Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

A moção de censura

Confesso que me equivoquei quando aqui afirmei que a moção de censura (ver aqui também) de José Seguro e a decisão de derrubar o governo representavam mais um passo em falso do seu PS. Aliás, o regresso de Jorge Coelho e José Sócrates à política (ainda não vi a entrevista de Sócrates, mas parece que foi-lhe favorávelaqui também) mostravam, desde logo, que algo está a mudar. Mas, porque ignorei um importante ator, não fui capaz de descortinar o quê. Em poucas palavras, esse ator é o Tribunal Constitucional. A decisão do TC sobre a constitucionalidade do Orçamento de Estado está para breve. E com o previsível chumbo, o governo não terá outra solução senão demitir-se. Nesse sentido, o PS prepara-se para chutar um cão morto, isto é, um “cão” que o TC ainda há-de matar.

Isto leva a uma alteração da conjuntura bastante significativa. Em dois pontos. Por um lado, o PS ficará com a batata quente do corte dos 6,5 mil milhões de euros na despesa pública nas mãos. O que implica a demissão de cerca de 20 mil funcionários públicos em dois anos. Ao contrário do PSD, o PS conta com muitos funcionários públicos na sua base eleitoral. Deste modo, o novo governo poderá estar a engrossar as fileira do BE e, em menor grau, do PCP. Por outro lado, existe um movimento das grandes empresas de construção civil para ganharem o peso político que sempre tiveram no governo entre 1985 e 2010. A prová-lo está a ideia peregrina de adaptar o porto da Trafaria (sem ligação ferroviária) a navios de grande porte. Uma obra que tresanda a PPP.

Estas duas mudanças na conjuntura tem duas consequências. Em primeiro lugar, vão facilitar o trabalho aos sindicatos. Os desempregados, que desde meados de 2011 têm representado o cerne da crise, isto é, a destruição da economia real para tapar os buracos da economia financeira. Se, como propus aqui, se tivesse avançado em junho de 2012 para a criação de uma organização de desempregados com um discurso simples, entre setembro e fevereiro teríamos podido velejar nos discursos da comunicação social dominante para construir essa organização. Mas pouco se fez! De repente, a conjuntura traz o cerne da crise para os funcionários públicos. Não apenas porque vão ser demitidos, mas sobretudo porque vão ser demitido pelo PS (que depende do seu voto). Ora, estes já são a base da CGTP e outros sindicatos existentes, que são, por sua vez, a base dos partidos à esquerda do PS. Enfim, se nos últimos dois anos a esquerda não soube colocar-se no olho do furação; agora o olho do furação se deslocou para onde está a esquerda.

O outro aspeto implica o regresso da política contra a qual o PSD de Passos Coelho se fez. Parece que, em Portugal, ou manda a construção civil ou não manda ninguém. Como afirmei aqui, isso assinala também a incompetência de outros setores da economia, em especial o setor da metalomecânica, para criar emprego e riqueza na mesma dimensão que a construção e, sobretudo, para saber usar o emprego e a riqueza que criam como arma de lobby. De qualquer modo, se a troika permitir o regresso das PPPs – como instrumento de promoção do crescimento – estará dando ao PSD, então na oposição, um flanco do governo para bater à vontade.

Enfim, se o primeiro fator concorre em favor da esquerda; o segundo em favor da bipolaridade a que a política portuguesa nos habituou.

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28 de Março de 2013 - Posted by | Partidos, Portugal | , , , ,

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