Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Brasil: curva com freio de mão

Acabava de escrever o meu post anterior quando li, no Valor, que o Banco Central do Brasil surpreendeu o mundo ao atuar no mercado secundário de forma a valorizar o dólar. Depois de meses em guerra contra os bancos para baixar os juros e, consequentemente, desvalorizar o real face ao dólar e aumentar a competitividade externa da economia brasileira, o governo decide intervir no “mercado” (bolsa) para obter o efeito contrário: valorizar o real. A justificação apontada é que a estratégia estava a gerar inflação.

Por morrer uma andorinha não acaba a primavera (diz-se em Portugal). Não obstante, a ação do BC de hoje é totalmente contrária ao que eu poderia esperar. Com as expectativas frustradas em relação a uma mudança de rumo na Europa, Dilma assumiu que não pode contar mais com o mercado internacional. A solução é um pacote meio-keynesiano meio-neoliberal que, por um lado, procura estimular o consumo (e, através dele, a economia) por meio de obras públicas e, por outro, procura captar capitais estrangeiros pela privatização de infraestruturas.

Era como complemento desta estratégia que eu tinha lido a guerra que Dilma abriu contra a burguesia financeira (uma análise diferente mas complementar aqui). Baixar os juros não foi visto apenas como um estímulo ao investimento (efeito interno que se soma às medidas citadas acima). É parte de uma guerra cambial que resulta, de um lado, das enormes emissões de moeda nos EUA e na Zona Euro para desvalorizar a sua moeda e aumentar a competitividade externa da sua economia e, de outro lado, das ações diversas dos restantes países para anular a sua perda de competitividade. É necessário ter claro que, sem competitividade externa (ou algum tipo de protecionismo), o estímulos ao consumo podem ser, não estímulos à atividade económica, mas às importações. É por isso que ambas as medidas, interna e externa, são necessariamente complementares. E é por isso que a ação de ontem do BC é tão surpreendente.

Obviamente, a ação do BC é menos surpreendente se levarmos em conta a “surpresa” da inflação no Brasil. A valorização do dólar permite importar produtos mais baratos, isto é, baixar preços, ainda que à custa de tornar a exportação mais difícil e pesar no saldo da balança comercial (em duas palavras: à custa de reduzir a competitividade externa da economia brasileira).

Ao mesmo tempo, é necessário notar dois aspetos. Primeiro, que não é uma simples inversão de caminho. O governo recuou na guerra cambial sem recuar na guerra aos bancos (não subiu, de novo, a taxa de juro, por exemplo). O que quer dizer que não foi uma cedência a esta fração da classe burguesa (ao contrário do que fez, por exemplo, com o agronegócio). Sem dúvida, o facto de dois grandes banco brasileiros serem públicos permite ao governo impor a sua política aos bancos, enquanto que no caso de outros sectores, como o agronegócio e a indústria, é obrigado a governar de modo a contar com eles.

Segundo, que durante o ano de 2013, Manteiga será um timoneiro levando o barco em águas bravias. As taxas de câmbio e de juros serão empregues para guiar o país entre o estímulo ao crescimento económico e o combate à inflação. Serão previsíveis outras guinadas, ora numa direção ora noutra, que incendiarão a disputa entre as frações de classe que sustentam o governo.

Vale seguir esta disputa atentamente!

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27 de Dezembro de 2012 - Posted by | Brasil, Economia | , ,

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