Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Contra o esquerdismo

A conjuntura, como comentei na minha última análise, tende a polarizar os trabalhadores portugueses. De um lado, os funcionários do Estado (p. ex.: trabalhadores do metro de Lisboa) e do outro os trabalhadores do setor privado (p. ex.: os caixas do Pingo Doce). Para as organizações sindicais – para a CGTP no contexto português – a dificuldade é encontrar o ritmo adequado para, por um lado, atender às exigências dos primeiros e, por outro, não romper com os segundos. Equação tanto mais impossível quanto mais os extremos se afastam. Assim a tendência ao afastamento entre os dois setores é também a tendência para o crescimento do discurso esquerdista – como este, do PCTP/MRPP. Pois, na medida em que a CGTP tentarem promover o equilíbrio entre todos os setores da classe trabalhadora, aqueles mais radicais vão acusá-la de recuada. (Note-se que o inverso é igualmente provável. Os setores mais atrasados da classe trabalhadora acusarão a central sindical de irresponsável, criando, com isso, condições para o crescimento da direita e da extrema-direita).

Mas este esquerdismo não é uma “doença”; é um sintoma. É o sintoma da tendência à polarização dos trabalhadores entre o marxismo e o fascismo. Portanto, sem negar que é necessário saber lidar com os esquerdistas, a questão se prende em resolver, favorável ao marxismo, aquela tensão. Aqui sou obrigado a reconhecer que o PCP sofre de “economicismo”. (O termo foi cunhado por Lénin para criticar as posições dos “economista de esquerda”, dirigentes do movimento operário russo de 1900. Também Lénin reconhece que é um termo infeliz, que não explica nada). O modo de pensar e trabalhar do PCP é reativo, não pro-ativo. É fácil dar um exemplo. No último congresso do partido, Albano Nunes, proferiu uma frase que explica todo o congresso, a começar pelo título da resolução política:

Se em termos mundiais o socialismo se apresenta como a única e verdadeira alternativa ao capitalismo isso não significa que por toda a parte estejam reunidas as condições para a conquista do poder pelos trabalhadores, e que a palavra de ordem e a tarefa imediata sejam a revolução socialista, tendo particularmente em conta o atraso do factor subjectivo.

Assim, sem compreender as causas do “atraso do fatos subjetivo”, o PCP recua taticamente para colocar-se junto às massas. Assim se justifica a adoção de um programa de “Democracia avançada” em lugar do socialismo. Note-se que os mais esquerdistas também reconhecem que possibilidade do socialismo não se vislumbra no horizonte deste tempo próximo. (Veja-se este texto do PCTP/MRPP). No entanto, enquanto o “economicista” adequa-se a situação o “esquerdista” mantém os seus objetivos a despeito dela. O primeiro limita-se a gerir o status quo; fica não apenas aquém do necessário mas também do possível. O segundo limita-se a criticar o primeiro e, com isso, a retirar eficácia a um trabalho já por si insuficiente. É por isso que o “economicismo” nunca é mais do que um ponto de partida. E que o “esquerdismo” é, no melhor dos casos, um sintoma – uma dor de cabeça. E, no pior do casos, um obstáculo: uma dor de cabeça que não permite pensar.

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14 de Abril de 2013 - Posted by | Ideologia, Partidos | , , ,

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