Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Gramsci para tótós

António Gramsci

Hoje, mais uma vez, ouvi um resumo do “pensamento gramsciano” tal como é entendido por várias organizações populares brasileira. Uma confusão! De um lado, as maquinas do mal: os aparelhos privados de hegemonia. Do outro, os agentes do bem: os intelectuais orgânicos. Os segundos, indivíduos destacados de entre as classes subalternas, dirigem seus companheiros contra aquelas máquinas. Uma luta entre o bem e o mal – dizer isto não é excessivo.

Mas basta ler o Il Risorgimento para ver que não é bem assim. Intelectuais orgânicos são aqueles que de facto elaboram o pensamento das classes. Neste caso específico, mais do que membros das classes subalternas, são romancistas. Suas obras estruturam o pensamento nacionalista que há-de ser capaz de unificar a Itália. Sob liderança da burguesia e contra o burocracia do Vaticano em declínio. Se há uma diferença entre intelectuais orgânicos e intelectuais no sentido habitual é que os primeiros não precisam de ser reconhecidos como intelectuais para sê-lo. Mas tampouco precisam de ser elementos da classe subalterna. O que os define é, consciente ou inconscientemente, influenciarem o modo como um grupo ou classe pensa.

Neste caso, Nietzsche é um bom exemplo. Nunca pretendeu escrever para os seus contemporâneos – que detestava. Mas ao escrever isso mesmo traduziu melhor que ninguém o sentimento da nação alemã do final do séc. XIX descontente consigo mesmo. Não apenas traduziu esse sentimento em livros. Uma vez publicados, seus livros reforçavam esse sentimento. O mesmo se pode afirmar de Menocchio – moleiro do séc. XVI queimado pela Inquisição,  cujo processo foi abundantemente estudado por Carlo Ginzburg. A sua posição na aldeia (moleiro) permitia-lhe conhecer o modo de pensar dos seus vizinhos, elaborar o seu a partir daí, e divulgar as suas ideias que, afinal, eram de todos. Lénin, ao ser capaz de expressar e influenciar a vontade da classe operária russa, foi igualmente um intelectual orgânico.

O que Gramsci faz é algo muito simples. Ele duplica a luta de classes. Ela existe, primeiro, entre classes e, depois, entre intelectuais orgânicos. Podemos dizer hoje: entre formadores de opinião. Nesse sentido, a tarefa dos comunistas era levar a cabo a segunda luta. E assim abrir espaço para que o proletariado (as classes subalternas – como ele escreve para escapar à censura) faça a primeira. Os aparelhos privados de hegemonia – a Igreja, o jornalismo, os partidos e sindicatos, a escola, etc. – não são mais que os espaços onde os intelectuais orgânicos disputam entre si. E, na medida que são propriedade da burguesia, tendem a ser favoráveis aos intelectuais da burguesia.

Note-se aqui uma coisa muito simples. Gramsci quer explicar porque o socialismo foi possível na Rússia mas não na Itália. Pois, a mesma crise económica que abalou a Rússia abalou toda a Europa. Sua resposta é a seguinte: uma crise económica não é suficiente para fazer a Revolução; é necessário que as massas estejam dispostas a deixar-se liderar por revolucionários. Mas os revolucionários nunca irão encontrar uma massa despida de ideias disposta a recebê-los. Pelo contrário, irão enfrentar os seus ideólogos (intelectuais orgânicos) e estes, em sua grande maioria, são o elo entre tal classe dominada e a classe dominante. Portanto, os intelectuais orgânicos de uma classe revolucionária podem ser tanto revolucionários como reacionários (lembremos da crítica de Lénin ao oportunismo revisionista).

Em uma crise, a burguesia pode ver-se despida de grande parte da sua força material mas, ainda assim, ter força ideológica para manter as outras classes sobre o seu domínio. Por outras palavras: só é possível vencer a luta de classes fundamental se houver condições para vencer a sua duplicação entre intelectuais orgânicos. Sem isso, os proletário são levados na direção equivocada – como o foram pelo fascismo.

Parece-me que não há grande margem para divergências em relação ao que ficou dito. Há, não obstante, dois pontos onde Gramsci foi ambíguo.

1. Se as crises não são condição suficiente para uma situação revolucionária. Ao menos, são condição necessária? Até onde eu li, Gramsci nunca respondeu explicitamente. Tal facto permitiu que se defendesse que a luta entre intelectuais orgânico podia ser o motor da história. Há medida que os intelectuais de esquerda fossem ocupando os vários espaços nos aparelhos privados de hegemonia a força da classe operária ia crescendo com a sua “tomada de consciência”. Eis o cerne do eurocomunismo.

Contudo, esta análise esquece que Gramsci não produziu um tratado de política. Ele apenas deixou as suas notas do estudo da luta da burguesia contra o feudalismo que, em Itália, terminou bem depois do resto da Europa (em particular, pela influência do Vaticano). Ainda que ele não enfatize a necessidade da crise, ele é obrigado a estudar o momento da crise do feudalismo. Daí que eu me permito a uma interpretação que, sem dúvida, ultrapassa Gramsci na mesma medida que a interpretação eurocomunista. Mas na direção oposta. As crises surgem como uma oportunidade. Se ela é aproveitada ou não dependerá do embate entre intelectuais orgânicos.

2. Gramsci foi muito claro ao afirmar que somente os intelectuais orgânicos organizados em partido tinham capacidade de conduzir um processo revolucionário. Mais não fosse pela desvantagem em relação às intelectuais orgânicos do proletariado afins à burguesia. Não obstante, conceituados gramscianos consideram que tal defesa do partido se deveu apenas à admiração de Gramsci por Lénin e é incompatível com o resto da sua teoria. Esta teoria assenta no erro de que todos os intelectuais orgânicos são de esquerda. Basta que cresçam em número e a Reforma (tais autores também costumam adotar a posição reformista) está garantida.

Ora não é essa a postura de Gramsci. A transformação da sociedade capitalista em uma sociedade socialista e, também, a condução da sociedade socialista exigem um trabalho de liderança organizado. Por isso mesmo, o partido é indispensável como instrumento de liderança da classe trabalhadora. Nesse sentido é um espaço de coordenação dos intelectuais orgânicos de esquerda – um aparelho privado de contra-hegemonia e futura hegemonia. (Gramsci estava com um olho no burro e outro no cigano. Quando analisava o sucesso da burguesia em organizar as classes populares contra o Vaticano, não deixava de contratá-lo – nota-se pelos termos que emprega – com o insucesso do PCUS em conduzir a classe camponesa).

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18 de Abril de 2013 - Posted by | Ideologia | ,

3 comentários

  1. Parece-me que a “falácia” da luta de classes pode ser desmontada pela reflexão destes dois conceitos:

    :: A “lei” da desproporcionalidade
    :: A “lei” dos fractais

    http://en.wikipedia.org/wiki/Vilfredo_Pareto

    e

    http://en.wikipedia.org/wiki/Fractal

    Comentar por kiitossakidila | 23 de Abril de 2013

    • Ui!!!

      Essa questão é complexa porque a luta de classes, no marxismo e teorias sociais por ele inspiradas, é tanto metodológica quanto ontológica. Por outras palavras: A luta de classes é, por um lado, apenas um suposto metodológico. Mas ele só funciona porque faz referencia a algo realmente existente.

      Nota: apesar de eu ainda usar o “18 de Brumário” de Marx como inspiração para analisar a política enquanto luta de classes, faço-o sabendo que existem teorias mais robustas que incluem a resposta à sua provocação. Mas, bom, neste blog que é um passatempo alcança-me a lupa; não vou aplicar o microscópio. A resposta que se segue, não obstante, é um resumo dos supostos dessa teoria mais robusta.

      1. Posso começar por uma frase muito citada pelo meu sociólogo favorito, Pierre Bourdieu. A frase, segundo ele, é de Pareto, Cito de cor: Não é por não saber onde começa a burguesia que ela não existe. Também não sabemos com que idade se começa a ser velho e nem por isso a velhice deixa de existir.

      2. Mas isto prende-se com outra coisa. O nosso cérebro apreende por descontinuidades o que é continuo. Isto é, para darmos conta, subjetivamente, das diferenças de altura classificamos os homens em altos, médios e baixos. A invenção do metro vem depois desta constituição intuitiva da diferença. Pode mesmo dizer-se: a classificação é uma operação mental espontânea e quotidiana. A medição é uma operação técnica e excecional.

      (A psicanálise lacaniana permitiu entender o processo de classificação com mais profundidade. Mas vamos ficar por aqui).

      3. A transformação da continuidade em descontinuidade é um processo natural, histórico e político. Natural porque é uma necessidade do funcionamento do cérebro. Histórica porque nenhum de nós é livre para criar a sua classificação. Usamos uma ou outra que encontramos prontas na nossa cultura. E política na medida em que uma grelha de classificação pode predispor ao protesto enquanto a outra predispõe ao conformismo. Basta pensar em operários/burgueses e classe baixa, média e alta.

      4. As desigualdades se transformam pela sua politização. Daí que luta de classes tenha um valor metodológico para a ciência social. Centrando-nos em um conflito entre dois grupos podemos i) entender o que os separa (quase sempre uma diferença continua) e ii) acompanhar a transformação dessa diferença pela luta política entre o dois grupos.

      5. Quase sempre, a forma de desqualificar a luta de classe é provar que a classificação usada por Marx – que ele tomou dos trabalhadores industriais de Paris – não explica muita coisa. É verdade. Mas a “luta de classes” segue com valor metodológico. E pode ser aplicada ao discurso dos 99% de Wal Street. Como já foi aplicada a um bairro de Newcastle onde os moradores do centro (as famílias que residiam ali a mais gerações) estava em conflito com os da periferia (as famílias recém chegadas).

      Podia ser aplicada também, para usar as suas palavras em outro comentário, as empresas TBTF a todas as outras. (Aliás, quero escrever algo sobre isso, que foi muito debatido pela tradição marxista das primeiras duas décadas do séc. XX e depois se perdeu).

      Pode ainda ser usada como eu uso aqui. (Neste texto, vc deve notar não as vezes que eu me refiro à classe burguesa, classe média, etc. mas à centralidade, no argumento, de duas “lutas de classe”: entre a banca e as grandes superfícies; e entre a base do PS e a sua direção! Construo o argumento a partir do conflito, ou melhor, da diferença – como é prática entre os sociólogos).

      6. De qualquer modo, a classificação usada por Marx ainda é válida para aspetos importantes da sociedade moderna. O seu método de análise é pilar fundamental da sociologia moderna.

      7. Afinal, já dizia Hegel: o que não tem contradições e conflitos internos está parado ou morto.

      Abraço.

      Comentar por Jose Ferreira | 23 de Abril de 2013

  2. Também aqui estamos sintonizados!

    O ponto 4) e o ponto 7) são suficientes para ligar a Pareto e os Fractais!

    Comentar por kiitossakidila | 24 de Abril de 2013


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