Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Neoliberalismo, Polany e Gray

Por meio do Ladrões de Bicicletas, conheci um texto de John Gray bastante interessante. (Ainda que seja um comentário a um livro de Raymond Plant, é um comentário carregado de elogios). Tendo sido, aos trinta anos, um dos precursores da ideologia neoliberal; hoje, Gray, faz-lhe uma das criticas mais sagazes. Lê-se no texto:

A lógica inerente do neoliberalismo foi sempre a expansão do poder do Estado, pois para introduzir o mercado em cada canto da vida social, o governo necessita de ser fortemente invasivo.

Polany já tinha asseverado que o mercado só pode funcionar quando o Estado prepara a sociedade para isso. As pessoas, a natureza e o dinheiro não são produzidos, como os sapatos, para serem vendidos. É necessário que o Estado atue para transformá-los, respetivamente, em trabalho, terra e moeda e pô-los a funcionar pela lógica do mercado. Ao ler o texto de Gray sobre o livro de Plant parece-me necessário ir além desta tese. Sobre dois aspetos. Há mais “mercadorias fictícias” (o termo é de Polany) que aquelas três. E, em segundo lugar, não basta defini-las por lei, como mercadorias, uma vez para sempre. É preciso fazê-lo continuamente, assumindo o Estado ora o papel de tutor ora de polícia – como provam, de um lado, as conflituosas e continuas mudanças da legislação laboral e ambiental e, por outro, a imensa criatividade com que se fazem surgir novos produtos bolsistas.

É a partir desta reflexão que podemos melhor perceber a tese do texto. Com a crise de 1973, os empresários voltaram-se sobretudo para três conjuntos de sectores. 1) A expeculação bolsista, em particular sobre o câmbio de moeda de países com dificuldades financeiras. 2) Para a construção civil, onde a maior parte do valor era formado pela expeculação sobre o solo. E 3) pela substituição do Estado em serviços como infra-estruturas, transportes públicos, saúde e educação. Em suma, três áreas de mercadorias fictícias. Ao mesmo tempo, o sector industrial foi em busca de mão-de-obra barata – na Ásia – e perdeu importância na formação do PIB (“riqueza”) mundial.

O neoliberalismo, é necessário acrescentar, foi igualmente uma recuperação da lógica económica da segunda metade do séc. XIX: a coordenação económica foi entregue, não a identidade abstrata do “mercado”, mas à banca. Consequentemente, o cerne da ideologia neoliberal é a ideia de Estado mínimo – apenas desta maneira a banca pode expandir os seus negócios para áreas que, nas décadas anteriores, foram erguidas contra o mercado (saúde, educação, preservação ambiental [créditos de carbono], etc.). Mas dado que a ideologia neoliberal é concomitante com a expansão da lógica do mercado sobre “mercadorias fictícias” (quanto mais não seja porque a industria tornou-se insuficiente para realizar a reprodução do capital), ela teve o efeito inverso. A expansão da lógica do mercado implicou, como refere o artigo, a expansão igual do Estado.

Percebe-se então que a atual crise, resultado do esgotamento do capitalismo neoliberal, não apareça como tal. A “responsabilidade” da crise é do Estado que cresceu quando os neoliberais sempre defenderam a sua redução. Portanto, contra o aumento do Estado continua-se a exigir a sua redução. Sem ver que, dada a “natureza” da economia nos últimos 40 anos, exigir a redução do Estado é necessariamente exigir a sua expansão.

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20 de Dezembro de 2012 - Posted by | Economia, Ideologia | , , ,

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