Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Rescaldo das eleições venezuelanas

Surpreendendo tudo e todos, Nicolás Maduro ganhou do seu oponente Henrique Caprilles por apenas 1,6% (cerca de 250 mil votos). Como não podia deixar de ser, a oposição já exigiu a verificação de 100% dos votos (usualmente, apenas 50% dos votos, entre máquinas sorteadas, são recontados). E, claro, o candidato derrotado também veio falar de fraude e corrupção e a não reconhecer o resultado eleitoral. As sondagens deram ao candidato do PSUV os mesmos 10% de vantagem que Hugo Chavez obteve em setembro passado. E, sendo o funeral de Chavez a primeira ação de campanha de Maduro, esperava-se ainda mais. Mas o resultado foi bem distinto.

Espera-se que nos próximos dias Maduro procure retomar o curso normal das instituições enquanto Capriles tentará dinamizar a contestação social para influenciar a recontagem. Maduro tem a seu favor a fiabilidade do sistema eleitoral venezuelano (ver aqui também). Tem a seu favor um surpreendente apoio das instituições, em especial do exército. E tem a seu favor o facto de que a contestação social iniciada por Capriles é contra as instituições do Estado: a começar pelo CNE. No governo, cabe-lhe apenas garantir que as instituições se defendam sem ceder. Enquanto ele, o candidato mais votado, apela à paz social. Não sendo impossível que Capriles possa alterar o resultado na recontagem (afinal estão em causa cerca de 250 mil votos), é muito difícil. É pouco provável que tenha havido fraude.

Mais preocupante é a surpresa do resultado. Há alguns meses, um interessante jornal de análise de política internacional dizia que seria mais fácil a divisão do movimento bolivariano que a vitória da oposição. Sucedeu precisamente o contrário. A ala militar do chavismo aceitou a liderança da sua ala popular. Diosdado Cabello nunca ameaçou a liderança de Nicolás Maduro. (As disputas entre líderes não resumem as tensões entre grupos. São produto delas e, por isso, tornam visível a dinâmica da tensão entre os grupos). E a oposição esteve a 250 mil votos da vitória. Não se trata, portanto, de uma simples mudança na conjuntura venezuelana com o regresso de um país divido em dois. Isso é um facto! Mas também é um facto que a estabilidade à esquerda, isto é, do projeto bolivariano, nos últimos anos, foi mal compreendida. E não poderá ser compreendida esta nova conjuntura sem (re)conhecer o que ainda não foi compreendido na conjuntura anterior.

É certo. Tudo pode não passar de um equívico de campanha. Enquanto Maduro elogiava Chavez, Capriles criticava Maduro. Ninguém falou mal de Chavez; tampouco alguém falou bem de Maduro. E no fim, Nicolás Maduro é que foi a eleições. Mas isto parece-me insuficiente para justificar tão grande surpresa.

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15 de Abril de 2013 - Posted by | Mundo | , , ,

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