Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

A briga da troika

Na véspera da greve geral, a troika reuniu com a banca. À saída da reunião, Ricardo Salgado lamentou a notável descoordenação da troika. A crise interna da troika não se limita a Portugal; ela está igualmente dividida acerca do que fazer com a Grécia. Costuma-se associar o FMI aos interesses da Goldman Sachs, um banco de investimento que tem tudo a ganhar com as privatizações das empresas públicas. Sendo verdade não é suficiente. Os interesses da Goldman Sachs estão mais do que satisfeitos, tendo a Comissão Europeia (leia-se banca franco-alemã) mais do que espaço para impor os seus.

Uma outra leitura é que o FMI representa o ponto de vista norte-americano e a troika faz eco do debate entre CE e EUA no G20. Enquanto que a Europa centra a resolução da crise na redução do défice público; os EUA e agora o G20 e o FMI colocam o tónica no crescimento económico. A recente discussão acerca dos “multiplicadores” é apenas o atual ponto quente deste debate (ver aqui as posições do FMI e da CE). Outro ponto é relativo ao perdão da dívida pública grega. O Presidente do Bundesbank afirmou que a recomendação feita, nesse sentido, pela troika é de objetividade duvidosa. As opções são mutuamente exclusivas, pois, as políticas que visam a redução do défice geram decrescimento e, por outro lado, não há melhor forma de promover o crescimento que aumentar o défice público. Com uma boa gestão de moeda, a dívida interna não é um problema (até porque se faz dinheiro a partir do nada, nos bancos com a alavancagem financeira). A dívida externa, pelo contrário, é difícil de gerir. E, ao mesmo tempo, indica que o país importa boa parte do que consome. Portanto, é bem provável que o défice público esteja a gerar crescimento… em outro país.

Assim sendo, só quem tem défices externos sigificativos tem interesse em dar mais atenção às contas públicas que ao crescimento. Não obstante, estamos na situação inversa. Não havendo défice externo no conjunto da Zona Euro, o BCE e a CE tornaram-se os falcões da austeridade. De modo inverso, os EUA investem tudo o que podem no crescimento pese o seu défice externo. O que explica isto? Em parte, a ideologia (no sentido estrito e técnico do termo); em parte o papel do dólar no mundo. Nos desequilíbrios externos dos EUA são geridos pela política monetária; os internos pela política fiscal (por exemplo, Estados ricos como o Texas financiam estados pobres como Nevada). Mas, na Zona Euro, o desequilíbrios internos aparecem como externos e se, por um lado, é inviável usar a política monetária para geri-los, por outro, parece impensável usar a política fiscal (por exemplo, os impostos da Alemanha para financiar o sul da Europa). Em outras palavras, impedidos de usar quer a política monetária, quer a política fiscal para resolver o seu défice comercial, os países do sul da Europa são obrigados a recorrer a uma dura austeridade pouco ou nada eficaz. Por seu turno, a existência de um défice comercial nos EUA não é problema. O resto dos países do mundo financiam, querendo ou não querendo, esse défice porque precisam de ter dólares na mão para comprar petróleo. E a melhor forma de “ter dólares” é comprar títulos de dívida pública norte-americana.

Ou seja, a realidade concreta inverte o que era teoricamente esperado. De qualquer modo, isto não explica a posição do FMI. Podemos resumi-la na seguinte fórmula: do ponto de vista do “mundo” não há défice da balança comercial (pelo menos teoricamente). Portanto, todo o problema é o crescimento económico. E, neste momento, a Zona Euro em nada está a contribuir para o esforço de retoma iniciado pelos EUA (a quem devemos boa parte do ténue crescimento dos últimos anos). E, obviamente, o lobby norte-americano, desejoso de dividir o fardo do crescimento económico, reforça as convicções do FMI.

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26 de Novembro de 2012 - Posted by | Economia, Mundo | , , , ,

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