Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

O rigor teórico

Para que serve a teoria marxista? Ela tem um função na política semelhante à balança numa feira. Se o vendedor diz que a batata está a 70 cêntimos o quilo, nos exigimos que ele pese as batatas antes de nos cobrar o preço. Assim como o vendedor não pode dar o preço sem pesar as batatas, o marxista não toma uma posição sobre um facto político sem o analisar cientificamente. Afinal, o socialismo científico é isso. Assim como nas balanças antigas, o peso das batatas é comparado com o peso de malhas de ferro onde está escrito 1 kg, 200g e 50g. A teoria é tanto as malhas de ferro quanto a balança; isto é, é tanto uma “teoria” da composição do país em classes e frações de classe quanto a “teoria” de como essas classes e frações de classe produzem factos políticos.

Talvez por isso (e porque sou um teórico irremediável) quando leio no facebook

“Os jornais são aparelhos ideológicos cuja função é transformar uma verdade de classe num senso comum, assimilado pelas demais classes como verdade coletiva – isto é, exerce o papel cultural de propagador de ideologia. Ela embute um ética, mas também a ética não é inocente: ela é uma ética de classe” (António Gramsci).

… fico furioso. Primeiro, é uma ideia demasiado simples para ser de Gramsci. Depois Gramsci não conheceu os jornais com o poder que adquiriram no final do séc. XX. E, finalmente, fala em “aparelhos ideológicos” – uma confusão com o termo althusseriano (Aparelhos Ideológicos de Estado), comum entre aqueles que ouviram falar mas nunca leram, nem um nem outro. Gramsci fala de Aparelhos Privados de Hegemonia. É certo que Althusser leu Gramsci; no entanto, o conceito de um é bem diferente do de outro. (Curiosamente, Gramsci dá mais importância à literatura que ao jornalismo. Althusser à escola! Só, mais tarde, Ignacio Ramonet vai falar dos jornais e televisões como um quarto poder. Nota-se, por aqui, que a importância relativa dos diferentes Aparelhos privados de hegemonia mudou da década de 1930 para a de 1960 e, depois, para a década de 1990). A prova final é encontrar o texto num artigo de opinião que não é de Gramsci – e, ao lê-lo, fica a dúvida se quem o escreveu tenha lido, de facto, Gramsci.

Mas o problema não é o rigor formal. É usar a teoria de modo a servir apenas de fonte de legitimidade. É como se o vendedor de batatas levasse apenas malhas de ferro de 2 e 5kg para obrigar o comprador a comprar mais ou a perder dinheiro. Quem queria meio ou um quilo de batatas, terá de pagar por dois!!!

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4 de Novembro de 2012 - Posted by | Ideologia, Metodologia | , , , ,

2 comentários

  1. Muito bem escrito.
    Com relação a ideologia x ética, discordo do escrito, se é que pertence ao Gramsci (o que duvido). O alegado autor tem capacidade intelectual e preparo político e filosófico para ir muito além disso. Não cabe à Ética ser inocente ou vilã e muito menos comprometida com essa ou aquela classe. Cabe à ética, criticamente, propor alternativas de conduta. Ética é tão apenas ética (em suas diferentes acepções, escolas ou correntes). Podemos, sim, ter uma “moral” de classe, pois que a moral está ligada aos costumes (cultura). Esta, por sua vez, não pertence aos ordenamentos oficializados, compreendidos pela “lex”. Disso se encarrega o Estado. Outra questão a qual me oponho: o status hodierno do “Reducionismo”. Assim vou optar pela “complexidade”: “Os jornais são, TAMBÉM, aparelhos ideológicos”. Não somente reduzindo-se a isso e, óbviamente, não somente eles os jornais, como também as escolas, igrejas, música, artes em geral, moda, etc.

    Comentar por Helman Telles | 13 de Novembro de 2012

    • Meu caro!

      Ao longo de texto explico que ele não é de Gramsci. Descobri, depois, na net que é da petista Maria Inês Nassif, publicado no Valor. De resto, entendo pouco de ética. Sei, de uma conversa casual com uma amiga que tira mestrado na UFRJ, que a ética, hoje, se prende com problemas ontologicos, em especial, a noção de indivíduo. E a ontologia (área onde, pese a não ser filósofo, me sinto mais à vontade) é política. Se a ética se alicerça nela – como entendi da conversa e como acredito – então a ética é igualmente política. Ou, como dizia Leonardo Boff, “um ponto de vista é a vista desde um ponto”.

      Abraço

      Comentar por Jose Ferreira | 27 de Novembro de 2012


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