Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Quem pediu uma saída “keynesiana” para a crise?

A dívida pública conta-se em percentagem do PIB. Logo, a crise do Estado pode ser resolvida de duas maneiras: (1) arranjando maneira de pagar o que se deve; ou (2) fazendo a economia, isto é, o PIB crescer. O problema é que só se pode pagar a dívida do Estado sugando a economia com impostos. Dois anos de austeridade mostraram o desastre que se torna a primeira opção. Não obstante, a forma mais barata, a curto prazo, para fazer crescer o PIB são obras públicas. Obviamente, a dívida aumenta – o que nem seria mau se a economia crescesse mais. O problema é que há 30 anos que a economia portuguesa cresce a custa de obras públicas e privadas. Portanto, a medida, digamos, está gasta.

É necessário explicar melhor este último aspeto. A construção civil é a forma mais barata de fazer mover a economia porque gera muito emprego e puxa por todos os outros setores. Os pedreiros comem, compram roupas, pagam impostos… Além de uma grande obra por a mexer uma fábrica de cimento, várias empresas de transporte, etc. Como dizem os economistas, é o efeito difusor. Mas ao fim de 30 anos a fazer crescer o PIB pela construção, o país se tornou num estaleiro que importa para comer. Isto é, o efeito difusor puxa pela agricultura espanhola e a indústria asiática.

Em 2010 tivemos realmente essas duas opções em jogo. Enquanto Soares dos Santos exigia uma política de contração, Sócrates propôs uma política expansiva. O TGV, pela sua persistência, ficou famoso; mas estavam incluídos no plano uma 3.ª auto-estrada entre Lisboa e Porto; a transferência do aeroporto da Portela para a Margem Sul e uma terceira ponte sobre o Tejo. Mas, como se sabe, o governo de Sócrates caiu e veio a dura austeridade… Que, como previsto, resultou numa emenda pior do que o soneto.

De modo que já há quem diga que o governo de Passos começou a recuperar o plano de Sócrates às escondidas. A terceira auto-estrada entre Lisboa e Porto começou a ser construída em surdina. E há quem diga que o novo aeroporto e a terceira ponte sobre o Tejo estão para breve. Só falta mesmo o TGV.

Adendo 6/2: afinal nem o TGV falta. Um dia depois de ter escrito este texto, o governo assinou um contrato de financiamento da obra com quatro bancos.

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4 de Fevereiro de 2013 - Posted by | Economia, Portugal | , ,

4 comentários

  1. 1) A dívida pública não está toda declarada… existe N dívida desçamentada…

    2) Se as pessoas ainda perceberam que na hipotese REMOTA de haver necessidade de política economica ela deve basear-se em “desenvolvimento” e não em “crescimento” então temos um problema AINDA MAIOR. Por isso é que há pessoas que tiravam o planeta da crise com a ameaça de uma invasão fraudulenta de OVNIs… aliás no “setor” contrário encontramos Alan Greenspan como um adepto de crescimento baseado em betão…

    3) Quem pensa que o objetivo de regresso aos mercados é para melhorar as condições de vida dos residentes em Portugal que se desengane… o regresso aos mercados é apenas para o regresso de Keynes em força!

    Comentar por kiitossakidila | 5 de Fevereiro de 2013

    • Keynes… um amigo dizia que, no séc. XX, difundimos os antibióticos e as pessoas, por um lado, passaram a viver mais 20 anos e, por outro, a morrer de cancro. Acho que seria um equívoco culpar os antibióticos pelo surgimento do cancro ou, pelo contrário, tentar vencer o cancro com antibióticos!

      Comentar por Jose Ferreira | 5 de Fevereiro de 2013

      • Estimado José,

        Parece-me que as pessoas sempre viveram sempre “mais ou menos” o mesmo o mesmo tempo: 70 a 80 anos…

        Parece-me que o que baralha as contas da longevidade é a mortalidade infantil…

        “Desenvolvimento” baseado em agressão ao ambiente (nomeadamente em betão) é crescimento…

        N estradas a ligar Lisboa ao Porto não trás desenvolvimento a Portugal… apenas “crescimento” para construtoras, advogados, financeiros, partidos, políticos e repteis afins…

        Keynes pensador inteligente que foi bastante inspirador para AH (Alemanha) e JS (URSS)…

        Como a receita deu certo a seguir deram-lhe a medalha para ser a base de Bretton woods… que é a garantia que qualquer instituição TBTF ter sempre alguém para assegurar o Bailout…

        Portugal embrulhou-se perante instituições (Too Big To Fail – TBTF) apareceu o FMI (acompanhado) para garantir que os empréstimos a elas são pagos…

        Embrulhou-se como? Com Keynes…

        Agora regressa aos mercados… para quê? Para mais Keynes…

        Deve ser masoquismo… ou falta de estudo…

        Comentar por kiitossakidila | 5 de Fevereiro de 2013

    • Parece que não fui claro. Quanto à evolução da esperança média de vida ao longo do séc. XX pode ler algo aqui. Mas isso é o menos importante. O que eu quero dizer é que o keynesianismo pode até ser parte do problema. Acredito mesmo que o é!!! Agora, a supressão pura e simples do keynesianismo está longe de ser a solução. Nada mais é do que regressar ao problema de 1929.

      Comentar por Jose Ferreira | 5 de Fevereiro de 2013


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