Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

O discurso de Cavaco

Propositadamente ou não, o discurso de Cavaco Silva no 25 de Abril está a ter efeitos mais severos sobre a oposição interna a José Seguro e sobre os partidos à esquerda do PS que sobre José Seguro e a atual direção do PS. Os avisos do Presidente da República, a sua colagem ao governo, tem por efeito descolar definitivamente José Seguro e o PS da política em curso. Se, à primeira vista, ele parece ter o efeito oposto ao que está expresso em seu conteúdo, num olhar mais cuidadoso – sobretudo depois do congresso do PS – ele parece cumprir os objetivos a que se propunha.

O discurso de Cavaco Silva permitiu que José Seguro, que nunca quis rasgar definitivamente o memorando da troika (apenas renegociar os compromissos), se tornasse o “verdadeiro” líder da oposição, uma alternativa de jure ao governo. E faz isto em um momento em que ele não é alternativa de facto. Um momento em que o governo está já a implementar os poucos pontos em que  a direção do PS tinha se mostrado em desacordo com a política seguida: a renegociação das maturidades da dívida; um plano para o crescimento económico e o fim de mais austeridade (o “conflito” no seio do governo não é um conflito de fato, mas uma forma de fazer parecer que as parcas medidas de austeridade a apresentar hoje pareçam maior do que o que são. Sem dúvida, os cortes do TC já eram esperados e ficaram dentro da margem de manobra do governo).

Consciente ou inconscientemente, o Presidente da República colocou a disputa política onde ela não existe. Mas fez pior: ao tornar José Seguro o “líder” da oposição de jure, Cavaco abriu caminho a que o PS fosse disputar votos na oposição de facto e não na base eleitoral e social do PSD. Basta ouvir as conclusões do congresso do Partido Socialista cujo mote está, antes de mais nada, nestas declarações de António Arnaut. A exigência de uma maioria absoluta associada à vontade de um governo de coligação – certamente à esquerda, mas desnecessária – não passa de uma forma de atrair o voto à esquerda. Mas quem fala de votos fala de forças sociais: tenderá assim a cair sob a “liderança” de José Seguro o empenho de grandes e pequenos empresários, trabalhadores e desempregados capazes de frear na rua as políticas em curso.

Intencionalmente ou não, Cavaco e Silva agrava a dificuldade da esquerda a sério fazer política. Como eu tinha afirmado, as mudanças na estratégia do governo aquando da visita da troika de fevereiro já tornavam mais difícil fazer oposição ao governo. Mas agora, com o discurso do Presidente da República, a oposição de jure irá crescer para cima da oposição de facto – o que, naturalmente, ainda complica mais as coisas.

É certo que o PCP já deu a resposta necessária. É preciso, no entanto, que a mensagem passe.

Anúncios

29 de Abril de 2013 - Posted by | Partidos, Portugal | , , ,

Sorry, the comment form is closed at this time.

%d bloggers like this: