Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

A ascensão conservadora

Há um interessante conjunto de vídeos no youtube, resultado de um seminário feito na USP. Apesar da qualidade das palestras,  o conteúdo tem limitações devido, por um lado, ao preconceito acerca da  classe média (aliás, classe média não é uma gaveta onde se colocam todos os insultos?) e, por outro lado, à necessidade de defender do PT como se nota tanto na intervenção de Vladimir Safatle quanto no debate final. De qualquer modo, existem diversos pontos interessantes a reter do debate.

1. Da palestra da Marilena Chauí, merece ser retida a oposição entre a cordialidade na esfera doméstica e o autoritarismo da esfera pública. O problema, para Chauí, está no funcionamento das instituições que privatiza a ética pública: reduz-a a um lista de conformidades corporativamente definidas. (Como um manual de boas práticas de uma qualquer empresa). Garantida essa conformidade mínima, tudo é possível – até o egoísmo mais bárbaro. Não obstante, por que razão esse autoritarismo totalitário (parece-me que no sentido de Arendt) tende a decantar-se na classe média? Creio que a definição pobre e preconceituosa de “classe média” leva a uma má resposta!

2. André Singer (estou a ordenar as palestras da que gostei mais para a que gostei menos) fala de fenómenos de longo, médio e curto prazo. A) No longo prazo, ele apresenta a onda neoliberal: um fenómeno global que teria entrado tarde no Brasil, mas que se teria instalado a partir do ano 2000. B) No médio prazo, está o modelo de inserção social “brasileiro” (digo eu: do governo Lula): pelo consumo e não pela luta de classes. C) No curto prazo, ele vê uma certa inveja da classe média pela ascensão recente das classes baixas. Haveria que analisar cada um destes pontos, mas alongaria demais este texto. Como o segundo me parece claro e o primeiro demasiado complexo, fico-me pelo último. Sobretudo porque repete o preconceito de Chauí! Em parte, ambos têm razão. Certo dia ouvi: “Os ricos ganham sempre. O Lula leva dois governos ajudando os pobres. Está na hora de trabalhar para a classe média”. Parece-me, no entanto, que a dimensão simbólica (o exemplo dado por Singer é o de um homem que se queixa que o aeroporto está parecendo uma estação de ônibus) não justifica tudo; talvez seja reflexo de uma dimensão material. O aumento do consumo dos pobres gerou inflação comprimindo o poder de compra da classe média. As greves de polícia, bombeiros e funcionários públicos que eclodiram o ano passado foram por reajuste do salário à inflação.

3. Por fim, Vladimir Safatle denota o crescimento de uma nova direita. Ela surfará na onda deste “ascensão conservadora” e, na minha opinião, Safatle fez a única intervenção que permite antever o futuro. A direita tradicional tem dificuldade em aproveitar-se da nova onda conservadora porque os governos do PT têm melhorado a vida das pessoas, tem-nas inserido na sociedade ainda que pela via do consumo. Ao criticar o PT, a velha direita é obrigada a engolir sapos e a dar o dito por não dito – pense-se no PSDB e DEM. Mas o PMDB está numa situação completamente diferente: é de direita e faz parte do governo. Pode ter um discurso adequado ao novo conservadorismo e, ao mesmo tempo, reclamar para si os avanços do governo Lula. Só faltou que Vladimir Safatle pusesse a hipótese de que, em alguns anos, o PMDB tomasse o lugar do PT como líder da coligação.

Enfim, estas três palestras identificam o deslocamento para a direita da sociedade brasileira. Mas, devido a tomarem como evidente o que é “classe média” (eu não sei o que é ) não são capazes de compreender efetivamente as causas daquilo que observam!

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27 de Fevereiro de 2013 - Posted by | Brasil, Ideologia | , ,

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