante e, por isso mesmo, potencialmente mais capaz de arrastar os outros atrás de si; por outro lado, eles são olhados como se olha para a declaração de IRS pelos trabalhadores do setor privado. Consequentemente, a sua capacidade de luta afasta os outros trabalhadores em vez de servir de exemplo. O governo sabe bem disto e tem mentido para tirar partido desta situação. Além disso, a greve dos transportes “obriga” os usuários dos transportes a fazer também “greve”. Posto isto, a indiferença em relação à greve dos transportes é impossível: ou se repudia (o mais comum) ou se aprova.

Assim, a tarefa mais importante na greve geral será os sindicatos do transportes explicarem aos usuários dos transportes porque fazem greve; recordar-lhes que são todos trabalhadores; e apelar a que façam greve também. Até porque a principal despesa da CP não é com salários de pessoal, mas com juros da dívida devido a negociatas que José Sócrates se meteu com a banca.

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9 de Outubro de 2012 - Posted by | Ideologia, Portugal | , , ,

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