Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

A encruzilhada venezuelana

Depois do fracasso da manifestação convocada pela oposição venezuelana segunda-feira passada, Henrique Capriles está derrotado. A recontagem dos votos dificilmente ocorrerá. Nicolás Maduro pode aceitar de bom grado essa recontagem, caso as instituições do país assim o decidam, na medida em que pode controlar a sua decisão. O CNE levará quase um mês a decidir para ver onde as águas param. Enquanto isso, a justiça já afirmou que a recontagem não está prevista em lei – a oposição, portanto, apenas pode apelar da decisão a instituições internacionais.

Do ponto de vista interno, a coisa não está fácil para a oposição. Num texto anterior afirmei que o mais importante agora, para entender a Venezuela, seria entender como, entre novembro e abril, o chavismo perdeu 600 mil votos para a oposição. Um péssimo líder não explica tudo – ou melhor, só passa a explicar quando se nota que a campanha eleitoral que fez o colocou em choque e em xeque com a classe média. Ao extremar as comparações entre Chavez e Jesus Cristo (que Chavez sempre soube manter no q.b.), o comentário homofóbico a meio da campanha e, finalmente, a estúpida história do passarito explicam a perda dos votos da classe média.

Mas, se isto é assim, então Nicolás Maduro tem a faca e o queijo na mão. Há muito que os sociólogos tem mostrado que a preocupação com que a política se faça por forma a respeitar as instituições é uma preocupação de classe média. As classes trabalhadoras e pobres estão bastante mais preocupados com os seus resultados e não com a sua forma. (Seguindo Bourdieu, o que define a classe média é um desdém público – nem sempre privado – pelos assuntos materiais como forma de diferenciar-se da classe trabalhadora atada à omnipresença das suas necessidades quotidianas. Disto resulta a valorização da esfera moral. Bourdieu tentou demonstrar isto numa enorme pesquisa feita em França e publicada no início da década de 1970). Assim, enquanto os chavistas têm maior controlo pelas instituições do Estado e menos necessidade de respeitá-las, a oposição está no lugar oposto. Com os acontecimentos violentos de segunda-feira, Capriles foi obrigado 1) a demarcar-se da ação dos seu apoiantes e 2) a prescindir de novas manifestações e quaisquer ações políticas por fora das instituições do Estado.

Resta à oposição, assim, apenas a pressão internacional. A reunião da Unasur, marcada de urgência e a decorrer enquanto escrevo, é uma das poucas possibilidades para a oposição. Mas deve ser mais favorável a Nicolás Maduro. Por várias razões. Primeiro, porque países como a Argentina, Equador e Bolívia necessitam, pelo seu próprio projeto político interno, da continuidade do chavismo. O Brasil, por seu turno, necessita da tensão entre a Venezuela e os EUA para aparecer como mediador livre (indo de um lado ao outro de acordo com os seu interesses) e afirmar-se como potência regional. Por fim, o principal aliado dos EUA são a Colômbia… que tem como principal destino exportador a Venezuela. Por essa razão tampouco estão dispostos a confrontar o chavismo. Daí que a maioria destes países já tenha reconhecido a vitória de Nicolás Maduro (ver aqui, aqui e aqui). Dos dois países que sempre apoiam a oposição, EUA e Espanha, o segundo já cedeu.

Assim, Maduro poderá fazer ou não a recontagem consoante o desenrolar da situação e os seus interesses.

Posto isto, afirmo que acredito mais na contagem que numa futura recontagem. O voto na Venezuela é como no Brasil – eletrónico – e a contagem nada mais é que a compilação dos relatórios de todas as máquinas. No entanto, ao contrário do Brasil, a máquina emite um recibo para cada eleitor que o deposita numa urna com se fosse um voto convencional. Usualmente, 55% das urnas são contadas manualmente para confirmar o relatório automático da máquina. Capriles exigiu a auditoria de 100% das máquinas. A questão é: uma contagem automática, em tranquilidade, é menos fiável que uma contagem manual com o país à beira da guerra civil? Recorde-se que a oposição só duvidou da honorabilidade dos resultado quando já se contava votos: isto é, quando a demora no comunicado no CNE indicava que a diferença no número de votos é pequena.

Por certo Capriles também sabe disto. Mas esta luta inglória tem um objetivo: assegurar o terreno conquistado na classe média.

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18 de Abril de 2013 - Posted by | Mundo, Partidos | , , , ,

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