Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

As “razões” de Soares

A elite portuguesa está divida em torno de um problema. No combate à divida pública, o que devemos fazer? Aumentar o PIB ou controlar a despesa do Estado? Trabalhar no denominador ou no numerador? (Recorde-se que a dívida pública é medida em percentagem do PIB, portanto é o ‘valor devido’/PIB*100). Ou mais exatamente: Como eu escrevi há um mês atrás, há cada vez mais consenso em reconhecer que o problema está no crescimento do PIB, no denominador. Portanto, o que divide a elite é como fazer a troika, em especial o governo alemão, aceitar isto. Dando um murro na mesa ou negociando com paninhos de lã?

Mário Soares não está neste jogo. Nem sequer num jogo partidário. Ele não busca retirar o PSD do governo para pôr lá o PS. Neste momento, o PS não obteria maioria absoluta. Seria então obrigado a uma coligação inevitavelmente à direita: seja com o PSD, seja com o CDS. O PCP e o BE jamais aceitariam uma coligação que não tivesse por base “rasgar” o memorando da troika. Assim, a campanha de Soares contra a austeridade e contra Passos Coelho (aqui também) deve ser vista por outras razões.

Se a elite aguarda cautelosamente a chance de um governo de maioria socialista para fazer cair Passos Coelho, Soares – e diga-se de passagem, Pacheco Pereira – sabe que não é bem assim. A correr bem à elite, a subida necessária nas sondagens coincidiria com as eleições autárquicas e a elaboração do Orçamento de Estado. O descalabro eleitoral dava um bom motivo para a demissão de Passos. Os compromissos com a CE que o governo terá de assumir no momento em que elaborar o OE seriam-lhe imputados. Possivelmente virá um novo pacote financeiro sem o FMI – encapotado. Seguro faria como Passos fez com Sócrates: atiraria as culpas para trás.

O problema é que não é certo que a “democracia” dure até lá. Agora não é mais uma questão de reflexão, mas um problema prático. O “centro”, os partidos do “centro”, em declínio há algum tempo, arrisca-se a implodir. Ao centro, os candidatos municipais desvinculam-se dos seus partidos no governo, escondendo a sua filiação partidária quando não criam listas independentes. Paira no ar a possibilidade de divisões dos dois maiores partidos portugueses em novos partidos mais pequenos, tal como aconteceu com o PASOK na Grécia. Até agora, o efeito não tem sido esse. Os votos perdidos ao centro têm caminhado para a abstenção e os partidos do centro têm garantido uma adesão mais emocional que racional. “Se são todos iguais, eu voto no meu” – dizem! No entanto pode, a qualquer momento, deixar de ser assim.

Em suma, está praticamente criado o clima para que um Lénin ou um Hitler apareçam em Portugal. Só que eles não têm aparecido.

E Soares sabe disso!!!

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9 de Junho de 2013 - Posted by | Partidos, Portugal | , , ,

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