Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Žižek: o impensado e o impensável

Slavoj Žižek é um pensador curioso. Instigante o populista. Nada define tão bem a sua forma de fazer política como o affaire que teve com a Lady Gaga. Atrai a esquerda do mesmo modo que afasta… com um palavrão oportuno numa igreja. Porque ele acerta e falha, deste modo, no mesmo ato?

Para responder temos de entender o conceito de ideologia que Žižek emprega: o foracluído lacaniano ou a oculsão semiótica, para falar em termos técnicos. O que é isto? Imaginemos uma mulher rural da Gâmbia, com pouco contacto com o pensamento feminista. Como poderá ela não aceitar ser uma das quatro esposas do mesmo homem se, em todas as famílias, é assim? Na mesma linha pensa Alain Badou que não para de repetir que a principal prisão ideológica do mundo moderno é a democracia. Sabemos que a democracia, em si, – e até pela separação entre legislativo (que entretém o povo) e executivo (que toma decisões de facto) – desapropria os cidadãos do exercício efetivo da cidadania. Não obstante, defendêmo-la com unhas e dentes declarando-a “o pior sistema excluindo todos os outros”. Somos assim tão incapazes de inventar sistemas políticos superiores à democracia?

Estamos longe do conceito de ideologia de Marx. Neste, ideologia está ligado à diferença entre o indivíduo e a sociedade. A sociedade inventou Deus; mas como Deus não foi inventado por nenhum indivíduo em particular, os indivíduos particulares vêem-se uma criação de Deus. De modo semelhante, o carpiteiro produz segundo as necessidades do “mercado”. Mas o mercado é a sociedade. E, por isso, aquilo que é está dado, de forma inalterável, para o carpinteiro é, de facto, criado por ele mas apenas em conjunto com outro (milhões) como ele. Se quisermos voltar ao exemplo do funcionamento da democracia, a única forma de derrotar um mau governo é votar no outro partido que tem chances de ganhar. Isto por muito que ambos partidos se pareçam. Este indivíduo sabe que é culpado da sua falta de alternativas; mas sabe igualmente que pouco pode fazer para que algo mude.

Por isto mesmo é que Slavoj Žižek é um provocador. Ele quer levar-nos a pensar fora do quadrado. Mas, por isso mesmo, ele é igualmente insuficiente. Pensar diferente não implica fazer diferente. No plano individual, mostra Marx, estamos limitados às opções inscritas no sistema. Só colectivamente podemos mudar essa lista de opções. Enfim, para Žižek, a solução dos velhos problemas demanda novas ideias; para Marx o velhos problemas exigem novas organizações. Assim o desabafo de Marx contra Lassale aplica-se também a Žižek: “Um passo do movimento real vale mais que uma dúzia de programas”… neste caso, uma dúzia de boas ideias!

Anúncios

21 de Outubro de 2012 - Posted by | Ideologia | , , ,

2 comentários

  1. Esta não entendi. Ou antes, a maioria não entenderá.. Mas parece-me que boas ideias ou o programa (ou os ?) tb são necessários.

    Comentar por kantoximpi | 21 de Outubro de 2012

  2. Gosto muito de ouvir e ler o Zizek, embora não pretenda perceber tudo que diz.

    Comentar por José Marques | 3 de Novembro de 2012


Sorry, the comment form is closed at this time.

%d bloggers like this: