Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

O miserável PS

Venho defendendo que sem o PS não se deita o governo de Passos Coelho abaixo. Não se vaga a cadeira do trono sem que o pretendente mostre nela interesse. Não obstante, tampouco se derruba este governo com este PS. Por outro lado, também acredito que a queda do governo agora meteria o Partido Socialista numa camisa de onze varas. Eleito agora, José Seguro seria o representante de um momento que foi aberto por um “Que se lixe a troika!”. O líder do PS, uma vez no governo, teria de optar entre abandonar o memorando ou abandonar os seus eleitores. Sendo inevitável a segunda opção, Seguro arriscava-se a destruir e PS e, com ele, o sistema de alternância no poder com que a elite entretém a povão.

Por esta razão interessava à esquerda a sério que o governo caísse. Obviamente, o principal interessado em não deixar cair o governo é o PS. Por isso buscaram formas de levar o PS ao governo sem passar por eleições: seja por iniciativa presidencial, como propôs Soares; seja por iniciativa do próprio Passos Coelho, como propôs Jardim Gonçalves; ou mesmo com a criação de uma estrutura de coordenação informal (fora do governo) com PS, PSD e CDS, como propôs Sampaio. Não obstante, no momento em que este governo esteve há beira do precipício, Seguro afirmou que só iria para o governo com eleições. No momento em que Passos deu um passo atrás (com o recuo da TSU), e que o PS se viu na situação que apontei no primeiro parágrafo, Seguro foi obrigado a defender o governo. Primeiro recusando eleições antecipadas, depois pondo-se a jeito das críticas da esquerda (de modo a que elas não se dirigissem a Passos Coelho), e finalmente postergando a queda de Passos para depois das eleições autárquicas. E o João Proença, com os seus avanços e recuos em torno das greves gerais, fez até a proeza de arrancar elogios ao lambe-botas do Camilo Lourenço.

Isto tudo me levou a defender que a esquerda devia ignorar o PS, e criticar o PSD. Isto não implicava, de modo nenhum, passar uma borracha sobre a responsabilidade dos socialistas na crise – erro no qual escorregaram o BE e o Congresso das Alternativas (ver aqui também). Ignorar a sua existência seria o suficiente. Bloquistas e comunistas deviam empenhar-se em oferecer um presente envenenado ao PS: um governo antes do Natal.

Mas hoje tudo muda. Depois da dupla machadada que Passos deu no governo, somente Seguro segura o PSD no governo. Primeiro, se Passos Coelho afirma que é necessário refundar o memorando de entendimento com a troika, então ninguém hoje em Portugal acredita que o memorando atual funciona. Consequentemente, a proposta de Orçamento de Estado que dele deriva tampouco vai funcionar. Passos Coelho dá assim argumentos à oposição para rejeitar o OE. Segundo, depois de Paulo Portas ter preterido o partido em função do governo, o PSD pretere um governo em função do partido. Antevê-se abalos na coligação já nos próximos dias. Obviamente, o bombeiro Seguro tinha de vir em socorro do governo. Em vez que exigir de Passos consequências políticas, exigiu explicações semânticas. Em vez de obrigar o Primeiro-Ministro a explicar se pretende igualmente refundar o Orçamento de Estado – o qual o PS já afirmou estar contra – , veio perguntar o que ele entende por refundação.

Neste momento é urgente dizer: Passos fez tudo para o governo cair; só José Seguro é que não deixou.

Anúncios

28 de Outubro de 2012 - Posted by | Economia, Partidos, Portugal | , , , , ,

4 comentários

  1. De acordo com o essencial, mas em desacordo com uma parte do raciocínio.

    Porquê cessar o ataque ao PS? O ataque concomitante ao PS não retira força ao ataque ao PSD.
    Por outro lado, partindo do princípio que deixar de desmascarar o PS tem efeitos, então também terá efeitos eleitorais benéficos para o PS, dificultado o avanço da esquerda. Cairíamos no mero tacticismo eleitoral para queimar o PS, levando-o a um governo onde iria prosseguir a mesma política de destruição. Por isso considero que desejar um governo envenenado ao PS, mesmo que seja para abrir os olhos ao pessoal, é uma política de terra queimada que o PCP sempre rejeitou porque não beneficia a luta.

    E porque é que a luta ao PS não pode ter tréguas? Porque a capacidade dos partidos do sistema para se refundarem e se reapresentarem aos eleitores com imagem renovada, não pode ser subestimada. Por outras palavras, depois de um governo PS, já o PSD tem a cara lavada, depois de um governo PSD já o PS tem a cara lavada e esse trabalhinho a comunicação social fá-lo muito bem, mesmo quando parece impossível. A única coisa que vai travando isto é que o trabalho de consciencialização, de denúncia a todos os partidos da troika, seja sempre persistente. Desta forma a esquerda vai crescendo. Já abdicar de criticar o PS esperando que este se desmascare no governo é abdicar do nosso próprio crescimento e contribuir para a alternância.

    Isto tudo sem ingenuidades, admitindo que o PS ganhará, provavelmente, as próximas eleições…

    Comentar por Miguel | 28 de Outubro de 2012

    • Miguel

      Obrigado por me leres!Perdoa se a seguir vou ser duro contigo. Foi a JCP que me ensinou a ser assim: ser duro nos argumentos e estar disposto a ouvir a mesma dureza. A convicção é preferível à cobardia dos preâmbulos (como este que acabo de esboçar).

      Estava-me a referir a um contexto: de 15 de setembro a hoje. As minhas posições são móveis. Se a realidade muda, eu mudo com ela. A partir de hoje eu acho que é mais importante atacar o PS que o PSD: Seguro é o arame que segura ao governo. Mas não se pode atacar este arame, hoje, de qualquer forma.

      Mas bom! Discordo de ti fundamentalmente por dois supostos. O primeiro é que a esquerda possa chegar ao poder tirando votos ao PS e ao PSD. Não! A esquerda só poderá chegar ao poder quebrando o principal mecanismo de dominação institucional da burguesia: a alternância entre o PS e o PSD. Nesse sentido, não há aqui nenhuma política de terra queimada; apenas a simples constatação (que tu também fazes) de que o PS formará o próximo governo.

      O segundo não é bem um suposto. É, melhor dito, um ponto da conjuntura que tu não tens em conta. Haviam manobras claras do PS para atrair as críticas do BE e do PCP. Faziam isso para que, ocupando-nos a criticar essas manobras, nós deixássemos de criticar o governo. O melhor exemplo dessas manobras: a proposta de redução do número de deputados!!! Para que foi isso senão para obrigar o PCP e o BE a tomarem posição contra o PS e a deixarem folgar as costas do PSD?? A minha posição na altura foi… deixem-nos ir. Ignoremo-los!!. Eles querem-nos levar para longe dos problemas centrais para proteger o governo.

      Hoje tudo mudou. É preciso criticar o PS de novo. Mas, repito, não de qualquer forma. É preciso ter em atenção que certas críticas sejam evitadas: todas aquelas que não englobem o governo. Por isso, a primeira crítica a fazer a Seguro é: porque não exige a demissão do governo? E, imediatamente, porque se esqueceu de perguntar a Passos se pretende refundar a proposta de Orçamento de Estado?

      Abraço

      Comentar por Jose Ferreira | 28 de Outubro de 2012

      • Olá

        Primeiro deixa-me situar a discussão: no meu comentário apenas me quis referir ao período 15/set-hoje e é apenas a esse período que me refiro. Quanto ao período em que entramos penso que não há grandes dúvidas – concordo contigo.

        No 1º suposto, mesmo estando de acordo quanto à necessidade de romper com a alternância, queria realçar que uma coisa é uma constatação (o que eu fiz) e outra propor uma actuação com determinado fim (actuar de forma a dar um presente envenenado ao PS)..

        Quanto ao 2º suposto: Li com atenção o texto inicial e nunca discordei da análise que fazes das hábeis manobras do PS. Agora: ignorar (relativamente, porque há sempre uma resposta mínima) manobras de distracção do PS, sim. Dar tréguas/ignorar a conivência/apoio do PS a esta política, não. Admito que possa ter visto uma trégua onde ela não foi referida, mas foi a referência ao “presente envenenado” da esquerda ajudou.

        De resto, é derrubar o mais rapidamente o governo e reforçar a esquerda nas ruas e nas instituições. Dar luta ao PS, PSD e CDS. Juntá-los o mais possível para que cada vez mais percebam que os três são um. E impedir uma maioria absoluta do PS, que seria trágica. É por isso que devemos lutar. Se depois o PS tem de gramar com um governo envenenado é com ele, só é envenenado para quem insiste no rumo de desastre traçado pela troika, mas acima de tudo o envenenado é o povo português.

        Não foste duro…
        Abraço

        Comentar por Miguel | 28 de Outubro de 2012

  2. zé nao concordo nunca com a tese de ignorem-nos,o pcp é suficientemente inteligente para tancando o ps nao esquecer o resto,há quem viva com ilusoes sobr o ps,a grande questao é caindo o govrno que soluçoes,ir a eleçoes e ter mais do mesmo?porque nòs sabemos que se ganhar o ps nada muda,o que tem que ser feito é tal como como o fizeram na grecia os comunistas dizerem que eleiços nao iam resolver nada e que só a derrocada do sistema e do capitalismo reslveria o problema ou seja só a revvoluçao

    Comentar por vitor mnteiro | 28 de Outubro de 2012


Sorry, the comment form is closed at this time.

%d bloggers like this: