Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

O capitalismo é inviável

No debate sobre este texto, eu argumentei que o capitalismo necessitava de crescer geometricamente ou entrava em crise. O meu amigo Marco Cardoso contestou: “Sugiro apenas que esqueça isso da progressão geométrica aplicada às empresas que não sejam geridas pelo paradigma Marx/Keynes/Friedman. As empresas que não geridas segundo esse paradigma são as criam postos de trabalho! Mesmo a que são geridas por esse paradigma não conseguem aguentar progressões geométricas”. Não enfrentei o comentário até hoje. Ele exigia uma consistência que demorei a poder construir.

Mas, para responder, necessito de contornar o problema. É preciso recordar o que me dizia um outro amigo sobre o machismo. “A culpa é das mulheres! Afinal são elas que educam os filhos. Ensinem as mulheres a educar de outra maneira e o machismo desaparecerá numa geração”. (… administrem as empresas por outro paradigma e o crescimento geométrico será dispensável! – eis a semelhança). Obviamente, seria fácil mostrar que uma educação “não machista”, teoricamente possível, chocaria com o facto de que ela seria administrada pela mulher. Essa mãe consciente ensinaria incansavelmente aos seus filhos que o casal deve dividir as responsabilidades domésticas e de educação dos filhos. Mas essa “verdade” chocaria inevitavelmente com a ausência ou presença secundária do pai em ambas as responsabilidades. E, recordemos, com o facto de, a haver uma empregada doméstica, ela ser sempre uma mulher.

Deste caso quero tirar uma analogia – mas que não é a contradição entre o conselho e a prática. O que vale notar aqui é que existem dinâmicas societárias que não dependem das decisões individuais, mas da forma como a sociedade é organizada. (Aqui tentei analisar o preconceito machista sob esse ponto de vista). E que os problemas baseados nas decisões individuais se veem de uma perspetiva; enquanto a compreensão daqueles originados pela forma societária implicam assumir outra perspetiva. Marx e Keynes empregam a segunda perspetiva. Eles não olham para o modo como os empresários tomam decisões, mas para a economia como um todo. Eles tentam compreender a lógica da economia a partir das relações entre variáveis da contabilidade nacional (PIB, FBCF, taxa de desemprego, etc.). Portanto, livremo-nos de um equívoco: não há empresas geridas por um paradigma marxista/keynesiano. O paradigma marxista e keynesiano explica aquilo que os empresários são obrigados a fazer porque lhes é inevitável dada a organização social em que vivem.

Assim, permitam-me que resuma o paradigma marxista/keynesiano. Parto do trabalho de Kalecki, um marxista que, analisando aquilo que Marx chamava “realização da produção”, chegou às conclusões de Keynes alguns anos antes do próprio Keynes. (Sumarizo aqui, no entanto, um texto de 1977. Quem estiver interessado nos detalhes, bem como na comprovação estatística a partir da contabilidade nacional do EUA, pode ler o texto original aqui).

Kalecki parte da lei de Say. O rendimento disponível em um país (Y) é igual à produção vendida (P) (1). Afinal, uma caixa de laranjas não vendidas é uma caixa de laranjas podre. Não tem valor. Ao mesmo tempo, rendimento podem ser decomposto em lucro (L) e salários (S); enquanto que os produtos vendidos podem ser bens de consumo final (C) e bens de investimento (I) (2). Se, por motivos de simplificação da fórmula considerarmos i) a economia fechada (sem importações, nem exportações); ii) que não existe Estado; iii) que os trabalhadores não poupam; e iv) que o consumo dos capitalistas é desprezível, então o salário é igual ao consumo. Logo, o lucro é igual ao investimento (3).

(1) Y = P            (2) L + S = I + C           (3) Se S = C, então L = I

O texto original comprova que reintroduzindo tudo o que é deixado de lado aqui não altera as conclusões. Se alguém ficar insatisfeito com a simplificação que acabei de fazer, vale a pena consultar o trabalho que estou resumindo. Note-se, por outro lado, que não estamos a lidar com o lucro de uma empresa, ou os salários e o consumo dos trabalhadores de uma empresa. Partimos do ponto de vista da contabilidade nacional. L é o lucro de todas as empresas existentes num país dado; S é o salário de todos os seus trabalhadores e assim por diante.

Só isto já implica um crescimento aritmético da economia nacional. Para manter um lucro X é necessário investir, ano após ano, X. Mas vale lembrar que os empresários não avaliam os seus investimento em função da quantidade de lucro que obtém. O que conta é a taxa de lucro (TxL), isto é, o valor do lucro dividido pelo valor do investimento somado de todos os anos anteriores (4). Logo, para manter a taxa de lucro é necessário que a economia cresça não de forma aritmética, mas geométrica.

(4) TxL = L / ∑ I    ⇒    L = 1/2  I² * TxL

As crises do capitalismo acontecem exatamente porque, como reconhece o Marco, é difícil aguentar uma progressão geométrica!

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6 de Abril de 2013 - Posted by | Economia | , , ,

5 comentários

  1. Estimado José,

    Tenho andado de um lado para o outro e só agora é que posso reflectir sobre o assunto para continuar a aprender contigo.

    Então, vamos lá:

    “É preciso recordar o que me dizia um outro amigo sobre o machismo. “A culpa é das mulheres! Afinal são elas que educam os filhos. Ensinem as mulheres a educar de outra maneira e o machismo desaparecerá numa geração”.”

    O que eu “mais” conheço são filhos educados de forma “identica” e serem diferentes em temas diversos incluindo o machismo.

    Possivelmente o machismo poderá ter mais haver com a influência dos gregos na religião do que com qualquer outra variável… digo eu que disto também percebo pouco.

    Fico contente em saber que estamos de acordo que isso de taxas de crescimento geométricas para universos finitos (tipo planeta Terra) é uma fantasia. Isso é a base do paradigma actual. Marx, Keynes, Friedman e afins são todos azuis (por exemplo) uns são azuís escuros, outros azuís claros outros azuís turquesa e por aí fora… mas são sempre azuís… um pouco como anedota da viagem Porto_Lisboa de comentador de Portugal com uma criança sobre política… Ou começamos a pensar que existem outras cores ou então continuamos a tentar fazer arco iris com tonalidades em vez de com cores!

    Os decisores empresariais não procuram taxas de crescimento de lucros geométricos.

    Os decisores empresariais tem como mecânica de pensamento a seguinte:

    :: Avanço ou não com este projecto?

    :: Os gastos em recursos e competências que vou aplicar nele vão ser maiores ou menores do que o dinheiro que irei receber pelo resultado final?

    ::: Se o decisor pensar (acreditar: tiver fé) que o resultado final é maior do que o ele gastou nos inputs e processo então avança. Caso contrário não avança.

    :: Não é a TIR (taxa interna de rentabilidade) que o faz avançar pois com o modelo de MM apenas por colocar dívida no projeto ele melhora os fluxos financeiros. Ele avança se o VAL (Valor Actualizado Líquido) for positivo. Esta metodologia é aplicada activos reais e activos financeiros! Este detalhe é importante para se perceber o “desnorte” que anda por aí. A TIR é uma indicação mas o que conta mesmo é o VAL (ou modelo DCF em inglês).

    … Exemplos de problemas óbvios disto:
    — Poluição não aparece nos inputs como gasto
    — Utilização de offshores para garantir vendas por exemplo
    — Dumping social

    Como é óbvio os exemplos apresentados de problemas são apenas para não PMEs…

    Mais, os donos de PMEs querem ter uma vida estimulante que passa por ter uma vida rica em conhecimento e imaginação, ter uma vida familiar também rica e para isso acontecer existe um limite ao tamanho da empresa! Pelo que a PME nunca cresce de forma geométrica.

    As coisas só se tornam GRANDES com a ajuda do ESTADO!

    Só há TBTF (Too Big To Fail) porque quem manda nos ESTADOS QUEREM! Essas coisas TBTF e similares é que precisam de contar “histórias” incluindo isso do crescimento geométricos.

    Não é possivel que uma PME passe à categoria de TBTF ou equivalente sem ajuda do ESTADO!

    Comentar por kiitossakidila | 23 de Abril de 2013

    • Olá. Voltamos ao de sempre.

      1. Marx e Keynes não afirmam que o capitalismo deve crescer em progressão geométrica. Pelo contrário, eles afirmam que o capitalismo, para sobreviver, tem de crescer geometricamente.

      2. Eles não partem das decisões dos investidores, mas da dinâmica geral da economia e o que ela impõe (até pela concorrência) aos investidores.

      E sim: só existem grandes empresas com ajuda do Estado. Mas isso é uma exigência que se impõe ao Estado pela necessidade de crescimento geométrico e não o inverso.

      Uma última prova de que o crescimento económico deve ser geométrico: Quando se afirma que o PIB crescer 2% a base de referência é em relação ao ano anterior. Logo, o crescimento de um ano faz parte da base de referência o ano seguinte. Então, dizer que o PIB cresceu X% é informar a taxa de crescimento geométrico.

      Como se sabe, com um crescimento de 0% do PIB, para o qual tendia o crescimento aritmético, é um indicador de que as empresas estão mal de saúde.

      Abraço

      Comentar por Jose Ferreira | 23 de Abril de 2013

  2. Estimado José,

    Como o capitalismo para sobreviver precisa da linha verde (se quiseres um 3, um 4 etc em vez do 2 é igual, tem é que ser inteiro maior que 1 de preferência) e não precisa da linha vermelha… então é um nado morto e portanto estamos de acordo!
    http://en.wikipedia.org/wiki/Exponential_growth

    Escrita do meu filhote que veio ao computador enquanto eu me ausentei:
    “^Rrdº~fºgu
    eERg t hy”

    A dinâmica da economia suspeito que não exista. Existe sim seres humanos a tomarem decisões para satisfazerem as suas necissidades tangíveis e intangiveis e uma entidade chamada estado que distorce as mais básicas decisões. O estado faz aquilo que no lógica Pareto/Fractais as várias elites querem.

    Esta frase parece-me correcta:
    “E sim: só existem grandes empresas com ajuda do Estado. Mas isso é uma exigência que se impõe ao Estado pela necessidade de crescimento geométrico e não o inverso.” Parece-me também que MESMO com o estado não seja conseguido o crescimento geométrico a longo prazo… por alguma razão estamos a assistir a mudança de produção de tangíveis to atlântico para o pacífico… “300” anos depois volta para onde esteve nos últimos milhares de anos.

    Conheço várias empresas a crescer a zero em termos reais (isto é descontando a inflação) e em que os stakeholders estão contentes com isso, pois de outra maneira teriam que alocar tempo da família para a empresa e isso está totalmente fora causa! Porquê? Bem porque são pessoas felizes! E pessoas felizes não precisam de coisas (tangiveis)… procuram meaning, significado, tangíveis!

    Ainda somos poucos, apenas alguns milhões neste mundo de biliões!

    O nosso combustível é a felicidade! O elitismo, a centralidade e afins são dispensados!

    Comentar por kiitossakidila | 24 de Abril de 2013

    • Olá

      Em pouca palavra.

      1. Onde estamos de acordo: o crescimento exponencial/geométrico é inviável.

      2. Onde estamos em desacordo:

      a) Eu digo que o capitalismo necessita de crescimento geométrico para sobreviver. É por isso que frequentemente entra em crises. Pois, o crescimento geométrico é difícil de manter.

      b) Vc diz que o capitalismo poderá viver sem crescimento geométrico (e, logo, livrar-se das crises).

      3. O nosso desacordo deve-se ao fato de adotarmos dois pontos de vista diferentes

      a) Vc diz que conhece empresas que podem sobreviver sem crescer.

      b) Eu afirmo que uma economia com um PIB per capita com uma taxa de crescimento igual a zero não é “saudável” (do ponto de vista do capitalismo).

      Mas, de resto, estou sem argumentos. Resta-me recomendar-lhe este trabalho.

      Abraço

      Comentar por Jose Ferreira | 25 de Abril de 2013

      • Estimado José,

        1) Nunca consigo descarregar os links que referencias… às vezes consigo encontra-los noutros lados ;o)

        2) O que nos aproxima é termos gosto em aumentar o nosso conhecimentos sobre os assuntos e assim estimularmos a imaginação. O ponto de partida é irrelevante. Como o meu QI é dos pequenos levo sempre mais tempo para chegar ao destino que qualquer pessoa no planeta! Sou assim desde pequeno pelo que já me habituei a viver com MAIS esta desvantagem intelectual.

        3) O que nos separa, parece-me ser eu estar a tentar perceber como é o arco iris de cores e tu estares (parece-me) a ser seduzido pelo arco iris de tonalidades. Não deixa de ser um arco iris giro, o das tonalidades. Claro que este mundo tem lugar para arco iris de tonalidades. Mas eu gosto mais de arco iris de cores!

        4) Chamar ao que temos hoje capitalismo é no mínimo um exagero. O que temos hoje é um sistema de elites identico a feudalismo, a comunismo e por aí fora. É a mesma coisa com nomes diferentes… afinal a rapaziada do marketing serve para quê?

        5) Quanto ao crescimento a coisa é bastante mais simples. O crescimento dos países depende de 1) furia do estado marxista/keynesiano/…/friedmaniano e da 2) demografia do seu país e dos países com quem interage.

        Assim sendo se a população de um país chamado Europa está “envelhecida” então tem menos consumo que um país chamado Brasil que tem um bónus demográfico. Lógico que esse país chamado Europa como vive virado para si mesmo não pode crescer muito porque as pessoas com uma certa idade (onde eu me incluo) consomem POUCO. O que fez o crescimento ANTERIOR foi as pessoas quando eram mais jovens terem consumido MAIS.

        Como é que a Europa podia crescer e muito (mas sempre limitada em termos de tempo porque não é possível crescimento eternos em sistemas finitos)?

        Por participar na satisfação de necessidades dos países onde os nossos irmãos de lá não têm acesso à materialidade (tangiveis) básica.

        6) Quanto ao PIB é uma medida engraçada das pessoas acreditam nas soluções baseadas nas tonalidades e não nas cores. Experimenta compreender o que é o PIB e ficas envergonhado como é que nós homo sapiens permitimos que tão pouco ciência controle as nossas vidas.

        Estou ansioso por te conhecer pessoalmente.

        Um abraço,

        Comentar por kiitossakidila | 26 de Abril de 2013


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