Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

A conjuntura após a decisão do TC

A política portuguesa acaba de dar um giro de 75º. Ele começou com avaliação da troika de fevereiro passado e terminou com a recente decisão do Tribunal Constitucional. Agora começará a ser executada. Existem duas mudanças significativas. (1) O controlo das contas do Estado passará a fazer-se pelo lado da despesa e não das receitas. Consequentemente prevê-se a que isso implique a demissão de 20 mil funcionários do Estado. (2) Timidamente, a construção civil volta a ter influência no governo (aqui e aqui também). Este setor tem um forte impacto no emprego devido ao seu efeito multiplicador. Resumindo: o dinheiro libertado pela degradação dos serviços sociais do Estado vai servir para continuar a alimentar o cancro que levou Portugal à crise – as obras públicas – , porque não apareceu outra solução para o crescimento económico como concluí aqui.

Isto levará obviamente a um deslocamento das tarefas das organizações de esquerda. Expus aqui que a classe trabalhadora se divide em três frações devido a duas tensões. Uma entre classe organizada e a massa desorganizada. Como o setor privado foi mais ágil que o Estado a  desorganizar os sindicatos, esta tensão opõe trabalhadores do Estado a trabalhadores do setor privado. Acresce-se que os segundos olham os primeiros como quem olha a declaração de impostos reforçando a tensão entre as duas frações. (Há uma preocupação constante do governo atual para tirar proveito disso). A segunda “tensão”, geracional, não cria uma oposição entre trabalhadores. Antes, primeiro, retira os jovens desempregados da primeira oposição e, segundo, dá-lhe o potencial de unificar toda a classe trabalhadora. Abordei este tema aqui e aqui.

A mudança de estratégia do governo retirará o “olho do furacão” da crise dos desempregados para os trabalhadores do Estado. Pois regressaremos timidamente ao modelo económico vigente entre 1985 e 2008 o que, pelo menos, estancará a sangria do desemprego. Mas há custa da demissão dos funcionários públicos. Isto tem duas consequências. 1) Os movimentos assentes nos jovens desempregados – M12M, QSLT, etc. – vão perder parte do seu protagonismo. Quem vai aumentar o protagonismo são os sindicatos. 2) Do mesmo modo, a segunda tensão no seio da classe trabalhadora, tendencialmente unificadora, perderá protagonismo para a primeira que, como disse, é bastante polarizadora. Assim, por um lado, será mais fácil fazer manifestações e greves com esses funcionários públicos sindicalizados. Mas, por outro lado, a elite e o governo tudo farão para apoiar-se nos trabalhadores do setor privado contra as greves. Isto é: a reação às greves (o aumento do salário para uns aparece como aumento de impostos para os outros) poderá significar a adesão ao governo.

Por tudo isto, apostaria na subida do PSD nas sondagens não fossem três fatores. 1) O enorme desgaste, quase irrecuperável, sofrido entre setembro e fevereiro passados. 2) A paz podre que entre as diversas frações da elite (isto é, a disputa entre frações da classe burguesa que se projeta na disputa entre partidos – ver aqui). E, finalmente, 3) a necessidade de renegociar o segundo acordo de resgate e as suas consequências para a imagem do governo.

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10 de Abril de 2013 - Posted by | Partidos, Portugal | , , ,

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