Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Não sou ludista

Parece que o futuro da industria passará pela robotizão – é o que diz aqui. Metade dos empregos dos EUA serão ocupados por robots até 2025. A resposta a isto, para ser marxista, obriga a colocar a perspetiva da Revolução. É sabido que a passagem do capitalismo ao socialismo se dá pela supressão da propriedade privada dos meios de produção. Menos conhecido – e mais pertinente para aqui – é a passagem do socialismo ao comunismo. Diz-se que corresponde ao desaparecimento paulatino do Estado; mas raramente se conhece a lógica desse processo (e, por ende, a concepção de Estado de Marx). Em poucas palavras, desde que existem desigualdades culturais entre os Homens, os que têm mais poder impõem as suas regras aos mais fracos. Mas para fazê-lo com menos esforço – e menos violência – são obrigados a criar, conscientemente ou não, uma fictícia terceira parte que impõe essas regras: o Estado. A Revolução Socialista destina-se a estilhaçar a maior desigualdade do capitalismo; não assegura o desaparecimento de todas as outras. Portanto, não pode assegurar – como queriam os anarquistas – o desaparecimento do Estado.

Como é que essas desigualdades desaparecem? A resposta de Marx nos Manuscritos de 1844 é conhecida. À medida que a tecnologia vai se interpondo entre o Homem e a natureza as profissões vão-se assemelhando (acreditava Marx). Assim, o Homem poderá ser pescador de manhã, agricultor à tarde e filósofo à noite. Ou seja, não está condenado a um lugar na sociedade e por isso a ficar prisioneiro de uma relação de poder. Esta tese nunca mais foi exposta e há leitores d’O capital que “encontram”, aí, outra. A atenção que ele presta a forma como os trabalhadores resolviam as suas diferenças internas para lutar contra o patrão leva alguns lukacsianos à seguinte conclusão: Marx acreditava que era necessário colocar a questão das diferenças internas entre operários para chegar a derrubar a burguesia. E esta experiência anteciparia já aquilo que deveria ser o socialismo enquanto estádio de transição para o comunismo. (Daí que, embora n’O Capital, Marx falasse pouco da condição específica das mulheres, os seus apontamentos mostram o quanto Marx tomava a desigualdade de género como exemplo daquilo que havia que havia de ser resolvido).

Mas a principal desigualdade social para Marx, depois da divisão entre capital e trabalho, é a divisão entre trabalho manual e trabalho intelectual. As razões são menos conhecidas que a existência desse facto. Ora, separado do trabalho concreto, o teórico dá aquilo que encontra como o que sempre existiu. Apesar da admiração por Feuerbach, Marx não deixou de ironizar com o seu materialismo: A cerejeira dada à ‘razão sensível’ de Feuerbach foi trazida para a Europa por duzentos anos de comércio. A crítica a Adam Smith é mais clara. Smith toma a economia burguesa emergente como a economia “natural” que se desentranha dos entraves da religião. Marx compara-o aos teólogos da Igreja Católica que, tomando a sua fé como verdadeira, falavam das superstições dos outros. Para Marx a economia burguesa não é mais verdadeira que a feudal; são dois estágios do desenvolvimento societário cuja essência é o processo dialético (resultado da ação do Homens, mas não nas condições escolhidas por ele, senão naquelas herdadas de todas as gerações anteriores) de desenvolvimento. Consequentemente, uma sociedade onde os Homens de ciência estão separados da produção só pode ter uma falsa consciência de si – uma ciência ideológica. Uma ciência que se foca nos aspetos estáticos da realidade e não nos seus aspetos dinâmicos. Enfim, uma ciência conservadora: apta para gerir o status quo mas não para conduzir mudanças radicais e revolucionárias.

Um comentário a’ O capital que ouvi em novembro passado, permite regressar ao artigo acerca da robotização da economia. Segundo André Guimarães Augusto, num mini-curso proferido na UFF, apesar de, a partir de 1830, os trabalhadores lutarem tanto pela redução do horário de trabalho, como por aumentos de salário, como também pela melhoria das condições laborais, é sobretudo o primeiro que é analisado por Marx em O capital. As lutas por aumentos de salário quase são excluídas. Qual a razão para esta opção? O André aventou uma hipótese: se a tecnologia não permite que sejamos pescadores de manhã e agricultores à tarde, pelo menos que nos permita ser filósofos à noite. Isto é, que permita mais tempo livre para os operários dedicarem-se à cultura em geral e à filosofia em particular. Que dê condições para a existência de um modo de pensar não alienado (no sentido acima), capaz de mudar o mundo. (Acrescento eu, mais terra a terra, que a luta pela redução da jornada de trabalho tem a potencialidade de unir trabalhadores empregados e trabalhadores desempregados; enquanto o aumento de salário tende a dividi-los).

Por tudo isto, escrever – como fez o artigo – que “em 2025 os robots terão feito desaparecer praticamente metade dos empregos existentes no EUA” é fazer uma afirmação ideológica. Não menos ideológica, mas igualmente verdadeira – o que expõe o conteúdo ideológico de ambas – é afirmar que em 2025, os robots permitirão aumentar o tempo de lazer da sociedade norte-americana. Mas, como a sociedade é de classe, a primeira frase é seguramente mais provável que a segunda.

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30 de Janeiro de 2013 - Posted by | Ideologia | , , , ,

1 Comentário

  1. Gostei de ler!

    Parabéns!

    O José é brilhante!

    Venha o próximo artigo!

    Comentar por kiitossakidila | 30 de Janeiro de 2013


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