Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Primeiro a farsa, depois a tragédia

No final de fevereiro, a troika virá na sua missão ordinária em Portugal. Como em fevereiro do ano passado, irá descobrir o que toda a gente já sabe (ver aqui também): as “previsões” (que merecem todas as aspas do mundo) do governo saíram furadas. Serão necessárias novas medidas de austeridade. Como em setembro passado, o grupo Que se lixe a troika! já marcou a sua manifestação para 2 de março. A CGTP, ocupada com greves e manifestações locais e setorais, ganhará tempo para ver!

É necessário lembrar que os Indignados convocam toda a sociedade portuguesa menos a eles mesmos. Sem organização própria (sem existência para-si), uma manifestação como a de 15 de setembro só tem sucesso quando a elite se divide. Essa divisão das elites mostra que existem pelos menos dois caminhos e impele os Indignados a sairem à rua. Enfim, a divisão das elites é quem mobiliza os Indignados. Em setembro passado, a fúria das massas foi tanta que o governo teve a ponto de cair. Mas a Comissão Europeia veio em socorro do governo e, numa grande farsa, a elite tudo fez para colocar àgua na fervura. Empresários e políticos acantonaram-se e o PS jogou, como pode, para desviar a fúria da esquerda. A oportunidade foi perdida.

De qualquer modo, desde os malabares da TSU que o governo não tem o apoio da elite portuguesa. A sua queda é iminente – sobretudo depois de uma importante derrota eleitoral de Merkel. O representante da oposição ao governo, Cavaco e Silva (que já fez cair dois governos), já veio dar a sua sentença. O sucesso do governo, com a emissão de divída pública, foi logo atacado de todos os lados (aqui e aqui também). António Borges, surpreendentemente (ou nem por isso), veio até dizer que já basta de austeridade. E José Seguro, pelo seu oportunismo uma autêntica bússola da conjuntura, até já fala em eleições (ver aqui também). Portanto, a esquerda pode contar com a divisão das elites agora em março. Aliás, a esquerda arrisca-se mesmo a ser a banda da festa em que a “nossa” elite quer fazer dançar Passos Coelho.

Eis que aparece um problema. Os socialistas não querem ver Seguro como Primeiro-Ministro (ver aqui também). Não tendo força social e eleitoral para formar governo, a esquerda – o PCP, o BE, o PEV e, porque não, o PCTP juntos – arrica-se à tragicomédia de ficar a ver navios. Passos Coelho ganhará uns meses no governo – talvez para demitir-se (ou ser demitido), como Guterrez, com os resultados das eleições autárquica – porque o PS ainda não tem candidato a umas eleições legislativas. (Entretanto, desde setembro, o PSD desgastou-se mais e o FMI parece ter recuperado algo da sua má imagem. Nesse sentido, a hipótese de PASOKização do PS, inevitável se tivesse formado governo na conjuntura de há 3 meses, vai sendo mitigada… mas nunca eliminada!).

Nota final: um “beco sem saída” oportuno para a chegada de um tecnocrata apoiado num governo PSD/PS sem Passos Coelho. Não obstante, numa situação distinta de Monti, pois a conjutura já não é tão favorável à austeridade.

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25 de Janeiro de 2013 - Posted by | Partidos, Portugal | , , ,

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