Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

O humor e a ontologia marxista

Hoje de manhã, liguei o computador e vi, no facebook, a famosa frase de Marx e Engels em a Ideologia Alemã: “Não é a consciência do homem que lhe determina o ser, mas, ao contrário, o seu ser social que lhe determina a consciência”. Esta pedra angular do materialismo-dialético tornou-se, nos dias de hoje, fundamento de qualquer ciência social que se prese: da história à antropologia. De seguida, outra nota no facebook me fez voltar àquela frase. Trata-se de um vídeo (que recomendo ver; aqui refiro-me ao que é dito entre o 1:20 e 5:42) com Marilena Chauí. Ela satiriza, com muito humor, o conservadorismo da classe média urbana brasileira. A piada, no entanto, remete obrigatoriamente para a ideia fundamental do materialismo dialético, pois nem todos lhe vão achar graça. É necessário fazer parte de uma certa elite intelectual de classe média para dar as gargalhadas que eu dei de manhã. Pois, partilhamos de uma consciência, de um sentido de humor, porque nos aproximamos no nosso ser social, isto é, porque pertencemos a um lugar comum na sociedade.

Em lugar nenhum estou a dizer que se trata de uma piada só para “eleitos”, pessoas mais inteligentes que outras. A questão é outra e pode ser melhor vista se olharmos para uma empresa, espero que de sucesso, que existe em Portugal. A empresa chama-se Portuguese sayings e vende t-shirts com expressões idiomáticas portuguesas traduzidas literalmente para o inglês. Vende porque as traduções são hilariantes. E são hilariantes porque, ao traduzir as frases, põe em relevo a sua falta de sentido literal. É, obviamente, necessário entender a frase original – ser português – e a tradução – saber inglês – para achar piada; isto é, para entender o sentido original e a falta de sentido da tradução. Mas não é apenas uma questão cognitiva. Se algumas frases são, para mim, mais hilariantes que outras é porque o seu sentido é-me mais caro. Porque uso certa frase com frequência, me apego mais a ela que às outras. Portanto, o abismo entre o sentido em português e a falta de sentido em inglês me parece maior. O humor de Marilena Chauí é do mesmo género: os “xingamentos” são conceitos filosóficos que, numa briga de rua, não fazem sentido – como expressões idiomática traduzidas. Poucas pessoas que entendem português não vão entender isso. Mas o facto de eu achar muito mais graça que outros é que, sendo um apaixonado por filosofia e me dedicando profissionalmente à antropologia (que faz fronteira com a filosofia), me apeguei a esses conceitos – usados por Marilena Chauí – como um juiz ou um professor de biologia jamais se apegariam.

Ao contrário do que Marx pensava, não é por interesses que as classes entram em confronto, mas antes por visões de mundo a que nos apegamos como a uma camisa velha. Não obstante, forjadas na tentativa de viver melhor – isto é, de realizar os seus interesses – é inevitável que, salvo exceções, exista uma adequação entre visão de mundo e os interesses de cada pessoa ou grupo. De forma que, para compreender o modo como uma classe, fração de classe ou indivíduo se insere hoje na luta de classes é necessário analisar o que buscaram nos últimos anos, e a forma como o buscaram, para compreender a visão de mundo desse grupo ou indivíduo. É inevitável, pela necessidade de manter a reprodução do capital, que a visão de mundo da classe dominante não se altere na sua essência, embora se particularize de acordo com a forma histórica e geográfica específica da reprodução do capital. Mas o mesmo não é válido para um proletariado ocupado em comer três refeições ao fim do dia. A sua visão de mundo (uma vez que falamos de classes: ideologia) varia consoante o modo como ele se insere na economia. Aliás, Marx nunca esperou que os trabalhadores, por serem trabalhadores, fossem imediatamente revolucionários. Pelo contrário. Mas, na medida em que buscam superar a sua miséria, na medida em que se organizam para superar a sua miséria, e na medida em que para superar a sua miséria os operários organizados são obrigados a entender a reprodução do capital do ponto de vista dos trabalhadores, – somente agora – eles podem adquirir/apegar-se a uma visão do mundo comprometida com a superação do capitalismo. Enfim, a mal-chamada consciência da classe operária (por oposição à burguesa) é uma visão de mundo de segunda ordem: coletiva, e não mais individual!

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25 de Fevereiro de 2013 - Posted by | Ideologia | , ,

4 comentários

  1. Video interessante!

    Quanto ao texto vais gostar de ler o que Fukuyama escreveu.

    Estou a citar de cabeça: “não existe homem num estado pre social”.

    Está neste livro:
    http://www.dailymotion.com/video/xqlhr6_as-origens-da-ordem-politica-por-francis-fukuyama_tech#.USx0qVe5ibE

    Comentar por kiitossakidila | 26 de Fevereiro de 2013

    • Para produzir comida, roupa e abrigo (eis como Marx define economia) o ser humano transforma a natureza. Mas ao fazê-lo coletivamente, e não individualmente; e, sobretudo, ao atribuir diferentes papeis nessa produção aos individuos – isto é, ao trasformar seres iguais em individuos desiguais – o ser humano transforma-se a si mesmo num ser humano social. Eis o bê-à-bá de Marx. A luta de classes é derivado. Aqui está a essência.

      Comentar por Jose Ferreira | 26 de Fevereiro de 2013

      • É capaz de ser AINDA antes disso estimado José!

        A “produção” de um bebé é algo “biindividual” por exemplo…

        😉

        Comentar por kiitossakidila | 26 de Fevereiro de 2013

    • 🙂

      Ainda assim, duas correções.

      1. Quando Marx se referia a abrigo, de certo modo, pensava nisso!

      2. Não há razão para pensar a reprodução como ‘ainda antes’. Todos os problemas de comer, vestir, reproduzir-se, mas também preparar-se para ter um emprego (estudar), ter um modo de vida condigno para a sua época (ter um Ipod), etc. se dão ao mesmo tempo se, em vez de pensarmos na história pessoal de cada indivíduo, e pensarmos na sociedade como um todo, onde há jovens de todas as idades. Assim, tudo se faz ao mesmo tempo.

      Abraço

      Comentar por Jose Ferreira | 26 de Fevereiro de 2013


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