Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

A banca é sempre o primeiro interesse da fila

Quando li as notícias acerca da sexta revisão da troika, até pensei que Victor Gaspar tinha ressuscitado o programa eleitoral de Passos Coelho: cortar o Estado social para reduzir a carga de impostos. É certo que os impostos estão a asfixiar a economia portuguesa – como os números do desemprego provam. Mas não é disso que se trata. Pois apenas 15% dos nossos impostos irão, em 2013, para o Estado Social. A grande fatia do bolo vai para a gestão da dívida pública, isto é, para os bancos. E nem vale a pena pensar em resultados a médio prazo enquanto o crescimento económico (-3% em 2012) não superar a taxa de juro da dívida pública (5% em média para o mesmo ano). Vê-se por aqui que a estratégia de Passos Coelho não é lógica, mas ideológica.

Se algum benefício pode encontrar-se na redução do Estado social (um benefício quase 7 vezes maior se encontra na renegociação da dívida pública), está em estimular o crescimento económico. Não obstante, o Estado português continua a dar aos mesmos. Depois de semanas a falar na redução da despesa do Estado, Passos Coelho vai a Bruxelas propor um corte nos juros dos empréstimos que o Estado cedeu à banca. Com a justificação de que é preciso ceder crédito às PME’s (então para que serve o suposto banco de fomento a ser criado?), o governo prepara-se para perdoar 380 milhões de euros à banca em 2013. Eis o destino do dinheiro a ser poupado pelos cortes em saúde, educação e pensões de reforma.

De qualquer modo, aqueles que esperavam ver os impostos sobre a classe média baixar o próximo ano… desenganem-se. Há outros interesses na fila.

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20 de Novembro de 2012 - Posted by | Economia, Portugal | , , , ,

3 comentários

  1. Enquanto a preocupação da UE for a salvação dos bancos, não vamos a lado nenhum, em primeiro ligar porque cada vez que há uma injecção de capital nos bancos, há um accionista que lucra, em segundo lugar com a liquidez recuperada os bancos o que fazem é comprar mais dívida pública e beneficiar de juros, diria, agiotas. O seja: resgate dos bancos = enriquecimento dos bancos, com perdas para a economia, que se arruína com juros.

    Tenho para mim, que a crise europeia só se resolve a partir do momento que o BCE encontrar outro canal para canalizar o financiamento das economias da zona euro, que não os bancos. financiar governos também não me parece que traga benefícios para as populações em geral, beneficiariam algumas pessoas mais que os accionistas da banca, mas poucas mais.

    Da reflexão que faço sobre este tema, inclino-me para a possibilidade de a UE/BCE financiar directamente os sistemas de pensões dos países da UE em dificuldades, com as seguintes vantagens, entre outras:

    a) a renda/despesa não perdura no tempo, pois as pessoas acabam por morrer;
    b) financiava directamente o cidadão que consome localmente;
    c) permitiria o rejuvenescimento mais cedo da força de trabalho;
    d) o risco de corrupção era mínimo.

    Os recursos eram exactamente os mesmos (papel moeda do BCE) os efeitos seriam muito mais abrangentes que a meia dúzia de accionistas da banca que anda a ganhar muito dinheiro com a crise.

    Parece-te demasiado ousado?

    Comentar por Rui Gonçalves | 26 de Novembro de 2012

    • Olá Rui

      Não sei se era necessário o BCE emprestar diretamente às pessoas (embora deve-se emprestar diretamente aos Estados). Mas tenho a certeza que não era necessário ter como intermediário uma banca privada falida, pois implica, necessariamente, tirá-la da falência. Os 12 mil milhões que vieram para distribuir pela banca, mais as negociatas em torno da dívida pública e das PPPs, representam muito dinheiro que, transferido apenas para a CGD, tinha muito melhor uso. Sendo a CGD um banco do Estado, o governo tinha todas as condições para fazer chegar o dinheiro aí colocado à economia real.

      É claro que isto tinha custos. Exige-se a renegociação da dívida e o fim da ajuda à recapitalização da banca. Obviamente, o BCP e o BPI entrariam imediatamente em apuros. Ou iriam à falência ou eram nacionalizados como o BPN. Aliás, arrisco-me a dizer que apenas o BES se safava. E a CGD ficaria um grande banco migrando para lá todas as contas dos bancos falidos.

      Obviamente o governo não quer isto. Mas propõe-nos algo especialmente ridículo. Depois de nos ter convencido que é necessário apoiar a banca – para que haja crédito para as empresas – , veio dizer que é necessário criar um banco de fomento. Ou seja, dá-se dinheiro à banca para financiar a economia e como ela continua sem fazer isso… cria-se um novo banco estatal para financiar a economia. Não era muito mais simples fazer apena a segunda parte?

      Comentar por Jose Ferreira | 26 de Novembro de 2012

  2. Concordo em absoluto com a tua reflexão. Tudo isto é desmasiado ridículo, noemeadamente escolher como intermediário a banca falida.
    Apenas uma nota, eu não sugeri sequer emprestar directamente às pessoas, mas tão somente financiar os fundos de pensões (nem sequer os estados), que pode ser de diversas formas, e utilizar este meio como plataforma redistributiva de papel moeda.

    Comentar por Rui Gonçalves | 27 de Novembro de 2012


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