Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Definindo neoliberalismo

Este texto é uma nova tentativa de apresentar um argumento já aqui exposto. O neoliberalismo não pode ser entendido como um avanço do mercado e o paulatino recuo do Estado, mas, pelo contrário, como uma contradição de termos: em nome do Estado mínimo, os neoliberais, fizeram o Estado crescer. Depois de ler este texto, isto é o único que posso concluir.

É bem conhecido que um dos elementos fundamentais do neoliberalismo foi a transferência da indústria do centro para a periferia do sistema capitalista. Mas talvez porque os intelectuais, mesmo de esquerda, vivem no centro do capitalismo, uma questão nunca foi colocada: se a riqueza é produzida na Ásia e na América Latina e consumida na Europa e nos EUA, como foi que os segundos pagaram o trabalho dos primeiros? Não é uma pergunta retórica que encerra uma crítica ética; é uma questão de facto que deve ser respondida com factos. A resposta é simples. Inventaram-se novos setores para criarem riqueza nos países do capitalismo central. Ainda que esses setores não produzissem nada exportável (vejam-se, por exemplo, apartamentos sobrevalorizados pela especulação imobiliária), eles diluíam o défice externo num PIB cada vez maior. Ou seja, criando ativos extremamente “valiosos”, os produtos industriais tornavam-se relativamente muito “baratos”. Valorizando o trabalho no centro, o neoliberalismo desvalorizou o da periferia.

Os setores em causa têm sempre duas caraterísticas: (1) uma forte componente especulativa e (2) quase sempre ocupando-se de a atividades exclusivamente ao Estado no período keynesiano (1935 a 1973). Pense-se, por exemplo, na especulação sobre moedas (que, para mais, permitia aos países o centro extrair riqueza dos países da periferia) ou na especulação imobiliária. Pense-se na privatização da saúde ou da segurança social que deram lugar a seguros de saúde e planos de poupança. Pense-se, por fim, nas parcerias público-privadas para a construção de infraestruturas (rodoviária e outras) e para a gestão de tudo o que se possa imaginar (de hospitais à recolha do lixo). Em todos os casos, pelo menos uma destas característica está presente; na maioria as duas.

Isto dota o neoliberalismo de dois traços fundamentais. Uma já bem conhecida: os bancos substituem o Estado na coordenação da economia. Regressa, portanto, uma caraterística que o capitalismo havia desenvolvido a seguir à crise de 1871 (momento a partir do qual a concorrência anárquica entre empresas se tornou inviável devido à dimensão dos investimentos). Com a crise de 1929, o Estado teve de assumir a função dos bancos; mas com a crise de 1973 voltou a perdê-la. O que levou Pierre Bourdieu a afirmar que uma das forças do neoliberalismo é apresentar o passado como se tratasse do futuro e, portanto, fazer crer que os progressistas (isto é, a esquerda) são na verdade os conservadores.

A outra, a meu ver, ainda não debatida mas que o texto de Gray abre a porta para analisar. Por um lado, o neoliberalismo só pode apropriar-se dos novos setores da economia opondo-se ao Estado. Acusando-o de ineficiente; defendendo o Estado mínimo. Ao mesmo tempo, elogiando a eficiência do mercado, o neoliberalismo encerra o debate político sobre a forma em que se deve prover esses serviços. Por outro lado, estes novos setores “produzem” aquilo que Polany chamou de mercadorias fictícias. Não tendo surgido com o intuito de ser comercializadas, elas só funcionam segundo a lógica do mercado com a permanente intervenção do Estado para que isso aconteça. Por outras palavras, o Estado cresce inevitavelmente à medida que estes novos setores se expandem. Em resumo, defendendo a redução do Estado, o neoliberalismo obtém a sua ampliação. E, ao contrário do que seria de esperar, isto é uma força e não uma fraqueza do neoliberalismo: ele “aparece” como solução para o problema que gera.  Basta ouvir o debate atual sobre a crise europeia.

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28 de Janeiro de 2013 - Posted by | Economia, Ideologia, Mundo | , , ,

4 comentários

  1. Muito bem escrito… mais uma vez.

    Faz todo o sentido!

    Sugiria apenas os seguintes pontos:

    :: A periferia “apenas” cresce fruto de IDE de empresas offshore oriundas do centro

    :: O instrumento mais forte para um estado cada vez mais Keynesiano é a capacidade das empresas OffShores produzirem legislação e controlorem/influenciarem os resultados da justiça nos vários países (incluindo leis de concorrência, com barreira à entrada fortíssimas)

    Venha o próximo artigo!

    Comentar por kiitossakidila | 28 de Janeiro de 2013

    • Olá! Bom achega, estimado Marco.

      Eu só não diria “para um estado cada vez mais Keynesiano”, na medida em que isso contradiz a essência do meu artigo. O que eu defendi é que o Estado neoliberal é, ao contrário do que dizem, maior do que o Estado keynesiano, Isto porque, no Estado keynesiano, as funções sociais do Estado são um mecanismo de distribuição de riqueza. Crescem – ou deviam crescer – com a desigualdade do país que tendem a resolver. Já no Estado neoliberal, estes mesmos setores que não vivem sem o Estado, tornam-se negócios privados e crescem à taxa de lucro.

      Abraço

      Comentar por Jose Ferreira | 28 de Janeiro de 2013

      • Estimado José,

        Como não tenho um coração tão puro como o do José não consigo partilhar o mesmo sentimento relativamente a esta fase “Estado keynesiano, as funções sociais do Estado são um mecanismo de distribuição de riqueza.”

        A distribuição que ocorre é altamente ineficiente. Existe apenas para garantir à Não-Elite a ilusão que (1) está bem e que (2) a relação custo/beneficio entre os imposto que paga e a distribuição que existe a “coisa” é positiva.

        Depois a ilusão da mobilidade social faz o resto… as pessoas vão acedendo ao governo por exemplo e vão pensando que fazem parte da elite!

        Concordo com as conclusões da sua reflexão! Afinal alguém que viveu durante 3 anos na Guatemala tem uma vivência profunda para poder refletir sobre temas tão sérios como este!

        Não tenho é um coração tão puro para a bondade da filosofia economica de Keynes e do irmãos gémeos/trigémeos dele!

        Força, venha o próximo!

        Comentar por kiitossakidila | 28 de Janeiro de 2013

    • Olá!

      Parece-me que estamos a olhar para coisas distintas. O keynesianismo, para mim, é tanto uma teoria económica como um modelo de Estado+economia que surgiu depois de 1935. Tomando esta última definição parece-me que houve efetivamente redução da desigualdade como se pode ver por aqui.

      Não alimento, apesar disso, quaisquer ilusões sobre a natureza dessa política. Carlos Slim, que há cerca de 10 anos tentou recuperar, na América Latina, esse espírito traduziu-o com bastante precisão: pobreza não é mercado!

      Abraço

      Comentar por Jose Ferreira | 28 de Janeiro de 2013


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